Decididamente, quem decide a tradução dos títulos dos filmes no Brasil não é movido pelo amor à arte. O que conta é o amor à bilheteria. Exemplo recente é o filme Up in the Air, batizado como Amor sem escalas, estrelado por George Clooney. Convenhamos, a combinação título-astro tem tudo para render muito reais para os exibidores. Mas, se atrai hordas de mulheres, em busca de cenas românticas com o ator, deixa de fora do cinema homens e mulheres racionais, que não apostariam neste título, achando que é mais um filme ‘mulherzinha’, chick flick, de final feliz.
Para isto também contribui o trailer , que engana bem o público. Guardando a surpresa do filme (o que é bom), caprichou-se demais na seleção de cenas bem humoradas ou sexies – que não são são sua real proposta. E as resenhas por aí focam na quantidade de milhas que o protagonista, Ryan Bingham, quer acumular – sem que isto seja a principal questão. (Como sabem, apesar de publicitária, sou idealista. Fiquei incomodada com o merchandising agressivo da empresa aérea, da locadora de automóveis e da rede de hoteis – que viabilizam a produção. Na minha visão romântica da arte, empresas fictícias seriam mais simpáticas ao espectador. Felizmente Hollywood não precisa da minha opinião para sobreviver. )
Então, não vá pensando que é mais uma comédia romântica bobinha, se não você vai se desiludir. Decepcionar é improvável, mas, dependendo da sua idade, do seu estado civil e profissional, você pode sentir um incômodo com as questões que Ryan Bingham enfrenta – a contragosto, não por escolha.
Não abandonei o blog, nem estou de férias, muito pelo contrário… Vim só dar um oi e desejar um ótimo findi e anunciar que o próximo post deve ser sobre a retrospectiva dos dvds que assisti em 2009. Nem todos de safra recente, vi alguns clássicos de Bergman, produções argentinas etc.
Quando sobrar um tempinho e acabar o levantamento, volto.
Em geral, as pessoas fazem a retrospectiva antes de terminar o ano… Mas só agora consegui fazer o levantamento de todos os filmes a que assisti em 2009 – no cinema. Esta é uma das vantagens de morar no Rio: na região em que moro disponho de várias salas de exibição. E, por mais que o barulhinho da pipoca do vizinho incomode (sério, um amigo suíço, quando morou nos Estados Unidos, não ia ao cinema por causa do barulho e cheiro desta mania americana importada para nós), prefiro sentir a reação do público à comodidade de ver em casa. Depois, se for o caso e o filme merecer, pode ser visto, revisto e decorado no DVD. Em breve, Blue-Ray.
A seguir, a minha lista. Vários destes filmes eu já comentei ao longo do ano passado aqui no blog, basta dar uma busca. Alguns dispõem até de trailer. Em itálico, os meus Top Five, com uma certa dó por ter deixado alguns de fora…
Queime depois de ler
O curioso caso de Benjamin Button Foi apenas um sonho
O leitor
Dúvida
Quem quer ser um milionário?
Noivas em guerra (concessão de carnaval, pra minha filha)
Milk
Simplesmente feliz (bomba do ano pra mim)
Delírios de consumo de Becky Bloom (outra concessão para ela, mas o pior foi constatar que não é tão ruim assim)
A mulher invisível (BRA)
Minhas adoráveis ex-namoradas
Apenas o fim (BRA)
Ele não está tão a fim de você
A verdade nua e crua (não sei se nesta ordem, lembrei ao acaso, era mais um chick flick)
Desejo e perigo (muito bom, mas não coube no Top 5) Paris
Caramelo (também muito bom, mas sobrou)
Se beber, não case (é, a vida é feita de concessões ) Horas de Verão
A Partida
Up (maldade deixar esta tocante animação de fora)
Amantes
O dia da saia (também merece aplausos, emociona. Entrará no circuito no Brasil?)
Turistas (só não é pior do que “Simplesmente feliz”)
Coco antes de Chanel
À deriva (BRA)
500 dias com ela
Abraços Partidos
Julie & Julia
Um namorado para minha esposa
Nova Iorque, eu te amo
Ainda não listei os que vi em DVD; alguns são preciosidades clássicas. Como os de Bergman – aliás, encarei uma maratona de 5 horas de Cenas de um Casamento, no Natal. Eu amei. Mas tem gente que dormiria no primeiro episódio. Ainda escrevo sobre ele, anotei várias frases inspiradoras!
E então? Destes, quais você viu? Qual ou quais você destaca?
O que faltou na minha lista?
Agora vou ficar atenta às estreias que a proximidade do Globo de Ouro e o Oscar propiciam. Sugira também! Até a próxima postagem
________
Thays Babo é psicóloga e Mestre em Psicologia Clínica, pela Puc-Rio e atende em Ipanema.
O cinema argentino tem me sido muito bem recomendado e aproveitei o final de um domingo para poder me redimir da minha falta de conhecimento a respeito. Ao ler a resenha de Um namorado para minha esposa, filme argentino, não pensei duas vezes: desliguei o computador e fui pro cinema, em busca do riso, necessário nesta época de final de ano em um Rio insuportavelmente quente e engarrafado. Ah, a imagem abaixo não diz tudo…
Como estava atrasada para a última sessão, prestei atenção apenas ao início da crítica e só descobri o lado ‘dramático’ já instalada na poltrona do cinema, depois de um tempinho de projeção. (Será um cacoete psi, ver sofrimento, ainda que disfarçado, enquanto as pessoas só dão gargalhadas? Pode ser…) Mesmo brincando, o trailer enuncia uma grande ‘verdade’: “O casamento é a principal causa de divórcio“. Nem precisa ser pessimista pra dizer que é impossível um filme sobre relacionamentos amorosos sem uma dose de drama, não é mesmo? Mas Um namorado pra minha esposa é basicamente cômico, sim, não se derrama uma lágrima ao assisti-lo – sem contar possíveis pessoas com a sensibilidade à flor da pele, em pleno processo de separação.
Ah, uma vez mais eu sugiro que não veja o trailer antes de assistir ao filme – contém vários spoilers …
_________________
Thays Babo é psicóloga e Mestre em Psicologia Clínica, pela Puc-Rio e atende em Ipanema.
Parafraseando o “mangia che te fa bene”, dos italianos, proponho o ‘medita que te faz bem’.
Mas meditar faz bem por quê?
Primeiro tem de se entender no que consiste a meditação. De forma bem simplificada, pode-se dizer que a partir de determinada técnica de meditação (e há uma enorme variedade delas e cada pessoa tem de pesquisar à qual se se adapta melhor) , tenta-se diminuir o fluxo dos pensamentos. Como a mente não para de pensar espontaneamente, por ser esta sua função, começar a meditar não é uma tarefa fácil. Deve-se eleger um foco de atenção – que pode ser um objeto, uma palavra ou ainda a respiração. A concentração sobre o objeto foco e a simples observação dos pensamentos, que invadem mas não são alimentados, ajudam a distanciar-se dos pensamentos. Não estimulando o fluxo do pensamento nem a imaginação, consegue-se um grande relaxamento e também se melhora a concentração – permitindo que a vida possa ser analisada sob outra perspectiva. Soluções para problemas podem surgir durante a meditação, pensamentos inspirados ou criativos também, sem que tenha sido este o objetivo ao parar para meditar.
Os benefícios fazem valer a pena o esforço para estabelecer a prática. Em um mundo corrido e invasivo, em que se tem de estar disponível, online, 24 horas, dedicar um tempo ao silêncio e à contemplação acaba gerando, inacreditavelmente, uma ‘culpa’ nos workaholics – justo os que podem precisar mais da meditação. Ajuda bastante ter um horário determinado, um espaço específico, usar roupas confortáveis, iluminação suave. Avise para que não seja chamado/a e desligue telefones, despertadores e aparelhos sonoros.
Estas são algumas das dificuldades que se enfrentam hoje em dia, fora de mosteiros ou retiros. Apesar de presente em todas as grandes tradições religiosas (hinduísta, budista, judaica e cristã, dentre outras), o Ocidente se interessou mesmo por meditação a partir dos anos 60, com os hippies. Os Beatles deram também sua contribuição e, no início de 2009, Paul Mc Cartney declarou que foi a meditação que estabilizou os Beatles (matéria disponível em http://br.noticias.yahoo.com/s/reuters/090403/entretenimento/cultura_musica_beatles_meditacao ). Na capa de “Sgt Pepper´s”, no meio de várias figuras, podem ser vistos vários gurus indianos que os inspiraram.
Mesmo assim, meditar ainda permanecia restrito a alguns grupos ‘religiosos’. Só ao atrair a atenção dos cientistas , gerando pesquisas e ‘números’, ocidentais céticos descobriram que a meditação não é apenas para quem é místico. Ateus ou agnósticos também se beneficiam, se praticarem com disciplina. Executivos estressados, em épocas tão incertas, em que a estabilidade é cada vez menos uma certeza, muito se beneficiam. Gestantes, crianças, enfim, não há um tipo de pessoa que pudesse ser prejudicado com meditações. Em uma rápida pesquisa no Google, milhares de artigos aparecem, inclusive de Universidades aparecem atestando estes benefícios. A meditação pode ser importante coadjuvante nos tratamentos psicoterápicos e psiquiátricos. Gradativamente, de acordo com a constância e tempo dedicado às práticas, diminui a necessidade de medicamentos, inclusive. Meditar adequadamente diminui a ansiedade e implica na melhoria na saúde, física e mental, por contribuir para a redução de níveis de estresse. Quem tem problemas de insônia pode recorrer à meditação antes de dormir como uma poderosa aliada.
Resumindo, a Psicologia tem investigado bastante o assunto e os psicólogos clínicos relatam que pacientes ‘meditantes’ lidam melhor com seus desafios e problemas, de forma mais centrada e tranquila.
Em 2008, David Lynch esteve no Brasil lançando seu livro sobre a meditação transcendental. Aliás, a Fundação que leva seu nome organizou o concerto que contou com a presença dos dois últimos Beatles, Ringo e Paul, cujo nome do concerto era “Change begins Within” (A mudança começa por dentro). O concerto tinha como objetivo a criar fundos para possibilitar o ensino da meditação às crianças . Em um país como o Brasil, a técnica de meditação pode ajudar bastante em escolas da rede pública, especialmente junto a áreas de risco, onde as crianças estão constantemente expostas à violência. E mesmo em áreas que não sejam de risco, nas mais variadas classes sociais, os benefícios são inúmeros. Meditar ajuda a resistir às influências do consumismo desenfreado, a enfrentar as adversidades com menos inseguranças.
Conheço várias pessoas que dizem: ‘eu não consigo meditar. Não consigo parar, sentar.’ Existem infinitas possibilidades para meditar, inclusive em movimento. Há a meditação caminhando – ou dançando. E também se pode meditar contemplando a Natureza. Para quem mora em cidades litorâneas, como Rio de Janeiro, fica ainda mais fácil… Enfim, sempre há uma técnica que cabe para cada pessoa, basta querer buscar. Como toda caminhada que começa com o primeiro passo, para meditar a pessoa tem de querer. Certamente haverá uma resistência inercial da própria mente. O vídeo abaixo mostra bem o que as pessoas que se lançam na prática enfrentam…
‘ >the fly…
E você ? Já medita? O que mudou depois que você começou sua prática? Blog aqui!
——-
Thays Babo é psicóloga e Mestre em Psicologia Clínica, pela Puc-Rio, e atende em Ipanema.
Filme com Meryl Streep sempre desperta a vontade de conferir como a atriz veterana se saiu. E não foi diferente com Julie & Julia, que fui conferir, mesmo sendo sobre culinária, assunto que não me interessa particularmente – apenas como ‘degustadora’. Uma dica: escolha um cinema próximo a um bom restaurante. Afinal, é tudo o que você vai querer depois de 2 horas de filme – nem precisa ser francês…
No elenco, também está Amy Adams, que contracenou com Streep em A Dúvida (comentado aqui, em http://www.analista.psc.br/blog/?p=465 ), pelo qual ambas foram indicadas ao Oscar (respectivamente de Melhor Atriz Coadjuvante e Melhor Atriz), sem que nenhuma levasse. Julie & Julia foi classificado por um jornal como drama, em um site especializado rotulado como romance, mas, o filme é um daqueles ‘inclassificáveis’, que não se encaixam facilmente em tipos. Prevalecem momentos de comédia, mas tem sim drama e questões existenciais… Vamos então à sinopse.
No início dos anos 2000, Julie Powell (Amy Adams) é uma jovem americana casada, que acaba de se mudar com o marido para um apartamento que não é o de seus sonhos, no bairro de Queens. Seu trabalho, literalmente, a faz chorar no dia-a-dia. Quando se compara a suas amigas, executivas muito bem sucedidas, Julie sente-se pior do que poeira, em plena crise dos 30 anos. Não finaliza nenhum projeto e até acredita que tem distúrbio de déficit de atenção (DDA). A relação com a sua mãe mereceria horas e horas de análise, em qualquer abordagem psicoterapêutica…
Felizmente, Julie tem um marido maravilhoso, super compreensivo que, quando percebe que ela está prestes a emburacar em uma lamentação sem fim, ou pior, em uma depressão, relembra a ela sua vocação de escrever. Ajuda-a a criar um blog e escolher o tema, que não pode ser outro senão o que mais lhe dá prazer: cozinhar. O projeto de Julie é testar um clássico da culinária americana, escrito por Julia Child, em um prazo de um ano. E quem é Julia Child?
Mrs. Child, interpretada por Meryl Streep, é uma americana que se muda para Paris com o marido, no pós-guerra. Encantada com a culinária francesa, resolve aprender a cozinhar. Para isto, tem de enfrentar a famosa barreira que franceses costumam erguer contra todos os que não dominam o idioma – e em especial contra americanos. Há também as diferenças culturais: ela, acostumada a trabalhar, tem de entrar em um mundo masculino, enfrentando duplo preconceito. Child é obstinada (talvez até com traços obsessivos) e treina, faz parcerias e consegue enfim realizar seu sonho. O prazer de preparar um prato e dominar os segredos dos temperos e suas combinações une as duas, Julia e Julie. Aprendem a duras penas, separadas, cada uma a seu tempo e em seu tempo, a como atender as suas vocações – o que já poderia gerar outro post, sobre a dificuldade que temos em descobrir ou atender ao ‘chamado’, da voz interna.
Julie se disciplina para cumprir seu prazo espartanamente. Era uma típica ‘serventless‘: não tinha empregada e, após sua jornada de trabalho, tinha de se desdobrar para atender ao modo de preparo francês – que não é dos mais simples… Os amigos mais próximos de Julie são privilegiados, convidados para desgustarem as receitas, diariamente testadas e postadas no blog. Mas o blog era mais do que isto pois nele Julie também expressava suas dificuldades e emoções. No início dos anos 2000, a mania dos blogs ainda estava começando e é interessante ver o quanto Julie tem dúvidas sobre se é lida ou não – e também a sua satisfação na medida em que começa a interagir com seus ‘leitores’. Satisfação e dúvida sentidas até hoje por quem resolve partilhar com ilustres desconhecidos . Era um co-terapeuta, sendo a terapeuta principal ela mesma. Há uma leve crítica não só a quem escreve qualquer bobagem – mas a quem acompanha tudo isto…
Se você ainda não viu o filme e não quer saber como termina, pare por aqui – depois do trailer haverá spoilers…
Baseado em fatos reais, em dois livros, a roteirista manteve o ‘desencontro’ Julie e Julia, não caindo na tentação do final feliz americano. Nem ao menos tentou justificar a recusa da velhinha – que devia ser simpática, como foi ao longo da vida – em conhecer sua ‘cria’. O que será que aconteceu para que ela erguesse esta barreira? Vamos às elocubrações?
Será que Julia Child, na ‘vida real’, acessou o blog e acompanhou a trajetória da heroína Julie Powells? Se não o fez (e isto realmente não sei, alguém dispõe desta informação???) pode ter imaginado que Julie a queria destronar. Então tanta agressividade pode ter sido puro medo. Ou mesmo ranzinzice. Uma recusa (arquetípica?) do velho (senex) de se abrir e interagir com o novo (puer). A mitologia grega mostra isto através de deuses que, por não quererem dividir o poder, matam. Julia Child, com sua declaração a um repórter, bem que tentou ‘apagar’ Julie, diminuir sua importância. O que não deixa de ser um tiro no pé: quantas pessoas não conheceram Julia Child apud Julie Powell? Fato é que Julia, que não teve filhos – e que ficou sabidamente frustrada com isto, como vemos em duas cenas -, não soube lidar com a ideia de uma herdeira ‘virtual’, não planejada. Em vez de herdeira, enxergou uma usurpadora.
Sorte de Julie, que não soçobrou, nem se deixou ‘matar’. Como bem lembrou seu marido (um ’santo’, como ela costumava dizer, sob seus protestos), ela construiu uma Julia Child, fantasiou, projetou valores que talvez não existissem na Julia da vida real. Talvez Julie esperasse encontrar em Julia a mãe amorosa e incentivadora que gostaria de ter tido – muito diferente daquela que se apresentava ao telefone, mas por quem até se nutre uma simpatia, ao final da projeção. Mudando a si, Julie conseguiu melhorar todas as relações à sua volta. Uma receita e tanto.
Sendo Almodóvar um dos meus diretores de cinema favoritos, não é de se estranhar que, assim que pude, fui conferir seu filme mais recente, Abraços Partidos, que finalmente estreou no Rio, depois da exibição no Festival, em outubro.
Não sabia muito a respeito do filme, nem tinha conferido os trailers (muitas vezes, eles ‘estragam’ o filme, mostrando as melhores cenas, fazendo com que o fator surpresa desapareça, ou usando cenas que, editadas, nem entram no filme. Pior ainda quando fazem o filme parecer mais atraente do que é, na verdade). Além da presença de Penélope Cruz, sabia apenas das referências ao Mulheres à beira de um ataque de Nervos e que era sobre um cineasta que perdia sua musa em um acidente de carro.
Assisti e gostei. Antes de escrever, no entanto, li na internet comentários, tanto da mídia como em blogs . Muitos o situam como um Almodóvar ‘menor’. Dentre estes, alguns ressalvam que mesmo um ‘menor’ é ainda superior à maioria das películas em exibição por aí – e nisto concordo totalmente. Na minha opinião de não cineasta, no entanto, este não é um Almodóvar ‘menor’. Apesar de Abraços não estar, a meu ver, no mesmo nível de um Fale com ela – este sim, para mim, a sua obra-prima, até agora – ele é realmente muito superior à profusão de bobagens que se veem na tela. E, afinal, quantas obras primas alguém consegue fazer na vida?
Vários olhares e leituras são possíveis sobre este filme. Um resumo simplório seria ‘Abraços Partidos retrata como a obsessão de dois homens por uma mesma mulher pode ser destrutiva’. Outras possibilidades seriam: ‘Almodóvar mostra como as relações entre filhos e seus pais podem ser determinantes tanto na vida destas, prolongando-se mesmo depois da morte’. Ou ter como subtítulo “o poder (destrutivo?) dos segredos”. Ou “como o ciúme pode ser um monstro venenoso”. Um crítico cínico poderia dizer ainda que “o amor cega” e psicólogos poderiam usar o filme para exemplificar como “a culpa não serve para nada, a não ser destruir as pessoas, corroendo os vínculos e por dentro ao longo de nossas vidas”.
Enfim, Almodóvar junta todas estas questões em um só filme. Suas marcas, presentes ao longo da sua carreira, estão lá: o colorido esfuziante, os saltos altos, alguns dos atores com quem já trabalhou. Aos dois principais, Penélope Cruz e Lluís Homar (não muito conhecido por aqui, que atuou em Má educação), juntam-se Lola Dueñas (que representou a irmã de Penélope, em Volver) e Rossy de Palma, em uma ‘pontinha’ (em referência a seu próprio filme que o tornou famoso aqui no Brasil, Mulheres à beira de um ataque de nervos. Pode ser apenas um auto-elogio mas não deixa de ser engraçado).
Portanto, não é um filme tão simples como pode parecer à primeira vista. Certamente podem-se pensar vários outros aspectos, inclusive em sua homenagem ao cinema, pela presença de várias ‘citações’. Sente-se um clima ‘hitchcockiano’ no desenrolar da história. E não faltam pinceladas de humor também, em doses pequenas, precisas para não diluir a tensão, como na cena em que o diretor ouve a sinopse de um novo filme de vampiros. Ou quando a produtora amiga de Mateo confessa um segredo longamente guardado ao filho, que diz o quanto era um segredo ‘óbvio’. A forma com que Almodóvar explica todos os mistérios, rapidamente no final, lembra até as novelas brasileiras, em que tudo se resolve no último capítulo. Para aqueles que acharam o filme longo demais, pode ser um ponto crítico…
(Se você ainda não viu o filme, melhor conferi-lo ANTES de continuar a leitura, para não saber o desfecho. Se viu, relembre com este trailler, com pedaços de legenda…)
O que salta como trama principal é a obsessão de Ernesto pela sua jovem secretária, Lena (Penélope Cruz). Aspirante à atriz, eventualmente fazia programas para cobrir suas despesas. Em um momento crítico, cede às investidas do patrão, rico e poderoso, que a ajuda a resolver os problemas de família. Vai então viver com Ernesto mas ela se mostra entediada, querendo trabalhar e voltar a tentar sua carreira. O empresário que tem um filho de um dos seus casamentos anteriores, que rejeitava por conta de sua homossexualidade, o incumbe de acompanhar Lena, que finalmente consegue um papel em um filme do diretor Mateo Blanco(Lluís Homar). Ernesto Pai, querendo manter a mulher a seu lado, resolve controlar a situação, produzindo a película. Em pouco tempo, Mateo e ela se envolvem amorosamente e tudo é documentado no ‘making of’ rodado por Ernesto Filho. Somente em retrospectiva é que sabemos do drama, causa mortis de Lena.
À morte de Lena, se soma a cegueira de Mateo, que assume o pseudônimo Harry Caine (que, na pronúncia espanhola, parece “hurricane”, ciclone em inglês – ou ainda tempestade). Harry nunca assistiu ao filme que abandonara antes de finalizar, para fugir com Lena. E só depois de 14 anos do acidente as peças se encaixam possibilitando que enfrente o passado e reassuma seu nome de verdade. O pensamento Kierkegaardiano (”A vida só pode ser entendida em retrospectiva. E só pode ser vivida olhando-se pra frente”) talvez seja a melhor expressão da missão que o Harry Cane/Mateo Blanco tem pela frente, para honrar seu passado. De uma forma bem sutil, o recado, como em Fale com Ela, ainda é a urgência do diálogo entre as pessoas próximas, a fim de não tornar fatalidades em tragédias que estragam vidas inteiras.
__________
Thays Babo é psicóloga, Mestre em Psicologia Clínica pela Puc-Rio e atende em Ipanema.
Rio de Janeiro, calor infernal, jogos importantes na reta final do Brasileirão, mas a sala de teatro do shopping em área nobre da cidade estava lotada pra assistir a uma hora de Fernanda Montenegro no palco, encarnando Simone de Beauvoir. O espetáculo Viver sem tempos mortos é um desafio e tanto para os neurônios quem não conhece o histórico de Beauvoir e compareceu só pra conferir o desempenho da atriz. Fernandona deu conta do recado com louvor, sem entediar o público, que a vê sentada durante 60 minutos. Boa parte dos quais remetendo-se à sua metade intelectual: Sartre, com quem formou o casal mais provocador do século 20. Talvez até o mais inteligente – e certamente o mais emblemático de uma geração.
De uma forma muitíssimo sintética, o existencialismo teve seu ápice na França, no pós-guerra, popularizado pelo casal Beauvoir e Sartre.
Contaminado pelo clima da época, pessimista, frente a uma França invadida e dominada pelos nazistas, tem como conceitos fundamentais a liberdade, responsabilidade, autoria. Não era, em sua origem, materialista, mas na visão Sartreana – e de Beauvoir, bien sûr! – o existencialismo negou qualquer a priori. Focado no aqui e agora, nada de lá e então. A morte é vista como aniquiladora dos projetos.
Mas e qual papel cabe a Beauvoir no meio dos intelectuais franceses? Talvez ela tenha ficado à sombra demais de Sartre. Vivia em um meio dominado por homens – e a partir de suas pesquisas, escreveu o Segundo Sexo, em que diz logo que “não se nasce mulher. Torna-se mulher”. Também declara que o homem também tem um papel, aprendido. Não há como ignorar que mulheres do mundo inteiro, mas, em especial, ocidentais, devem muito à Simone de Beauvoir. Independe de se concordar ou não com todas suas escolhas e caminhos que ela percorreu, experimentando a liberdade (ou não?) no seu limite, pagando o preço de sua autoria.
Pode ser que tenha sido só impressão – mas acho que não – de que as experimentações amorosas e sexuais continuam chocantes para grande parte da plateia, mesmo sendo uma elite. Mesmo considerando que já acaba a primeira década do século 21. Portanto, mais de 50 anos depois dos fatos! Sempre me surpreendo como muita gente ouve sobre as guerras sem se chocar tanto como quando ouve sobre sexo…
Ok, muito antes disto, Beauvoir abriu mão de qualquer crença na essência, negando qualquer a priori, assumindo os riscos de suas escolhas, a sua solidão existencial. Com Sartre, pode descortinar muitas possibilidades impensáveis para uma burguesa católica, como ela.
Beauvoir talvez ficasse indignada com a pergunta que fica, revendo em pouco tempo sua trajetória. Mas não posso evitar. Será que a adoração que tinha a Sartre não foi muito mais limitadora para ela do que libertadora? Apegou-se a uma imagem tal que, para ser coerente, abriu mão de projetos seus – inclusive seu desejo por Sartre, que desistiu dela como parceira sexual muito cedo. Numa cumplicidade tal, desistiu de um relacionamento amoroso, nos Estados Unidos, que relata com muita intensidade, pra acompanhar as jornadas intelectuais do filosófo.
Teria sido medo frente ao risco de se lançar em um relacionamento – que poderia vir a ser algo estável?
Ficam então estas perguntas para possíveis interpretações, palpites sobre Beauvoir. Não só sobre seu relacionamento com Sartre, mas também suas colaborações para a vida de todas as mulheres, sejam feministas ou não…
Depois de ter ouvido vários elogios, finalmente assisti a 500 dias com ela (500 days of Summer), algo que queria ter feito ainda na época do Festival. O filme é bom, mas esperava bem mais.
Ponto forte: os dois personagens de 500 dias vão contra dois grandes estereótipos: 1)TODAS as mulheres querem porque querem compromisso sério, senão surtam (lembra de Ele simplesmente não está a fim de você? Se não lembra, veja o post aqui ) e 2) que os homens evitam SEMPRE qualquer relacionamento mais sério.
Sim, existem muitas mulheres que perseguem um relacionamento a qualquer custo, ignorando sinais amarelos ou vermelhos, indo em frente e atropelando os homens. Mas, pelo que observo, este comportamento feminino é algo localizado. Tem a ver com idade (sim, claro), grau de escolaridade (sim, claro), possivelmente contexto familiar e também moradia. Sem ser preconceituosa, as pressões sociais são muito diferentes, dependendo de onde se viva, o que pode influenciar na tolerância a ficar ou não só. O que o psicólogo Bernardo Jablonski chamou de efeito Rebouças, em relação ao Rio de Janeiro, pode ser ampliado: mulheres cosmopolitas sofrem cobranças diferentes das que mulheres interioranas sofrem. Nas grandes metrópolis, há o anonimato – e com isto outros problemas, claro. 500 dias mostra uma jovem, descolada, que não tem pressa em assumir nenhum compromisso. Aliás, que nem acredita neles.
Conheço muitas mulheres como Summer. E nenhum cara como Tom, o protagonista. Ah, sim, fora o fato de se apaixonar à primeira vista pela mocinha – o que é comum, quando a mocinha em questão é bonita e tem belos olhos azuis. Destes, conheço vários.
Brincadeiras à parte, o que vemos é que Summer racionaliza os sentimentos. Não acredita em paixão, não se preocupa com rótulos, para desespero de Tom, um cara basicamente romântico, que vive de escrever frases para cartões comemorativos. É interessante esta ‘troca’: quando Summer fala, parece um homem (estereotipado). Tom sofre como uma mulher (estereotipada também), querendo segurança e garantia.
Os amigos de Tom são bastante interessantes, apesar de terem sido ‘construídos’ para parecerem problemáticos: um não tem um relacionamento duradouro há muitos anos. O que tem, está junto com a mesma namorada desde muito cedo e o próprio Tom desqualifica, achando que ele não tem ‘experiência’. Não fica clara a relação de amizade entre Tom e a pessoa mais sensata que lhe aconselha e a quem ele ouve atentamente. A dúvida persiste até o fim.
500 dias tem ótimos momentos. Mas, sério, para mim, nada justificaria a cisma de Tom com Summer. Ou sim? Além dos belos olhos azuis dela e da afinidade musical, o que mais? Ok, ela é descolada, não pega no pé – o que é muito atraente para muitos homens.
A seguir, spoiler. Se não viu ainda, não leia.
Apesar de, à primeira vista, Summer não querer relacionamento nenhum, ela se mostra ao final tão igual às demais mulheres do velho estereótipo, lembrando as 4 amigas de Sex and City. Para quem não acompanhou a série, ao longo das várias temporadas, Carrie, Samantha, Charlotte e Miranda experimentavam vários relacionamentos. No final da última temporada, todas terminam com relacionamentos estáveis. Que isto seja uma possibilidade e talvez até sinal de amadurecimento, tudo bem, mas talvez seja improvável estatisticamente todas conseguirem parceiros decentes ao mesmo tempo.
Summer igualmente rendeu-se ao compromisso, selado com um brilhante. Foi muito mais rápida do que se poderia prever a partir da sua fala. Tom fica arrasado ao descobrir isto. Mas não dá pra ter raiva dela. Summer não mentiu, como espectadores sensíveis, empatizando com Tom, podem achar. Desde o início, dizia que não queria rótulos, que achava Tom interessante, mas que não queria ser definida como namorada. Faltou acrescentar um pronome possessivo: não queria ser namorada dele. Summer foi deixando acontecer. Com todo mundo acontece começar um relacionamento sem intenções esperando – ou não – se apaixonar no meio do caminho. Ambos apostaram nisto, mas, enquanto ela não tinha pressa de descobrir nem definir nada, Tom precisava desta confirmação. É interessante ver o desespero dele. Até o 500o dia.
Ao final, ouso dizer que Summer foi muito generosa quando, de certa forma, o procura para dar uma explicação. Ali, o liberta para uma nova tentativa amorosa. Em ‘psicologuês’, ele fechou uma gestalt. Conseguiu visualizar o fim. Esta atitude dela mostrou que já estava mais amadurecida, sabendo o quanto esta conversa poderia libertá-lo. Neste ponto, agiu de forma bastante feminina, com a DR póstuma – muito diferente de uma maioria masculina, que foge ao papo e, com isto, mantém muitas mulheres questionando, por décadas, o que fizeram de errado para o relacionamento ter naufragado.
E para os colegas junguianos, fica a pergunta: estaria Summer dominada pelo animus e Tom dominado pela anima, até um pouco antes do fim do filme?
———- Thays Babo é psicóloga, Mestre em Psicologia Clínica pela Puc-Rio e atende em Ipanema.