Ansiedade de informação
O surgimento da web agravou em muitas pessoas a necessidade de estarem bem informadas, up to date. Esta ‘ansiedade de informação’ já existia, é bem verdade, remontando talvez ao surgimento da imprensa mas, a partir da criação da internet, se expandiu a níveis globais. Quem não está ‘por dentro’ de tudo, não sabendo do que se passa no mundo, se desvaloriza. Perde não só no mundo do trabalho, mas em todas as áreas da vida.

(É bem verdade que às vezes a gente não sabe o que se passa com nosso parceiro, com nossos filhos ou nossos pais, mas nada ‘queima mais o filme’ do que não acompanhar os passos dos líderes mundiais, dos escândalos de corrupção no Brasil, e até fofocas com o troca-troca das celebridades – que, muitas vezes, dão o tom cômico do dia ).
Em relação à informação ‘relevante’, graças ao Google (que, em inglês, virou verbo: I googled it), pessoas do mundo inteiro deixam de frequentar as bibliotecas tradicionais. Ok, onde elas existem – e aqui no Brasil são poucas. Buscam a notícia quentinha, que acabou de acontecer e nem teve tempo ainda de ser editada. Tanta rapidez tem suas consequências, nem sempre positivas.
Para começar, a possibilidade de qualquer pessoa, com acesso à rede, gerar conteúdo – democratização da informação? – tem como um ‘efeito colateral’ a baixa qualidade do que é publicado. O “recorte e cole” possibilita que a informação seja reproduzida em escala global, instantaneamente, sem que nem tenha sido checada. Não houve há alguns anos um escândalo no Reino Unido, porque Tony Blair usou uma fonte destas, a partir de um assessor que pesquisou online? Quem souber detalhes, por favor, me informe…
Um exemplo recente foi o que aconteceu com a brasileira radicada na Suíça, que declarou ter sido atacada por neo-nazistas. No afã da mídia dar a notícia em primeira mão, quase se gerou um incidente diplomático – afinal, acreditaram de primeira nela. O caso é triste, provavelmente indica um transtorno psiquiátrico mas o que gerou? Vergonha para os brasileiros residindo no exterior, constrangimento para o governo, piadas… E ainda pode reforçar a xenofobia – afinal, para xenófobos, qualquer argumento contra vai valer…
Há também o fato da ‘abertura’ dos sites de grandes jornais, aceitando informações e fotos de qualquer pessoa. Antigamente, para participar dava mais trabalho, tinha de se ir ao correio – e isto por si só já era um ‘filtro’ de qualidade. Agora, qualquer pessoa pode competir com os jornalistas. Muitos fazem isto pelos 15 minutos de fama – que já devem ter se pulverizado em 15 segundos… Aliás, persiste a exigência do diploma de jornalista para trabalhar na mídia?
Indo para o âmbito da Educação, estudantes muitas vezes nem leem o que lhes é pedido para pesquisar. Alguns professores tradicionalistas, na tentativa de assegurarem um mínimo de envolvimento com o que é pedido, exigem que o trabalho seja feito em folha de papel almaço e manuscrito, para pelo menos garantirem que seus pupilos tenham lido o que copiaram. Esta medida já gera um certo ‘clima’ na relação professor-estudante. É lógico que tal docente será visto como ‘jurássico’ e a bem verdade esta forma de trabalhar talvez só venha a ser valorizada pelo/a estudante no futuro. No momento, gera uma impopularidade junto à classe.
No Saia Justa do dia 22/04, a filósofa Marcia Tiburi falou da ditadura da opinião. Alguém viu? peguei o finalzinho…
Sei que muito do que se fala, também se aplica a mim: to sempre opinando e este texto pode ser um ótimo exemplo de colcha de retalhos – e quem quer saber?

