Archive for October, 2008

Aposentadoria: hora de se preparar para a vida

 

Enquanto somos jovens, sonhamos com o dia de nos aposentar e fazermos o que realmente gostamos. Mas, quando a hora de dizer adeus ao mundo do trabalho chega, os sentimentos são bastante diversos e a realidade se mostra, muitas vezes, da nossa fantasia de crianças. Muita gente se deprime, sente-se como se tivesse se  despedido da vida… Há quem se entregue e envelheça (fisicamente) em pouco tempo o que não envelheceu nos últimos 5 anos.

É compreensível: no Brasil, em geral, ao se aposentar, a perspectiva não é lá muito boa. Temos um sistema de saúde público precário, poucas pessoas têm previdência privada, o que possibilitaria manter o padrão de vida no nível em que estava antes. Muitas vezes, o preconceito existe dentro da própria família. Aliás, infelizmente, vem do próprio governo brasileiro.

Se por um lado há um “boom” de atividades para a terceira idade, as empresas no geral ainda não se envolveram com a aposentadoria e como preparar para ela. Dão um tapinha nas costas quando o/a funcionário/a completou o tempo de serviço e … tchau! As questões que se apresentam para quem se aposenta poderiam ser tratadas a nível corporativo. Porém, sendo responsáveis por nossa qualidade de vida, convém não esperar pela mudança de mentalidade e por decisões organizacionais.

A proximidade da aposentadoria é uma hora muito propícia para começar um processo psicoterápico. Quem ainda não pensou na sua vida, tem de se preparar. Agora é a  hora. Assim se vislumbram melhor as muitas possibilidades que se abrem à frente. Encarando as necessidades reais e entendendo melhor as restrições que possam surgir a qualidade de vida na aposentadoria pode ser muito boa.

Sempre vale lembrar, que os valores da psicoterapia são negociados na relação analista-cliente, caso a caso, com muito mais flexibilidade do que o imaginário supõe. Enfim, o custo não pode ser um motivo para não conhecer-se a si mesmo/a…

Desafios do novo milênio

Uma das coisas mais difíceis na vida de todos nós é lidar com o envelhecimento. Parece que só os outros envelhecem, criam rugas, ficam grisalhos, engordam, ficam carecas…  Neste ponto, as mulheres contam com maior aprovação social para tentarem disfarçar os sinais do tempo. Mas também se angustiam mais com o olhar do outro.

Quando se é criança, chegar aos 30 é sinônimo de ser ‘coroa’. Na verdade, até  os 20 anos,  a virada para a terceira década de vida é algo inimaginável, parece tão distante… E aí a gente se dá conta de que “o relógio do tempo” disparou.  O personagem Ivan Ilytich, de Tolstoi, se assusta quando percebe que quem envelheceu e adoeceu é ainda o mesmo pequeno menino, que jogava bola. Sente o descompasso entre o que o corpo é e como se sente, jovem ainda.

No filme Celebridades, de Woody Allen, o personagem de Kenneth Branagh se depara com o envelhecimento, mas através de seus amigos, ao revê-los em uma festa.

Em pleno século 21, há um bombardeio com a mensagem de que só a juventude é bela. Aliás, isto vem da Antigüidade, mas naquele tempo a vida era relativamente curta. Agora, a medicina avança, prolongando-a, trazendo o que se chama de ‘maior qualidade de vida’ e iludindo a todos, como se fosse possível prolongar a juventude  eternamente.

Ao achar  que é eterna, nega-se a passagem do tempo, usam-se todos os recursos para tratar da fachada e se esquece o que vai por dentro. E é justamente o que vai por dentro que repercute na beleza e juventude da alma. Temos de estar no mundo, estando em todas as atividades que impuseram para a “terceira idade”, nos desesperando com a solidão que bate, nos apavorando com a nossa opção de ficar em casa, sós, refletindo. Introspecção tornou-se ser para muitos um sinônimo do rótulo “depressivo”. E a    ordem, a normatização prescreve que se combata com medicação. Em outras palavras, se antes a pessoa idosa era quase proibida de ir para a rua, agora se sente na obrigação de estar antenada com tudo. E sofre quando se sente “atrasada” em relação às novidades. Saímos da prisão de um modelo para nos aprisionarmos em outro.

Em um artigo de 1979, Guggenbühl-Craig fala do “arquétipo do inválido”, que tentamos negar tanto em nós mesmos como nos outros. Se este arquétipo for entendido e vivenciado de forma positiva, traz grande sabedoria e crescimento. Se negado, pode se tornar bastante destrutivo (como acontece com os demais, ao serem reprimidos). O mais difícil, talvez, é percebermos que todos somos, em algum nível, inválidos. Se esta palavra lhe incomoda, use “imperfeitos”.

A Medicina (e demais “aliadas” como a Psicologia, a Estética etc) querem dar conta desta imperfeição – no que ele chama “complexo de Deus”, intimamente ligado ao “arquétipo da saúde”, que “(…) transparece no fanatismo com o qual a saúde é cultivada. Ela é perseguida com convicção religiosa e dogmatismo”.

Ao longo do artigo, são feitos vários questionamentos sobre o nosso modo de viver na contemporaneidade, ligando perfeição à totalidade. Com tantos recursos tecnológicos, científicos, tentar ter o controle total está fadado ao fracasso.

E se, como o autor aponta brilhantemente,  “sofremos continuamente de uma permanente imperfeição limitadora”.

O que fica como desafio, então? Simples assim: aprender a lidar com as imperfeições e finitude é arte. A arte de viver no aqui e agora.