Archive for March, 2009

Deu no Yahoo

Matéria  disponível no site Yahoo relata e questiona a existência de terapeutas que ainda acreditam que a homo e a bissexualidade sejam doenças. A pesquisa mencionada foi feita na Inglaterra. Se ainda encontramos este tipo de preconceito entre os psis e médicos britânicos, dá para imaginar a extensão e gravidade disto no Brasil, país em que a religiosidade tem um papel de ‘regulamentar’ a sexualidade.

Particularmente, acho que a chamada do Yahoo foi ‘bombástica’, para chamar a atenção – e principalmente dos homófobos. Ao ler a pesquisa, percebe-se o tom crítico e que esta postura dos médicos e terapeutas de lá não é um consenso – é mais uma desinformação, para a qual muito contribuem valores religiosos e moralistas, o que é uma pena. De certa forma, se associa a orientação sexual a ‘desvios de caráter’, o que mantém o preconceito.

Abaixo, o texto.

‘Gays precisam de tratamento, acreditam terapeutas britânicos’

PARIS, França (AFP) – Em pleno século XXI, terapeutas britânicos ainda propõem tratamentos para ajudar os gays a virarem heterossexuais, contra qualquer prova de que tal medida tenha utilidade e não seja nociva, de acordo com um estudo divulgado nesta quinta-feira pela revista especializada “BMC Psychiatry”.

Esses tratamentos tiveram seu apogeu na Inglaterra, nas décadas de 1960 e 1970, mas há muito tempo a orientação homo ou bissexual não é mais considerada uma doença mental, sobretudo, pela Organização Mundial de Saúde (OMS).

A equipe de pesquisadores de Londres, liderada pelo professor Michael King, pediu a mais de 1.400 profissionais de Saúde Mental (psiquiatras e psicólogos eram quase metade), que tentassem mudar a orientação sexual de um cliente, caso lhes fosse pedido – 1.328 questionários puderam ser analisados.

Apenas um em 25 (4%) disse que o faria, mas um a cada seis (17%) indica ter ajudado pelo menos um cliente a reprimir suas tendências “gays”, ou “lésbicas”, geralmente pela terapia. O estudo não revelou sinal de um declínio dessas práticas no período recente.

Além de sua ausência de eficácia demonstrada, esse tipo de tentativa “pode ser, realmente, perigosa”, advertiu King, acrescentando que “é, então, surpreendente que uma minoria significativa de notáveis ainda ofereça esse tipo de ajuda a seus clientes”.

Os terapeutas apresentaram algumas razões para justificar sua atitude, indo de opiniões morais, ou religiosas pessoais sobre a homossexualidade até o desejo de ajudar pacientes que sofrem discriminação.

Os pesquisadores, especialistas em Saúde Mental, também observaram um certo “grau de ignorância” sobre a ausência de eficácia dessas terapias – em particular, nenhum artigo comparativo científico foi escrito sobre o tema.

O professor King ressalta que a melhor maneira de ajudar os pacientes é lhes mostrar que não há absolutamente nada de patológico em sua orientação sexual, cabendo aos profissionais da área e à sociedade ajudá-los a enfrentar os preconceitos dos quais são objeto.

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Não só enfrentar os preconceitos vindos de fora quanto também os internalizados. Se o indivíduo ‘aceita’ a ideia de anormalidade ou doença, sua auto-estima fica bastante comprometida, com impacto em todas as áreas de sua vida (familiar, afetiva, profissional).

Enfim, mais uma vez é bom lembrar que aqui no Brasil os Conselhos Federais de Medicina e de Psicologia entendem que é passível de punição o/a profissional que tentar ‘reverter’ a orientação sexual. Mas, para isto, cabe a/o paciente denunciar -  só que, para isto, ele/a   tem de conseguir já vislumbrar que homo ou bissexualidade não é indicador de patologia.


Dando voz à igualdade

Milk: a voz da igualdade é um filmaço, baseado na  vida de Harvey Milk. Ao sair do cinema, lembrei da frase de Einstein, dita ainda no século 20: “Tempo difícil esse em que estamos, em que é mais fácil quebrar um átomo do que um preconceito“. É, caro Einstein, de lá pra cá não mudou muita coisa, mesmo depois da curta existência de Mr. Milk…

Milk fez enorme sucesso e conquistou dois Oscars importantes, em 2009: Oscar de Melhor Ator, para Sean Penn, que interpretou magnificamente Milk, e de Melhor Roteiro Original.

Deixando a Academia de lado, gostaria de falar do quanto o filme é tocante.

Mas, afinal, quem foi este homem? Confesso que até assistir ao filme, não sabia nada dele.  Muito resumidamente, Harvey Milk foi um dos primeiros ativistas gays. Americano, foi abatido covardemente por um homófobo ao lutar pelos direitos humanos, no final dos anos 70, em São Francisco.

Felizmente, sua voz continuou ecoando através de seus amigos, que  se engajaram à causa. Graças a eles, em alguns pontos do globo, não é mais ‘politicamente correto’ pensar em homossexualidade como doença ou desvio de caráter. O ‘politicamente correto’, no entanto, faz algumas pessoas mascararem seu preconceito em público – mas ainda é pouco.

Como psicóloga, ouço relatos sobre a vivência da sexualidade e já ouvi histórias bastante tristes sobre a  incompreensão enfrentada dentro da própria família. Pais e mães espancam ou expulsam seus filhos. Pais e mães não reconhecem suas crias se são diferentes do que esperavam ter.

A Onu e, no Brasil, os Conselhos Federais de Medicina e Psicologia orientam para a não discriminação. Psicólogos que tentem ‘reverter’ a orientação sexual são passíveis de notificação e até cassação do diploma, se forem denunciados.

Contrariamente ao que homófobos podem pensar, este filme não é exclusivamente para  gays. É histórico, mostra a lenta evolução das mentalidades, mostra o quanto se deve lutar pelo respeito às diferenças – sejam elas quais forem.

Muito se confunde ainda homossexualidade com criminalidade. Há quem ache mesmo que homossexuais são pervertidos, que são todos pedófilos. Este preconceito acaba iludindo : a cada dia se recebem notícias mais estarrecedoras, de parentes próximos -  pais, avós, tios, padrastos – héteros – abusando das crianças, sem nenhum traço de homossexualidade que reforçasse a suposta e alardeada ‘perversão’.

O discurso pretensamente religioso de muitos homófobos – e que aparece no filme, através de duas personagens – seria engraçado, se não desse tanta margem a mortes violentas e tristeza. Usar o nome de Deus em vão não é pecado, não os assusta? Os suicídios e mortes violentas, assassinatos, não são uma ‘maldição’ lançada sobre homossexuais. Na verdade, se ocorrem, é pela  dificuldade de convivência com o que é diverso. Deus não tem nada a ver com a crueldade humana.

           É interessante também quando Milk, em um debate com um conservador, rechaça a ideia de que, ao conviver com alguém de uma orientação sexual diferente da sua, alguém muda de orientação sexual. Ele diz: “Meus pais eram heterossexuais”. ;-)

Apesar de, cinematograficamente, Milk não ser nada excepcional (fora a atuação de Sean Penn), é um filme que deve ser visto. Ajuda a  refletir sobre preconceitos que persistem. Ajuda  a conversar com os jovens que nos cercam sobre sexualidade, política, direitos humanos. Pode inclusive ser um bom recurso didático para discussão em sala de aula. Afinal, assassinatos de homossexuais não ficaram restritos àquela época. E nem aos Estados Unidos. Até hoje, há grande número de mortes anualmente no Brasil. E são crimes que muitas vezes não são resolvidos, não são punidos e que são praticados justamente por intolerância. Tudo isto contribui para que, além dos homicídios, muitos se suicidem ao invés de assumir e lutar contra o preconceito.

Seria interessante que este post, mais do que uma opinião minha, virasse um debate. Fica o convite. Divulguem.

Quem quer ser um Cachorro Favelado?

Premiadíssimo no Oscar 2009, conquistando logo as duas principais estatuetas (Melhor Filme e Melhor Diretor), dentre outras, Slamdog Millionaire – que,  no Brasil, recebeu o título Quem quer ser um milionário?, em referência ao programa  dentro do filme, dividiu as críticas.

Muito se tem falado que o prêmio simboliza a aproximação dos EUA do resto do mundo, com atores e diretores não americanos premiados.

Hum, ‘americano é tão bonzinho!!!”. Sei não. Eu não sou tão otimista (ou seria ingênua?) !  Acompanhando os comentários sobre os prêmios, vários especialistas apontam que houve em 2009 uma preocupação em contemplar os vários países – não focando só nos Estados Unidos. Preocupação que ia desde aumentar a audiência da cerimônia como também  me vem à cabeça que premiar uma produção ambientada na Índia estimularia bastante as relações entre os dois países.  O mercado indiano não é nada desprezível – é só acompanhar as notícias da economia e ver o desempenho econômico nos últimos anos.

Sou totalmente interessada pela Índia, adoro sua cultura  e admiro muitíssimo o pensamento hinduísta. Não me assusto com a pobreza tão ressaltada por quem não curte o país: ela apenas me entristece, tanto lá como a que vejo aqui no Brasil (que já foi chamada de Belíndia, lembra?)

Mas não achei este ‘O‘ filme. Talvez, em outros Oscars, pudesse ter uma opinião diferente mas ainda estou sob o impacto de O Leitor - este sim um filme que faz a gente rever os conceitos e se colocar no lugar dos personagens. Quem quer ser… é ‘uma gracinha’ de filme, que vai bem com pipoca e refrigerante, numa sessão da tarde. Mas não seria esta mesma a finalidade da sétima arte? Um slogan antigo dizia ‘Cinema é a maior diversão’. Assim sendo, os prêmios valeram!

As perguntas estampadas no cartaz em inglês apelam para o lado romântico, épico, do filme: – O que faz achar um amor perdido?

a)dinheiro  b)sorte  c)esperteza  d)destino

Este foi o golpe de sorte   do diretor: fez um romance disfarçado de ação, rodado em um lugar exótico, com a luta entre o bem e o mal. Uma epopeia atrás do amor eterno, da alma gêmea, com ritmo frenético, um drama de início. Desde que o mundo é mundo, mitos em que o herói que vai resgatar a mocinha e com ela ser feliz sempre agradam em cheio. O filme oscarizado não é uma exceção – mesmo que o herói tenha cara de abobado e não tenha o menor controle sobre a situação – apenas perseverança. E a sorte ao seu lado.

Estou implicando demais? :)

Ok, um brinde  a Danny Boyle, que fez um filme muito interessante  – ainda que eu não desse o Oscar para ele, mas quem sou eu, não é mesmo??? ;)   Quem quer ser… faz a plateia vibrar e  suspirar. Dá até para acreditar que a vida é bela (ops, sem nenhum elogio àquela ‘coisa’  italiana) e que o bem sempre será recompensado no final… Enfim, é um filme para ver e sair feliz, cantando e comemorando.

Revi o filme com um amigo – espero que ele passe aqui para comentar – e comentei que em sua trajetória de herói, como Ulisses teve Atena protegendo, Jamal teve Rama .  Apesar da religiosidade não estar ali, na superfície, o tempo todo – tendo Jamal ‘negado’ a importância de Rama e Alá, em determinado momento – , no final Latika reforça a possibilidade deste olhar, místico, quando diz : “Deus está com você”.  Enfim, também pode ser visto como uma briga entre o Bem e o Mal, e isto é tão confortador!

Concordando ou não, espero os seus comentários – quem você premiaria?