As inúmeras crenças sobre o amor romântico, tão criticado por pesquisadores de áreas como Sociologia e Psicologia, já foram debatidas em outros posts aqui. Apesar das evidências contrárias a este estilo de amor, que tem ideais muitas vezes inalcançáveis, ainda é o modelo que muitos casais perseguem. Assim, ao verem suas expectativas frustradas, chegam à psicoterapia em sofrimento, por terem tentado  encaixar seus relacionamentos de vida real em modelos de contos de fada, hollywoodianos. Questionam-se sobre qual o problema delas. Mas, como os pesquisadores apontam, o problema é manter e alimentar tais crenças e ideais. O que se precisa é mudar e rever as crenças, mudar a mentalidade sobre o que é um relacionamento compromissado. Relacionamento amoroso de longo prazo, que satisfaça plenamente a ambas as pessoas envolvidas, demanda diálogo, compromisso e aceitação. E desapego destes modelos que não tem se mostrado viáveis. 

Cada casal tem de ter o seu combinado particular, que possa funcionar para si. Tentar seguir os modelos convencionados pode levar à intolerância e às separações e divórcios. 

Os relacionamentos amorosos se tornaram o centro de vida para muitas pessoas, ao contrário do que aconteceu ao longo da história da humanidade. Há quem considere um ‘atestado de competência emocional’. Até há bem pouco tempo, os casamentos eram muito mais  simples de serem mantidos – o que não significa que eram felizes. Tinha-se mais estabilidade, mas outros valores estavam sacrificados. Felicidade não era um requisito procurado ou então era algo muito diferente do que se espera hoje no Ocidente. 

Mas, se hoje a qualidade de vida amorosa determina a sua qualidade da vida como um todo, como disse a psicoterapeuta Esther Perel, em uma das suas muitas apresentações sobre o amor contemporâneo, como então fazer com que o seu relacionamento dê certo? Pesquisadores sugerem  avaliar as expectativas que se têm sobre relacionamentos e negociar acordos que fortaleçam os vínculos. E, claro, agir de forma compromissada com os valores que o casal estabeleceu.  

Porém, muitos casais têm dificuldade de conversar sobre os assuntos que geralmente geram crises: finanças, família, passado amoroso, infidelidade. Evitam estes temas tabus como se falar deles aumentasse a chance de ocorrer o que se temia – quase um pensamento mágico. No entanto, o dito popular “o combinado não sai caro” pode tornar os relacionamentos amorosos mais transparentes e mais duráveis.

Mito desmentido

Recentemente, The Gottmann Institute, especializado em pesquisas sobre casamentos,  publicou um texto contrariando uma das crenças do amor romântico: de que casais não devem ir dormir brigados. Pesquisas do instituto contestam esta ideia. Muitas vezes, dar um tempo é o melhor a fazer pelo relacionamento. Os ânimos se acalmam.

Discussões não apontam para o fim. Muitas vezes o silêncio é mais significativo: pode mostrar a indisposição para negociar – ou sinalizar a desistência de mudar algo na dinâmica amorosa. A forma com que se discute porém é importante e, por isto, devem-se treinar habilidades de comunicação. É preciso desenvolver uma escuta compassiva e atenta. Muitas vezes só se consegue isto em um processo de psicoterapia.  Oprah Winfrey, em uma apresentação na Escola de Negócios de Stanford mencionou 3 perguntas que, segundo ela, a ajudaram em várias situações (não apenas em relacionamentos amorosos mas, também). São elas:

  • “Você me ouviu?”
  • “Você me enxergou?”
  • ” E o que eu disse significou alguma coisa pra você?” 

Muitas vezes quem inicia a discussão fala de forma magoada, ressentida – às vezes agressiva. Ao acusar, a outra pessoa se fecha e já não consegue ouvir o que está sendo reivindicado. Só quer se defender. Com a comunicação do casal bloqueada, deve-se recorrer à ajuda profissional. 

Terapias

O que uniu o casal ainda se mantém? O quanto cada um mudou? Com o passar do tempo, ambas as pessoas vão se modificando e, podem ter se desviado do que se propunham no início. Ainda existem valores em comum? O que mudou? Algum dos dois é mais inflexível? Viver a dois demanda flexibilidade e treino. Amar é uma habilidade, que pode ser treinada e aprendida, como diz o filósofo Alain de Bottom.

É importante ter consciência das dificuldades de cada um. Mas, ser casado demanda compaixão, abertura e compromisso com os valores – individuais e do casal. Expectativas altas fazem muita gente desistir facilmente por não ter atingido o sonho. Vida real, desperta, demanda que se busque a solução para os problemas. E isto inclui aprender a lidar com suas frustrações e feridas emocionais, que muitas vezes são trazidas da família de origem.  

Além da Terapia de Casal,  a Terapia Pré-Matrimonial  surge como alternativa para casais em dúvida sobre se devem ou não ir em frente. Neste tipo de terapia, os casais falarão sobre estes assuntos espinhosos, vão se conhecerem mais profundamente antes de irem para o grande desafio da convivência diária. Falarão de seus valores, farão acordos, preparando-se e podendo então aceitar o outro como ele é.

Não será este o verdadeiro amor: aceitar a outra pessoa como ela é, sem tentar modificá-la? Casar com a esperança de mudar a outra pessoa, em geral, leva à decepção. Tanto quanto você, a pessoa amada  é humana. Por isto, ambas são passíveis de erro . E merecedoras de perdão. Aumente sua tolerância e a flexibilidade consigo e com o seu par. 

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Thays Babo é Mestre em Psicologia Clínica pela Puc-Rio, com formação em TCC pelo CPAF-RIO e extensão em Terapia de Aceitação e Compromisso pelo IPq (USP). Atende a jovens e adultos em terapia individual, pré-matrimonial ou de casal, em Copacabana

As boas brigas