Há algum tempo, falamos aqui de como a depressão de uma pessoa próxima, amada, nos afeta e também sobre como podemos ajudar. Agora é a vez de falarmos sobre outro aspecto da saúde mental: a ansiedade.

Ansiedade

Dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) apontam que o Brasil é o país mais ansioso do mundo. Portanto, é bem provável que alguém próximo a você sofra deste transtorno – se não for você mesmo/a.

Apesar deste quadro, o preconceito em relação aos transtornos mentais – a psicofobia – continua firme e forte, mantendo muitas pessoas que precisariam de atendimento afastadas da ajuda especializada.

Há vários medos envolvidos, na psicofobia. O possível paciente teme, por exemplo, precisar tomar medicação. Teme ficar dependente de remédios, e o estigma em si, de ser ‘louco/a.

Entendendo a ansiedade

De forma bem resumida, a ansiedade é uma preocupação com algo que ainda não aconteceu, com o futuro. Porém, nem tudo o que se pensa, mesmo que possa acontecer nem acontece.

A ansiedade surge graças à capacidade  humana de pensar,  de ir e vir no tempo. Às vezes, surge quando se relembra uma experiência traumática : generaliza-se, imagina que a mesma situação irá se repetir.

Mas, se fosse possível contabilizar, a maioria das preocupações, felizmente, não se confirmam. No entanto, se você começa a se comportar de forma evitativa diante de algumas situações, sua vida fica bem limitada

Causas da ansiedade

Existem causas externas – uma catástrofe que aconteça, a instabilidade na família ou mesmo um pai e/ou mãe ansioso/as que ensinam que o mundo é perigoso, que não se pode confiar nas pessoas e que é necessário controlar ao máximo. Ou seja, o sofrimento mental pode surgir da observação do comportamento de pessoas importantes na sua vida.

Não descuide da sua saúde mental – a ansiedade pode ser muito limitante. E estressante.

Tipos de ansiedade

Na última versão do Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders – Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais -, o Dsm-V, critérios  diagnósticos foram revistos. Nesta última versão, entre as variadas formas de ansiedade, temos Transtorno de Ansiedade de Separação, fobias, Transtorno de Ansiedade Social (Fobia Social), ansiedade de desempenho,  Transtorno de Pânico, Transtorno de Ansiedade Generalizada, Transtorno de Ansiedade Induzido por Substância/Medicamento, por exemplo.  

Ansiedade afeta seus relacionamentos  interpessoais

Não é só a pessoa ansiosa que sofre. Parentes, amigos, cônjuges podem se ressentir da pressão que colocam, por temer situações improváveis, algumas vezes banais.

Na tentativa de reduzir a ansiedade, o/a ansioso/a tenta controlar as situações, sendo às vezes impositiva/o, o que pode gerar muitos conflitos. Tentar controlar as situações também pode limitar a vida, quando se passa a evitar  situações ou ambientes, restringindo as possibilidades de experiência – o que acaba reforçando a ansiedade. Se você não enfrenta, não pode desmentir o que você pensou, certo? 

Parceiro/a/s de alguém que sofre de ansiedade muitas vezes precisam de  ajuda psi para conseguirem lidar com esta condição do seu par, preservando o  o relacionamento (mais abaixo, 22 dicas) 

A ansiedade pode ser boa?

Eventualmente, em certa medida, a ansiedade pode ser boa e produtiva, ao  proteger de riscos desnecessários. Mas qual o  limite entre o saudável e o patológico?

Segundo as teorias evolucionistas, a ansiedade é antiquíssima:  nossos ancestrais viviam em um mundo perigoso, cheio de predadores e aqueles  que se recolhiam mais cedo, ficando em suas cavernas, sobreviviam. Somos descendentes dos sobreviventes, e provavelmente  uma história genética da ansiedade. 

Como em vários outros transtornos, a inflexibilidade psicológica e cognitiva caracterizam a ansiedade.  Não adianta saber (cognitivamente) que o que se pensa provavelmente não acontecerá. A pessoa com um diagnóstico de ansiedade faz um erro cognitivo comum: catastrofiza, sempre esperando o pior. Ela pode ter evidências de que o que ela imagina não vai acontecer mas, mesmo assim, não consegue parar de pensar. Pode generalizar, pegando uma situação ruim que passou, e assim afeta sua relação com  outras pessoas. 

O que fazer? 

Sem conhecer bem o que se passa na mente da pessoa ansiosa, às vezes você pode “dar conselhos” que não ajudam em nada. Pelo contrário, podem gerar mais ansiedade, raiva ou afastamento. A pessoa ansiosa pode se sentir julgada, criticada.

Não tente minimizar ou desqualificar o que ela sente – ela sente na pele dela. Por mais que você seja uma pessoa empática, a emoção é dela, não sua.  Então, preste bem atenção ao que não dizer

Raven Fon listou 22 coisas importantes para quem tem amigos ou amigas que sofram de ansiedade. Se você está em um relacionamento  amoroso, íntimo, com alguém que sofre de ansiedade, deve observar bem estas dicas. 

  1. Por mais que  você ache a causa da ansiedade  totalmente irracional, é muito real para ele/a;
  2. A ansiedade pode surgir a qualquer momento e quando ela surgir a única coisa que você pode fazer é dar apoio;  
  3. Eles não estão dispensando você. É difícil fazer planos e falar ao telefone é, às vezes, igualmente. Nem isto  significa que eles não querem  passar um tempo com você e conversar – simplesmente não podem.
  4. Seja paciente com as pessoas ansiosas;  nem sempre a ansiedade parece um ataque de pânico. Às vezes, se expressa como raiva, ou pode parecer com uma grande frustração ou aborrecimento.
  5. Não leve para o lado pessoal se elas demonstrarem frustração ou raiva – não é sobre você.
  6. Mesmo quando as coisas são maravilhosas, há aquela ansiedade e medo de algo horrível ao virar da esquina. A felicidade é fugaz, na melhor das hipóteses.
  7. Quando estão calados, nem sempre é porque estão tristes, entediados ou cansados. Pelo contrário, há tanta coisa acontecendo em sua mente que é difícil acompanhar tudo o que acontece ao seu redor.
  8. Ansiedade nem sempre é explicável. Às vezes, as pessoas ansiosas nem   sabem porque estão se sentindo assim.
  9. Sentem muito por todos os convites que recusam, pelo comportamento irracional e coisas ofensivas que eles disseram quando estavam se sentindo sobrecarregados ou assustados. Sentem muito que a ansiedade deles também lhe machuque. – às vezes, passada a situação, o sentimento é de vergonha, que pode levar ao afastamento e piorar o quadro.
  10. Elas podem parecer que querem se isolar – mas não  desista. Reforce que  você ainda se importa e quer vê-los. Continue convidando-os – significa muito o que você pergunta.
  11.  Ansiedade faz com que examinem tudo, o tempo todo. Pode ser exaustivo. – checam muito a situação para minimizar riscos e evitar problemas.
  12.  Não tente “corrigir” a ansiedade.  Apesar de muita gente ter um remedinho de S.O.S à mão, experimente outro caminho: a aceitação. Como par amoroso de alguém que sofre de ansiedade, também trabalhe a sua aceitação de que a pessoa que você ama tem  este traço. A ansiedade já existia, provavelmente, antes de você chegar. O simples fato de aceitar já irá diminuí-la, sem que a pessoa se sinta “defeituosa”. Todo mundo fica ansioso/a de vez em quando.
  13.  Ansiedade nem sempre é óbvia – algumas pessoas não percebem sua própria ansiedade, já que ela é tão natural. Mas você pode dizer o que percebe, abstendo-se de julgar ou de tentar resolver.
  14. Se estão desconfortáveis ​​fazendo algo, pode deixar de fazer. Forçar o problema só piora a ansiedade. Sorria e siga em frente.
  15. A interação social é difícil para algumas pessoas com ansiedade. Não presuma que seus cancelamentos repetidos em seus planos estejam de alguma forma relacionados a eles serem hostis ou preguiçosos. Quando você realmente precisar deles, eles estarão lá para você.
  16. A última coisa que precisam ouvir de vocêé “apenas supere isso” ou “você está sendo bobo/a”.
  17. Continue convidando-os a sair e fazer coisas com você. A ansiedade oscila de um dia para o outro  – alguns dias será mais fácil  que aceitem; portanto, tente outra vez.
  18. Quando  dizem que atingiram o limite e não podem mais aceitar, eles realmente querem dizer isso. Respeite isso e dê-lhes espaço para respirar.
  19. Quando  dizem que não podem fazer algo, são eles que sentem o maior desapontamento.
  20. Às vezes,  só precisam ficar sozinhos. A ansiedade não pode ser abalada por “fazer algo divertido” e não pode ser remediada usando os mesmos métodos que você usaria para alguém que foi demitido recentemente. Eles não são loucos ou chateados, eles só precisam recentrar e relaxar.
  21. Quando  falarem com você, eles examinarão cada palavra – o contexto, a gramática, as insinuações. E eles podem continuar obcecados com essas conversas nos próximos anos. – dependendo inclusive do seu histórico, da sua linha de psicoterapia, por exemplo, uma palavra fora do lugar pode ser interpretada de forma totalmente distorcida. Tenha paciência.
  22. Pessoas ansiosas não são sua ansiedade. – são pessoas que sofrem, são únicas e tudo o que elas querem (e precisam) é que sejam aceitas e amadas incondicionalmente.

Como tratar?

Caso você se identifique como uma pessoa ansiosa,  procure ajuda, faça um bom psicodiagnóstico e siga as orientações de profissionais da área da saúde mental. Algumas vezes, uma mudança no estilo de vida será o fundamental. Atividade física, meditação, psicoterapia podem ser suficientes.

Eventualmente, a medicação pode ser necessária, a princípio, mas, com a continuidade do tratamento e a manutenção dos hábitos saudáveis e da psicoterapia, poderá até ser retirada, com o devido acompanhamento médico. 

Alguma sugestão? Compartilhe com quem se interessa pelo assunto. 

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Thays Babo é psicóloga e publicitária, Mestre em Psicologia Clínica pela Puc-Rio. Com formação em TCC pelo CPAF-RIO e extensão em Terapia de Aceitação e Compromisso pelo IPq (USP), atende jovens e adultos em terapia individual, de casal e pré-matrimonial,  em Copacabana. 

Ansiedade – como amar alguém ansioso?
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