É desconcertante rever o grande amor“, cantava Chico Buarque em Anos Dourados. Quem já teve um grande amor pode se sobressaltar ao reencontrar alguém que tenha sido muito significativo no passado, mesmo estando em  um relacionamento estável. E é esta situação que “Apenas uma noite” (Last Night) aborda, mostrando impasses e a dificuldade de se comprometer ou renunciar a outras possibilidades.

Joanna (Keira Knightley) e Michael (Sam Worthington) moram em Nova Iorque. O jovem casal, de repente, se vê em uma crise conjugal, sobre a qual nem tem muito tempo para discutir, despertada pela desconfiança de Joanna ao conhecer uma nova colega de trabalho de Michael, Laura (Eva Mendez), com quem ele terá de fazer uma viagem de negócios. Com a autoestima abalada, Joanna reencontra, por acaso, seu ex-namorado, Alex (Guillaume Canet), justo no dia seguinte à discussão com o marido e sua viagem. Last night mostra a dificuldade de muitas pessoas de lidarem com suas escolhas e a necessidade de renunciar a outras escolhas.

O filme guarda semelhanças com Closer, podendo ser espinhoso para casais espectadores que estejam passando por uma crise afetiva e não queiram tocar no assunto. E, por outro lado, pode servir aos casais corajosos, servindo como filmoterapia… 

Em alguns momentos, o filme é tão angustiante quanto Closer. As personagens não são estanques, todos têm suas fragilidades e carências, não são monstros insensíveis, ‘predadores’. O que decidem, o que escolhem, o que falam ou o que omitem pode despertar carinho ou pesar por eles. A vida se constitui de escolhas, nem sempre definitivas, nem sempre as melhores. 

Como filmoterapia, pode facilitar a discussão sobre fidelidade e traição. Há quem julgue que a mera fantasia já constitui infidelidade. Há quem diga que só há traição quando há troca de fluidos; para outras, omitir uma parte significativa do passado, que às vezes se faz presente, já seria o suficiente. Mas será que todos os desejos devem ser compartilhados e confessados? E o histórico afetivo-sexual deve ser destrinchado quando se entra em uma relação estável, como o casamento? O dito e o não dito, mesmo que sejam só desejos – ou fatos do passado – constituem traição? Este tema é bastante polêmico e muitas vezes o que traz uma pessoa ou o casal para terapia. Deveriam ser conversados antes mesmo de um casamento, compartilhando os valores em comum que deverão então orientar ações do casal compromissadas com estes valores. Mas sempre se deve ter em conta que não se pode controlar tudo, que há situações imponderáveis. Mas que um relacionamento deve se basear na confiança depositada na outra pessoa e a atenção para o momento presente, com uma boa comunicação que propicie a harmonia do casal. 

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Thays Babo é Psicóloga Clínica, Mestre pela Puc-Rio, com formação em TCC pelo CPAF-RIO e extensão em Terapia de Aceitação e Compromisso pelo IPq (USP). Atende a jovens e adultos em terapia individual ou de casal, no Centro do Rio e em Copacabana