Amores tímidos

Sabe aqueles dias em que tudo o que você precisa é ver um filme leve, uma comédia romântica, de preferência? Mas, que não seja imbecil  (eu tenho uma lista de filmes cujos finais são totalmente imbecilizantes, que me fez querer meu dinheiro de volta)… Enfim, se você procura um filme totalmente crível, com gente como a gente, não deveria perder Românticos Anônimos (Emotifs Anonymes). Confesso que sou suspeita, adoro filmes franceses, sejam comédias ou dramas. Mas, se você estiver de mal com a vida (e quiser ficar de bem), este é altamente recomendável – a não ser que você goste de ser mal humorado/a :-)


O filme mostra o estrago que a timidez pode causar na vida de alguém. No caso, dois alguéns: Jean-René e Angélique, que vivem solitários e cujas vidas profissionais atravessam um momento crítico. Ele está à beira da falência. Ela, desempregada. Pelo menos os dois estão conscientes de que precisam de ajuda: Jean-René faz psicoterapia (o divã sugere psicanálise, mas os exercícios que o psi ‘prescreve’ sugerem uma linha mais comportamental ) e Angélique frequenta um grupo de ajuda : “Os emotivos anônimos”, que dá o nome original ao filme.

Conhecem-se por força de uma paixão que os une: o chocolate . Ah, um aviso: se você gosta de chocolate, vai sair do cinema querendo devorar vários. Se for a última sessão, melhor comprar antes ;-) Jean-René é dono de uma chocolateria que está indo à falência porque não conseguiu se modernizar. Angélique vai buscar emprego – ela é uma excelente chocolatière, mas, por conta da sua timidez, não quis correr riscos profissionais, nem ser avaliada. Viveu à sombra e por não ter assumido seu dom, meio que numa comédia de erros é contratada como representante de vendas da fábrica de Jean-René. Logo ela, totalmente tímida.

Aliás, uma série de confusões os joga em situações românticas – não pensadas a princípio pelo empresário. E Angélique se revela uma mulher muito parecida com várias outras que se precipitam quando veem a possibilidade de um romance pela frente.

Na vida real, não é tão risível assim. Como psi, enquanto os espectadores gargalhavam no cinema, pensava em o quanto é comum que os pacientes se vejam em situações parecidas – de perda de oportunidade, da falta de se auto afirmarem, de passividade – sem que achem tão divertido. Se um pouco de timidez, em algumas situações, é considerado ‘charmoso’, em excesso, faz perder oportunidades. Em todas as áreas: profissional, amorosa, familiar, entre amigos. Mas, como Jean-René explica, é muito angustiante. Muitas vezes a timidez faz com que a pessoa seja julgada como antipática ou desinteressada.



Mas, nada que não se possa modificar. Quem sofre de timidez pode -e deve – procurar ajuda . A TCC é provavelmente a abordagem psicoterápica que traz as melhores técnicas, propondo o treinamento em habilidades sociais – bem mais eficientes do que as sugeridas pelo psicólogo de Jean-René.

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Thays Babo é psicóloga clínica, Mestre em Psicologia Clínica pela PUC-Rio e atende no Centro do Rio.

Medianeras

No início de setembro de 2011 estreiou no Rio de Janeiro Medianeras, filme argentino, co-produzido pela Alemanha e Espanha. Segue em cartaz até hoje, aclamado pela crítica. O subtítulo brasileiro (Buenos Aires na era do amor virtual) é instigante, principalmente para quem estuda relacionamentos amorosos na ‘pós-modernidade’ (como eu) ou simplesmente vive nos anos 2000, mesmo que no Brasil. É um filme “cosmopolita” e eu não teria como ‘bypassar’. Finalmente consegui encontrar uma sessão em um horário compatível num cinema próximo…

Gustavo Taretto retrata o dia-a-dia de duas pessoas que estão muito próximas, tem vidas e neuroses parecidas – complementares? – mas ainda não se conhecem. Vizinhos na Avenida Santa Fé, em Buenos Aires, vivem Martín (Javier Drolas, uma versão mais bonitinha do Marcelo D2) e Mariana (Pilar López de Ayala, atriz espanhola, que eu acho ‘a cara’ da Jennifer Connely) . Com suas vidas limitadas – por eles mesmos – vivem reclusos a maior parte do seu tempo. Mas anseiam por ar e luz, querem se relacionar. Tentam e não conseguem. O nome da rua não deixa de ser uma ironia, talvez mais um recurso sutil para disfarçar o drama existencial com doses (econômicas) de humor .

Martin é um fóbico social, recorre a remédios prescritos pelo seu psiquiatra para suportar viver em uma quitinete sombria. Webdesigner, está há anos sem um relacionamento amoroso consistente. Martin só anda a pé por Buenos Aires.

E nem tanto assim: desde que sua namorada se foi, deixando apenas o caozinho, este se deprimiu. Afinal, morar em uma ‘caixa de sapatos’ com alguém que não gosta de sair para passear não deve ser fácil… Em sua mochila, Martin carrega seu mundo portátil, seu kit sobrevivência, que acaba com a sua coluna, e o leva a buscar mais medicamentos. Não por acaso se define como hipocondríaco.

A idade dos personagens principais não fica clara. Provavelmente passaram dos 25 anos – mas não muito. Por isto, provavelmente, Medianeras ‘conversa’ melhor com os que viveram o boom da internet e entraram na maturidade mergulhados no mundo virtual. Como não se identificar com a fala de Martin, que diz: “Há 10 anos sentei na frente do computador e tenho a sensação de que nunca mais levantei…” ?




Porém, o filme NÃO é sobre internet. Há relativamente poucas cenas sobre chats, por exemplo, um dos recursos mais usados na vida real para tentar aplacar a solidão. A solidão e o isolamento são talvez os principais condutores de Martin e Mariana. Medianeras toca outros públicos, quer acessem ou não. Relembra Denise está chamando, mas com mais leveza. Assim, traz mais esperança a quem limita suas explorações pelo mundo. Como Martin.

E também como Mariana. Arquiteta, só conseguiu emprego como vitrinista – o que não contribui muito para sua autoestima profissional. Parte de seus desejos, projeta nos manequins – tanto nos que leva para casa onde ensaia (ou projeta) seus afetos como nos que enfeitam as vitrines. Tendo rompido um relacionamento amoroso, detecta, em retrospectiva, o afastamento progressivo do casal, pelo número decrescente das fotos tiradas ao longo dos anos. Claustrofóbica, não usa elevadores, o que restringe bastante suas possibilidades. O livro Onde está Wally é sua referência literária e ajuda a manter uma ponta de esperança.



Uma cena de Manhattan, de Woody Allen, explicita a melancolia e a impossibilidade de ficar. Pelo tempo que está em cartaz por aqui, creio que Medianeras fale tão de perto a quem mora em Buenos Aires como a quem está no Rio de Janeiro, São Paulo ou provavelmente em qualquer outra cidade grande que engula seus moradores. Ah, e como nos filmes do diretor americano, os psicólogos do filme são ‘figuras’ mal resolvidíssimas. Não deve ter sido casual que Martin e Mariana tentam se relacionar com psicólogos. Porém, se buscavam neles a ‘cura’ para seus problemas, descobriram rapidamente que não seria assim tão fácil. Fiquei curiosa para saber a experiência pessoal do roteirista com eles… Aliás, o filme é imperdível para psicólogos – não só para uma autocrítica :-)

Medianeras traz muito material para reflexão – ah, sim, no filme há uma explicação bem interessante sobre o que vêm a ser medianeras. Mas, assista e volte para confabular – este post foi só um aperitivo. Fica o mesmo conselho de sempre – se ainda não viu o filme, tente não assistir ao trailer. Sei, pouca gente o segue ;-) De qualquer forma, aguardo seus comentários, concordando ou não.



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Thays Babo é psicóloga, Mestre em Psicologia Clínica pela Puc-Rio e atende no Rio de Janeiro

Aqui e agora

Virou o ano, entramos no tão falado e temido 2012 e não falei do filme Um dia, o que é uma injustiça. Mais uma vez fui ao cinema sem ter lido a respeito e nem visto os trailers. Sempre é melhor, pois posso gostar ou não por minha própria conta… ;-) Espero que você já tenha visto o filme, estrelado pela americana Anne Hathaway e o inglês Jim Sturgess. Um dia foi adaptado a partir do bestseller homônimo de David Nicholls, tendo particular significado para quem já passou dos 30 anos. Mais ainda para quem se formou também em 1988, como a dupla de amigos.


Para variar, não houve unanimidade: algumas críticas detonam o filme, dirigido por Lone Scherfig (de Italiano para principiantes e o aclamado Educação). Há quem o compare com Harry e Sally, mas as muitas diferenças me parecem bem mais importantes do que suas semelhanças. A história é simples: Emma e Dexter se conhecem na faculdade. Ela, uma ‘cdf’, ele um playboy. Ela apaixonada por ele, ele nem a notava – até a noite de formatura. Sem terem planejado nada, passam a noite juntos. É ‘o início de uma bela amizade’, que acompanhamos ao longo da projeção, retratando 20 anos da vida deles. Esta relação sempre é celebrada na noite de 15 de julho, noite de São Swithin, gerando inclusive ciúmes nos seus respectivos parceiros.

Um pequeno parêntesis: nunca tinha ouvido falar deste santo mas, numa busca pela internet, descobre-se que a tradição inglesa assegura que as condições meteorológicas deste dia do ano serão as mesmas dos quarenta dias seguintes. Acho que é mais confiável quando chove, conhecendo aquele país. Ah,a propósito, o Santo é o Bispo de Winchester. Ah, o santo tem uma música dedicada a ele (que não está na trilha sonora) e que você pode conferir no Youtube – e já é o suficiente, não?




Voltando ao filme, talvez eu tenha achado que ele foi bastante simpático pois não li o livro. Algumas críticas falam que a Emma de Anne Hatway é bem mais calorosa do que a literária. Eu só posso me basear no filme. Se eu vier a ler o livro volto aqui e teço comentários (como fiz após ler Tarântula, que inspirou Almodóvar a criar A pele que habito). Há também quem critique escalar uma atriz americana para representar uma britânica. Meu ouvido não é tão seletivo assim, rsrsrs. Mas, acho que mesmo quem torcer o nariz para o roteiro , casting ou direção poderá apreciar a trilha sonora. E também a caracterização e figurinos ao longo de quase 30 anos. Cada cabelo… ;-)

Em uma das críticas, vi comparações do ator Jim Sturgess com Hugh Grant. Revendo um dos trailers agora, acho que a cena no conversível a caminho de férias se parece bastante com uma das cenas de Bridget Jones I (eu confesso!!! ) – em que Daniel Cleaver (Hugh Grant) dirige um conversível (também branco?), a caminho de um weekend com Miss Jones. Mas Sturgess já tem um percurso anterior, não é novato: trabalhou em A Outra, Across the Universe e Quebrando a Banca, dentre outros.


Gostei, sabe? As diferenças entre Emma e Dexter, a forma com que cada um dos dois cresce em tempos e direções diferentes, a amizade que se perpetua mas que às vezes é impossível manter perto. Não, o filme não é tão ‘felizinho’ quanto Harry e Sally e mostra a perda de pessoas queridas e rumos que nossas vidas tomam em função de decisões e escolhas (sim, eu acredito em escolha, rsrsrs). Dexter é o tipo do personagem que pode nos angustiar ao vermos como escolhe sempre os caminhos mais hardcore, afastando-se de si mesmo, tendo um leque de possibilidades bem maior do que a maioria dos mortais. Isto leva Emma a dizer que o ama mas não gosta mais dele. Paradoxal? Talvez. Enfim, vou deixar o trailer do filme e parar de teorizar. Ao invés de ficar aqui, falando sozinha, desta vez quero ler a opinião de quem viu para poder então debater.

Se você não se incomoda de ver o trailer e perder parte das surpresas, confira! Aguardo seus comentários…



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Thays Babo é psicóloga clínica e atende no Rio de Janeiro.

Almodóvar e suas surpresas


117 minutos que pesam. Fiquei um tempo sem conseguir me mexer diante de tudo o que eu acabara de assistir em A pele que habito. Estatelada, lendo os créditos, descobri que a última “maluquice” do diretor espanhol não tinha saído inteiramente de sua cabeça: Almodóvar se inspirou na novela de Thierry Jonquet, Tarântula. Pela sinopse, parece exagero dizer que Almodóvar “pirou de vez”. Jonquet ousou mais, foi mais ‘louco’. Se Almodóvar tivesse roteirizado igualzinho, acredito que seria mais difícil assistir – bem, para mim… A verdade é que amei o filme, que reavivou em mim a vontade de rever os principais de Almodóvar.

Não tinha visto nenhum trailerantes, pra ir sem expectativa (tenho percebido que muitas vezes foi bem melhor!). Alguma expectativa, claro que eu tinha, pois adoro o diretor. Li algumas sinopses e não hesitei, apesar de saber que seria indigesto para mim – filmes ou seriados com sangue, cirurgias, autópsias guerras, assassinatos e que tais não têm minha audiência, nem virando clássicos. Levei 5 anos pensando se fazia Psicologia ou não pra não ter de passar pelo anatômico… 8) Isto dá uma ideia da minha repulsa a sangue e cortes?





As críticas, que só li depois, em blogs, dividem-se. Ou são elogios rasgados ou críticas detonando. Vários categorizam o filme como de terror – até por conta de uma declaração de Almodóvar. Terror? Pretensiosamente discordo – a não ser que seja aterrorizante saber que temos pessoas totalmente sem ética e sem limites soltas por aí. É, pensando bem… pode ser assustador mesmo. Enfim, não há consenso sobre o filme e como, em blog, cada um diz o que quer, resolvi parar de ler e dar a minha opinião. Quem acompanha o Confabulando sabe que os aspectos técnicos não são os que mais me encantam. Nâo é a minha especialidade, às vezes até menciono, se me são evidentes. Meu foco é a psicologia dos personagens.

Aconselho você a parar de ler, caso não tenha visto o filme ainda. Volte depois pois, a partir do próximo parágrafo, vêm vários spoilers.

Começo pelo cartaz: Loucura. Fúria. Paixão. Na verdade, são estes os principais aspectos que as críticas vêm ressaltando. Pra mim, falta uma palavra-chave: vingança, sendo este um dos melhores filmes sobre vingança. Sim, uma vingança descabida, desproposital – ou não, dependendo de que lado se esteja. Muito se destaca também o perfil obsessivo e perfeccionista de Robert Ledgard.

Cirurgião plástico renomado, Dr. Ledgard – interpretado por Antonio Banderas – logo no início apresenta em um evento científico a pele sintética que criou, capaz de suportar qualquer tipo de dano. Sua justificativa foi a possibilidade de salvar pessoas queimadas. Questões da bioética são levantadas sobre sua pesquisa – mas não é nesta vertente que o filme vai seguir. O que nos importa é descobrir porque o médico tanto se empenha em chegar à perfeição. Este é o básico, a sinopse que todo mundo leu na mídia.

Em pouco tempo, ficamos sabendo que esta obsessão pela pele perfeita e resistente surgiu a partir da morte da esposa de Robert. Após um acidente de carro – cujas circunstâncias serão reveladas em flashback – ela fica totalmente carbonizada. Não morre imediatamente e Robert incansavelmente batalha pela sua sobrevivência. Só que ela não suporta o estrago que o fogo fez à sua pele. Sua morte, terrível, acaba com o equilíbrio mental da filha do casal – Norma. Aliás, o filme revela que toda a família é desestruturada, desde a mãe de Robert que, em um momento elucidativo, diz que tem a loucura nas entranhas. Não que justifique, mas…



Almodóvar recorre a vários cortes temporais para contar a história de Robert, que montou um laboratório e um centro cirúrgico em sua mansão. É lá que trabalha secretamente no desenvolvimento desta pele resistente. O que causa repúdio é que, em seu experimento, usa uma cobaia humana: Vera Cruz – mais uma homenagem às claras ao Brasil (há outras no filme). Vera é interpretada por Elena Anaya, linda – e eu ainda não lembro de sua personagem em Fale com Ela (meu filme favorito de Almodóvar, até então). De repente, decide dispensá-los e manter apenas uma fiel empregada, Marília (Marisa Paredes), que trabalhara para sua família desde antes de seu nascimento. A chegada de Marília expõe Robert a algumas reviravoltas que fogem de seu controle.

Apesar de todos ficarem vidrados na atuação de Banderas, na loucura de seu personagem, não me parece muito diferente dos crimes hediondos de que se têm notícia pelos telejornais. Manter alguém em cárcere é até comum… A questão experimental, bem, não é para todos, mas de vez em quando a gente sabe algo parecido. O médico é um vingador sem ética, totalmente diferente do vingador de O segredo dos seus olhos – para mim, até então ‘O’ filme de vingança. Acaba sendo mais vil do que o crápula inocente – mas não inofensivo – que ele queria punir. Quantos ‘crápulas’ inocentes estão à solta por aí, agindo de forma totalmente irresponsável, contando com a sorte de não encontrarem um vingador pela frente? Fiquei, durante boa parte do filme, pensando no porquê de Vera pagar a conta pelo ato criminoso de outra pessoa. Até vir a revelação, fantástica. A vingança, para o cirurgião, decididamente, é um prato que se come frio em um banquete… No entanto, Robert se embola com sua vítima. Fica obcecado pela sua criatura, tão semelhante à esposa morta. Vera parece sucumbir também, talvez como o estudado na Síndrome de Estocolmo.




Vera Cruz é, para mim a personagem mais interessante. A verdadeira protagonista. Quando finalmente descobri quem ela era, o filme passou a ter outro significado, não sendo meramente um ‘horror psicológico’. A questão que se colocou para mim foi: “se você passasse por algo semelhante, você conseguiria sobreviver, sem enlouquecer?” Você resistiria, daria conta??? O que fortalece alguém? (No caso de você realmente não ter visto o filme, PARE AQUI, POIS SENÃO ESTRAGAREI MESMO)

Apesar de não ser o foco do filme, cabe aqui um parêntesis para quem curte psicologia. Para muitos transexuais, a cirurgia é extremamente desejada: é quando enfim se libertarão de um corpo que não reconhecem como seu. Muitos arriscam e perdem a vida, por não terem dinheiro ou acesso à cirurgia – que não é facilitada. Acompanhamento psicológico é super indicado para elaborar questões vividas ao longo de toda uma vida até chegar à cirurgia – e para se preparar para lidar com ela. Agora, imagine-se acordando de uma cirurgia em que o seu sexo foi trocado à sua revelia. Sem preparo algum psicológico, sem que existisse este desejo. Quantas pessoas seriam suficientemente saudáveis para não surtar diante de uma violenta mudança???

E por que Vera não surta? Deixei por aí uma pista para a minha opinião sobre o que fez Vera manter-se sã. Espero a sua. Só não vale dizer que a louca aqui sou eu, pois afinal, a dica aparece no meio do filme! Pena que não consegui localizá-la ainda no youtube :D No livro, o final é bem diferente e só há um personagem que renderia um bom papel coadjuvante. Toda a parte da mãe e do Tigrão não existem.



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Thays Babo é psicóloga clínica, Mestre em Psicologia Clínica (Puc-Rio) e atende no Rio de Janeiro

Sobre A Pele que Habito

Assisti hoje a este novo filme de Almodóvar… preciso de um tempo para escrever sobre ele. Mas não podia deixar de vir logo dizer que é muito bom. As pessoas que eu conheço só disseram que era louco. Isto é muito pouco. O filme é genial.

Um conselho: se você não assistiu ainda, nem veja o trailer, porque estraga muito…

Em breve, aqui no Confabulando.


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Thays Babo é psicóloga clínica e atende no Rio de Janeiro

A criança na bicicleta


No Festival de Cannes 2011, O Garoto da Bicicleta (Le gamin au vélo) conquistou o Grande Prêmio do Júri . Dirigido por Jean-Pierre e Luc Dardenne, o filme me deixou tensa do início ao fim. E ao fim, com a pergunta: “será que eu daria conta desta situação?”

Cyril (Thomas Doret) é um adolescente francês, que tem por volta de 12 anos. Mora numa cidade do interior e logo de início vemos que está inconformado por ter sido deixado em uma instituição para meninos pelo pai. A princípio, temporariamente, por um mês. Não só ficou sem o pai : sua bicicleta também lhe foi tomada. A cada dia que passa, está mais agressivo. Tenta de todos os modos encontrar o pai. E todos os modos envolvem fuga e agressão.

Nesta busca, encontra por acaso uma mulher, Samantha (Cécile de France). Cabeleireira, Samantha é um destes anjos que a gente fica sabendo que existem na vida real, mas que não conhece muito… Do nada, ela resolve ajudar Cyril a encontrar o pai – sem que fiquemos sabendo porquê. Terá ela sido abandonada? Terá perdido algum filho nesta idade? Não importa! Não saberemos. Nisto, filmes franceses são ótimos: não tentam mostrar a história prévia dela para justificar sua atitude.

Samantha vai descobrindo, a duras penas, que nem sempre é fácil ajudar. Cyril não é um jovenzinho amável e a coloca em situações complicadas, tendo de algumas escolhas para manter a relação de ajuda . Cheio de uma rebeldia juvenil – e ingênua – o menino põe ambos em riscos. A sensação é, o tempo todo, “isto não vai dar certo”.

Bom, daqui pra frente, melhor eu parar e deixar para quem vai ver o filme. Depois do trailer, vem spoilers… Caso você assista, volte aqui para opinar.



Finalizando, a relação pai e filho é um ponto que provoca bastante a reflexão: será possível se identificar com o pai de Cyril, entendê-lo, aceitá-lo? Aqui também a gente não tem informação do ‘contexto’ do nascimento e vida de Cyril até o início do filme. Suspender juízos de valor é fundamental para não ‘demonizar’ o pai. Como a Laura Brown, de As Horas (sempre ela…).

Paro aqui para não entregar o final do filme…. Mas, nos comentários, fique à vontade!


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Thays Babo é psicóloga, Mestre em Psicologia Clínica pela Puc-Rio e atende no Rio de Janeiro

Late Bloomers ou “O amor não tem fim”

Não tem jeito: quem já passou dos 50 se questiona sobre envelhecimento. Pode ter conseguido até então driblar esta realidade, mas crises – muitas vezes conjugal, outras profissional, ou mesmo alguma doença – teimam em trazer para o foco a pergunta: “E agora – o que fazer?”. É a hora em que muita gente se pergunta: devo ir atrás dos projetos não realizados ou abandoná-los de vez?

Sem achar uma resposta agradável, algumas pessoas emburacam em uma depressão. Outras resolvem sair pela vida, atrás dos projetos perdidos, de forma tresloucada. Às vezes o momento de crise – pra cima ou pra baixo – é que vai permitir que a pessoa se reestruture. Ou não… Na dúvida, ou na crise, quem não consegue força internamente para superar-se, deveria buscar ajuda. Elaborando conteúdos não encarados até então pode-se então estabelecer novos projetos. O tempo que se apresenta à frente – que nunca, ninguém, saberá ou poderá dizer se é longo ou curto, até porque o tempo é relativo - é para ser aproveitado. E a cada um cabe saber como lhe apraz viver o seu. Mas o conselho ‘conhece-te a ti mesmo’ é condição básica…

Que fique bem claro: Late Bloomers NÃO é uma comédia romântica, como algumas críticas podem querer mostrar – muito pelo contrário. É um drama, acridoce, delicado, de Julie Gavras – a mesma diretora de A culpa é do Fidel!. A filha de Costa-Gavras, mais uma vez, fez um belíssimo trabalho, delicado. Sem deixar ninguém que esteja nesta fase da vida deprimido, brinca, fazendo o contraponto entre o jovem e o velho. Alguns críticos ficaram decepcionados com isto, acusando a diretora de ser superficial. Ora, bolas, ela não tem este direito? Quem sabe não é uma boa estratégia de aproximação com os atuais jovens?

Os espectadores podem se questionar: “E agora? vamos nos deixar envelhecer – e cristalizar? Ou vamos rejuvenescer?” – ainda que em outras bases… Qual o limite entre se prevenir, se cuidar e emburacar em uma depressão? Como não se tornar um/a velho/a ‘risível’? É possível envelhecer e continuar atraente? Enfim, como enfrentar o envelhecimento?

Quem tem estas respostas? Médicos? Psis? Talvez ninguém – ou cada um, independente do ‘notório saber’. É mais uma questão de sabedoria e amadurecimento. Que não tem nada a ver com idade cronológica, diga-se de passagem. Vamos à resenha. Se você ainda não viu o filme, melhor parar e voltar depois, porque tem uns spoilers.





Adam (William Hurt) e Maria (Isabelle Rossellini) estão casados há mais de 30 anos, têm três filhos adultos e agora moram sozinhos – aparentemente na Inglaterra. Adam é bem reconhecido profissionalmente, Maria já parou de trabalhar. Na cena inicial, vemos que ele acaba de receber um prêmio pelo seu trabalho. Maria está atônita. Passam uma noite em um hotel e ela tem um lapso de memória, que dispara em Maria uma angustiante constatação: eles são velhos. E agora? Maria começa a superdimensionar sintomas onde não tem.

Adam, por sua vez, recusa a ideia de que está a um passo da morte que acomete Maria. Da mesma forma, recusa-se a se engajar ‘animadamente’ no projeto desafiador que seu empregador traz: criar e trabalhar em um condomínio para idosos. Definitivamente, o conceito não o atrai. Vemos então que cada um deles elege uma estratégia para lidar com o envelhecimento: Maria se ‘prepara’ para ele – de forma cômica, até, talvez tentando controlar o incontrolável. Já Adam resolve unir-se a uma equipe jovem, para se sentir jovem também. Maria, de certa forma, força Adam a encarar de frente este passar do tempo. Com visões tão opostas e uma enorme dificuldade de dialogar sobre algo amedrontador, tudo embalado na teimosia mútua, o casal entra em crise.

O filme tem uma visão bastante pró-idosos. Julie Gravas brinca com o fato de que alguns jovens podem ser bem burrinhos, não? ;-) Ou só irritantes, na necessidade de serem rápidos demais, eficientes, reproduzindo, sem questionarem o discurso ‘produtivo’ que os jovens ‘do nosso tempo’ não tinham… :-D Da mesma forma, mostra que alguns podem ser sábios – como os filhos do casal, que estabelecem uma ‘estratégia’ para reaproximar os pais, sem muita interferência.

Quando mesmo que a gente envelhece? Quando a gente se torna saudosista?

Enfim, o filme traz provocações – mesmo para quem não teve filhos ou não casou. Nem sempre as soluções serão fáceis, e não existe uma fórmula. Mas vale a pena começar a pensar no assunto porque o tempo… voa.

Infelizmente, não achei o trailer legendado. Fica como aperitivo, para que busque assisti-lo em um cinema próximo de você. Aguardo seu comentário.



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Thays Babo é psicóloga, Mestre em Psicologia Clínica, atende no Rio de Janeiro

cachorro favelado

Sobre os últimos filmes e o próximo…

Mais uma vez aconteceu: houve o Festival do Rio e eu acabei não indo assistir nenhum filme… Bom, na lista do ‘a conferir’, está o novo do Almodóvar : A pele que habito – espero que em breve. Perdi Medianeiras, queria muito ter visto…

Ah, passei para anunciar que reescrevi meu texto sobre Quem quer ser um milionário.
Se você não conhece o filme, aqui vai um clip. Mas o filme não é um musical.

Quanto à resenha, você pode conferir em http://www.analista.psc.br/blog/?p=479 . Aguardo seus comentários!

Jai Ho!

Mentira doce ou uma dura verdade?

Já assistiu a Uma Doce Mentira, estrelado por Audrey Tautou? É improvável que você não tenha ligado o nome à pessoa: ela é a atriz francesa que ficou famosa por Amélie Poulain. E também por ter representado Mademoiselle Chanel em um dos filmes biográficos. Não conferi Código da Vinci, mas também foi ela… Se ainda não lembrou, é fácil – olha a fotinho aqui… ;-)

Se quiser ver um romance divertido, você vai gostar. Emilie Dandrieux (Audrey Tatou) há pouco inaugurou um salão junto com uma amiga, em Séte, cidade na costa sul da França, super simpática. O negócio fez com que assumissem dívidas altas. Tão imersa em seus próprios problemas, Emilie não mostra o menor interesse ou curiosidade ao receber uma carta de amor anônima. Sem pensar duas vezes, arremessa-a no lixo. Além das contas, Emilie também se preocupa em treinar a equipe – sua recepcionista é um tanto quanto… parva. E, graças a uma situação inusitada, descobre que seu ‘faz tudo’ no salão é bem mais qualificado do que ela. Ele deveria ter um emprego bem mais digno, o que desperta sentimentos de desconforto em Émilie, sobre a sua própria capacidade.

Filha única, Émilie resolve ajudar sua mãe, Maddy (Nathalie Baye, radiante), a recuperar um pouco da sua autoestima. Separada do pai de Emilie quatro anos antes, Maddy continuava inconformada e visivelmente deprimida. Emilie tem ainda a difícil incumbência de anunciar à mãe que o divórcio deverá ser assinado, para que o pai possa enfim casar. Detalhe: a nova esposa, grávida, é mais jovem até do que a própria Emilie, que se incomodava com isto, declaradamente. Até aí, nenhuma grande novidade – já vimos isto acontecer tantas vezes na vida real, não é? Como Amélie Poulain, a protagonista decide fazer algo para tirar a mãe da deprê.

Emilie tem a ‘brilhante’ ideia de usar a mesma carta. Conhecendo bem sua mãe, podia antecipar que ela adoraria receber uma carta de amor. Resgata-a do lixo, digita e …. là voilá! ;-) . O que ela não previa é que Maddy ficaria tão animada a ponto de querer, a todo custo, descobrir quem era o apaixonado autor da carta… Dá para imaginar o tamanho da confusão? Com o passar dos dias, Maddy fica novamente desanimada, sempre à espera de uma segunda carta. Que não viria nunca, se não fosse pela insistência de Émilie em saber o que deprimira de novo a mãe… Emilie se atrapalha mais do que Amélie para tentar consertar as coisas… Obviamente, ela tenta sozinha – a princípio – dar conta do recado, escrevendo uma segunda carta de amor. Só que a mãe, acostumada a ser musa, detecta uma frieza e distanciamento numa carta totalmente fake… Emilie respira fundo para escrever a terceira carta mas de repente tudo foge ao seu controle. A comédia de erros tem início quando sua mãe finalmente acha que identificou o autor… Bem, melhor assistir ao filme e voltar aqui depois. Ou, pelo menos, depois de assistir ao trailer



É claro que a gente pode sair do filme achando que é, apenas, uma comédia romântica. Mas quem é psi tem o vício de procurar pensar em outros aspectos… Concorda que este é um filme feminino? Vejamos: as duas principais personagens são mesmo Maddy e Émilie. Elas representam o contraponto do velho e novo, da difícil relação mãe e filha, sendo mesmo pessoas totalmente diferentes.

Maddy representa bem as mulheres de sessenta anos de hoje em dia, ‘jovens’ mulheres da chamada terceira idade . Está em crise, às voltas com sua recente solidão e a dificuldade de aceitar que seu projeto de vida não deu certo. Ela rompe um pouco com o padrão das mulheres mais velhas – nossas avós? – que se fechavam totalmente após um luto (em geral por morte, raramente separação, que era raríssimo) e não tentavam novamente, não se arriscavam. Ela, enfim, elabora seu luto e vai atrás da sua felicidade – mesmo que, em alguns momentos, as estratégias (hilariantes) nos pareçam puro desespero. Os espectadores (na maioria, mulheres no cinema) parecem empatizar mais com ela do que com Emilie.

A jovem workaholic , que se congela para dar conta dos negócios e quer seguir sozinha, mal percebe as oportunidades ao redor. O mais triste – psicologicamente falando, não cinematograficamente, ;- ) – é que Emilie também não está tão satisfeita com o que fizera da sua própria vida. Sente-se burra e incompetente em assuntos mais profundos. Tão preocupada em ‘resolver problemas’, cria vários outros e não consegue sair da mentira que criara tão facilmente. Só se aproximando da mãe e assistindo a sua virada, Emilie amadurece e é despertada também. No fim, consegue se transformar.

Ah, e como você responderia a questão colocada no trailer: o que você prefere, uma mentira doce ou uma dura verdade? Na vida real, seria tão fácil relevar a trapalhada que Emilie arrumou?

A vida ensina – ou tenta – que flexibilidade é um talento a ser desenvolvido. Para perdoar uma mentira, facilita um pouco depreender sua intencionalidade. Afinal, mentiras, geralmente, machucam e ‘para quê’ – mais do que ‘por quê’ – é a pergunta fundamental a se fazer diante de uma. Usando de empatia e se colocando no lugar do outro para entender a pessoa à frente, e o que ela busca, os relacionamentos – sejam românticos, familiares ou de amizade – podem mudar. Em geral, pra melhor.

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Thays Babo é psicóloga clínica, Mestre em Psicologia Clínica pela Puc-Rio