Archive for April, 2009

Ansiedade de informação

O surgimento da web agravou em muitas pessoas a necessidade de estarem bem informadas, up to date. Esta ‘ansiedade de informação’  já existia, é bem verdade, remontando talvez ao surgimento da imprensa mas, a partir da criação da  internet, se expandiu a níveis globais. Quem não está  ‘por dentro’ de tudo,  não sabendo do que se passa no mundo, se desvaloriza. Perde não só no mundo do trabalho, mas em todas as áreas da vida.

(É bem verdade que às vezes a gente não sabe o que se passa com nosso parceiro, com nossos filhos ou nossos pais, mas nada ‘queima mais o filme’ do que não acompanhar os passos dos líderes mundiais, dos escândalos de corrupção no Brasil, e até fofocas com o troca-troca das celebridades – que, muitas vezes, dão o tom cômico do dia ).

Em relação à informação ‘relevante’, graças ao Google (que, em inglês, virou verbo: I googled it), pessoas do mundo inteiro deixam de frequentar as bibliotecas tradicionais. Ok, onde elas existem  – e aqui no Brasil são poucas. Buscam  a notícia quentinha, que acabou de acontecer e nem teve tempo ainda de ser editada. Tanta rapidez tem suas consequências, nem sempre positivas.

Para começar, a possibilidade de qualquer pessoa, com acesso à rede, gerar conteúdo – democratização da informação? – tem como um ‘efeito colateral’ a baixa qualidade do que é publicado. O “recorte e cole” possibilita que a informação seja reproduzida em escala global, instantaneamente, sem que nem tenha sido checada. Não houve há alguns anos um escândalo no Reino Unido, porque Tony Blair usou uma fonte destas, a partir de um assessor que pesquisou online? Quem souber detalhes, por favor, me informe… ;)

Um exemplo recente foi o que aconteceu com a brasileira radicada na Suíça, que declarou ter sido atacada por neo-nazistas. No afã da mídia dar a notícia em primeira mão, quase se gerou um incidente diplomático – afinal, acreditaram de primeira nela. O caso é triste, provavelmente indica um transtorno psiquiátrico mas o que gerou? Vergonha para os brasileiros residindo no exterior, constrangimento para o governo, piadas… E ainda pode reforçar a xenofobia – afinal, para xenófobos, qualquer argumento contra vai valer…

Há também o fato da ‘abertura’ dos sites de grandes jornais, aceitando informações e fotos de qualquer pessoa. Antigamente, para participar dava mais trabalho, tinha de se ir ao correio – e isto por si só já era um ‘filtro’ de qualidade. Agora, qualquer pessoa pode competir com os jornalistas.  Muitos fazem isto pelos 15 minutos de fama – que já devem ter se pulverizado em 15 segundos… Aliás, persiste a exigência do diploma de jornalista para trabalhar na mídia?

Indo para o  âmbito da Educação, estudantes muitas vezes nem leem o que lhes é pedido para pesquisar. Alguns professores tradicionalistas, na tentativa de assegurarem um mínimo de envolvimento com o que é pedido, exigem que o trabalho seja feito em folha de papel almaço e manuscrito, para pelo menos garantirem que seus pupilos tenham lido o que copiaram. Esta medida já gera um certo ‘clima’ na relação professor-estudante. É lógico que tal docente será visto como ‘jurássico’ e a bem verdade  esta forma de trabalhar talvez só venha a ser valorizada pelo/a estudante no futuro. No momento, gera uma impopularidade junto à classe.

No Saia Justa do dia 22/04, a filósofa Marcia Tiburi falou da ditadura da opinião. Alguém viu? peguei o finalzinho…

Sei que muito do que se fala, também se aplica a mim: to sempre opinando e este texto pode ser um ótimo exemplo de colcha de retalhos – e quem quer saber?

Simplesmente idiota

Algumas vezes, no tocante a filmes, críticas especializadas ou mesmo recomendações de amigos nos decepcionam bastante. Comento aqui uma das poucas vezes em que tive ímpeto de abandonar a sala de cinema – mas, infelizmente, não o fiz…

Foi quando resolvi assistir a Simplesmente feliz, filme britânico, comentado por Betty Lago no programa Saia Justa, do GNT. Deveria ter desconfiado que não valia a pena, pois Betty fez alguma comparação entre a protagonista, Poppy, e Poliana. Se detestei Poliana e Poliana moça – livrinhos chatos que li na adolescência – como poderia gostar do filme?

Poliana, pra quem não conhece, era uma menina super otimista que fazia ‘o jogo do contente‘. Ou seja, sempre via o lado bom nas coisas mais trágicas e difíceis que lhe aconteciam. Até aí, tudo bem. Pessoalmente, sou bastante otimista e não me deixo abater frente a problemas e crises. Mas rir feito hiena e negar a realidade como Poliana ou como o  protagonista do filme italiano A vida é bela (que, imerecidamente ganhou vários Oscar, em 1998),  me dá agonia.

Dez anos depois, a atriz Sally Hawkins ganhou o Urso de Prata em 2008 e o Globo de Ouro por um papel que corresponderia ao do italiano. A história de Simplesmente feliz, no entanto, se passa em Londres, nos tempos de hoje. Sim, Sally atua bem, mas o problema não é a atriz. É o papel.



O que me surpreendeu é que a maioria dos comentários online é elogiosa. Os críticos destacam o modo Poppy de ser,  como se só houvesse duas possibilidades, extremadas: neurótica, infeliz, prestes a explodir – como o instrutor, Scott, representado por Eddie Marsan (de 21 gramas) ou a da protagonista, completamente fora da realidade, com um tipo de humor  pastelão.

A vida pode – e deve – ser vivida de forma lúdica, brincalhona, descontraída – e não levada como um drama. Mas, apesar de Poppy mostrar-se, no trabalho, responsável e sensível, em sua vida cotidiana, ao negar a realidade, custa a ver as pessoas que tem à sua volta. Fica aturdida, mas nada a abala. Parece que nada a fará ser adulta.

O que talvez tenha me aborrecido seja justamente esta ‘moral da história’: ter comportamentos infantilizados é ser saudável; adulto responsável  é neurótico.

Talvez sejam apenas formas de ser…

Delire, consuma – ou consuma porque delira?

Confesso: assisti a Delírios de consumo de Becky Bloom. Para manter o tom confessional, devo dizer que meu post inicialmente era bem mais crítico, porque imaginei que, sendo igual ao livro, não gostaria… Depois de ver, resolvi reescrever, para ser mais justa.


Com a justificativa que veria este filme 1) para acompanhar minha filha e 2) como objeto de estudo, a fim de entender o que uma pessoa que consome desenfreadamente quer preencher em si, fui para o cinema. Ah, também tem um 3) por ter ouvido um comentário que era absurdo comentar um filme que eu não tinha visto. ;) Eu tinha me permitido por já ter lido o livro há uns anos, mas como consegui esquecer tanta bobagem junta, resolvi fazer a coisa certa…

O trailer tinha me induzido a crer que o filme seria uma bomba. É estranho, em geral, trailers costumam ser até melhores do que os filmes pois na edição e seleção de cenas se tem o cuidado de pinçar o que há de melhor! Resumindo: não fiquei com raiva de ter ido ao cinema. E os cinéfilos que me perdoem, mas vou tentar dizer porquê. Peço desculpas por decepcioná-los, mas não se esqueçam de que sou psicóloga e busco algo nos personagens interessantes, críveis. E que vire material para uma boa análise… ;)

A adaptação cinematográfica deslocou a protagonista de Londres para Nova Iorque. Não é nada, não é nada, mas talvez nos States o consumo não seja visto tão patologicamente: afinal este é o país do consumo par excellence.



Sim, o filme tem cenas engraçadas, mas, calma, não precisa correr para o cinema. Quando sair o DVD, prepare a pipoca e pode assistir em casa, em um dia de chuva e vai se divertir – se você tiver bom humor.
Por outro lado, o filme pode, sim, ser usado para pensar questões importantes. A começar pelo título original, tanto do livro como do filme: “Confessions of a shopaholic“. No cinema é engraçado mas, na vida real, a compulsão por compra gera problemas sérios, separações, endividamentos, depressões e até mortes. Como todas as ‘adições’. No filme, a sorte de Becky lhe favorece – como era fácil prever… That´s Hollywood.

Outro tema, que não é abordado mas atravessa o filme, pode provocar interessantes discussões: o lixo que se gera a partir do excesso de consumo. Este é sem dúvida um dos problemas mais difíceis de resolver hoje em dia, no mundo: como lidar com todo o lixo que, a cada dia, produzimos mais? As indústrias não podem parar, as economias e a paz mundial dependem disto e a mídia alimenta o desejo por mais e mais coisas novas – muitas desnecessárias. O armário de Becky poderia ser um bom exercício, sendo uma amostra do que é ser viciada no supérfluo.

Cada mulher, cada homem tem ‘armários’ diferentes, cada qual com seu objeto de fetiche. Não necessariamente são roupas, sapatos ou bolsas. Podem ser celulares, notebooks. Na medida em que se tem de estar atualizado e modernizado o tempo todo, com o carro mais novo, o celular mais fantástico, o gadget mais bacana, onde vão parar os antigos? É um tremendo tiro no pé que se dá, em função das aparências. Ou de algo mais profundo a completar.

Consciência e responsabilidade ecológicas devem ser conceitos que não existem no dicionário de Beckys Blooms. Amor à simplicidade pode ser até mal visto. Mas é o que pode salvar a Terra e as gerações futuras… Não é por acaso que a ansiedade e angústia aumentam bem como o uso dos remédios e drogas também cresce. Afinal, como dar conta de tantas exigências para manter as aparências, se seu valor está no que se tem e não no que se é? E como ficar tranquilo/a vendo os recursos naturais se acabarem e a Terra não ter como despejar e processar todo este lixo?

Bem, pode ser que assistir este filme só provoque risadas. Eu torço para que deixe ideias para um consumo mais consciente, menos delirante. Afinal, no final das contas, ser sempre foi mais stylish do que ter.

Sinais Amorosos – você sabe reconhecê-los?

Entrou em cartaz mais uma comédia romântica americana: “Ele não está tão a fim de você“. O filme foi inspirado no livro homônimo, originado a partir de um episódio da série “Sex and the city“. No episódio,  a personagem Miranda se perguntava porque um homem, com quem tinha saído, recusara seu convite para dar uma esticadinha no seu apartamento, alegando uma reunião no dia seguinte. O papo tinha sido tão agradável etc etc. Convenhamos, esta é uma dúvida ‘tipicamente’ feminina. As 3 amigas (Carrie, Charlotte e Samantha), muito solidárias, se apressaram em tentar esclarecer, usando desculpas que provavelmente ouviram muito ao longo de suas trajetórias amorosas. Não tenho o texto comigo mas  era algo do tipo: “Você é boa demais pra ele” ou “Ele deve ter se sentido inseguro com a sua independência” ou, ainda, “Ele deve ter problemas com figuras femininas”. Mas a resposta correta veio de  Berg, o então namorado da protagonista, Carrie Bradshaw.

Na única fala decente de Berg na série, ele diagnosticou: “Ele simplesmente não está a fim de você“.

Tão óbvio, não? Qualquer homem diria o mesmo. Mas foi chocante para as amigas de Miranda, que ficaram furiosas com a sinceridade dele.  Berg argumentou, provando, por A+B, que – quando um homem está interessado – ele se empenha, liga, vai atrás. Como ela não percebera isto antes?

Apesar de tudo, Miranda se sentiu aliviada e obteve uma nova visão sobre os relacionamentos – não que ela tenha deixado de ser totalmente neurótica, mas, ao menos, não mais se enganava quando o telefone não tocava…

O episódio teve tanto sucesso que os roteiristas se inspiraram e escreveram um livro de auto-ajuda, que virou best-seller. Não li o livro, mas cedi a ‘pressões’ e fui ver o filme. Desde o Mestrado estudo a Psicologia do Amor e quis conferir  se os produtores tinham sido totalmente sinceros e entregado o jogo.

Não cheguei a me arrepender. É sempre melhor ir ao cinema para ver as reações do público.  No cinema, a plateia não era só predominantemente feminina: vi vários rapazes adolescentes – só espero que não tenham ido aprender formas mais eficientes de sedução! ;)

Ele não está tão a fim de você” começa muito parecido com a série na sua primeira temporada, recorrendo a depoimentos de pessoas que não as personagens. O filme pode ser bem didático para mulheres ansiosas em ‘laçar’ um namorado: mostra exatamente o que não se deve fazer. O discurso de que contos de fada são exceções à regra e que é muito difícil que um sapo se transforme em príncipe (palavras minhas)  pontua quase todo o filme para, no final… bem, talvez seja melhor conferir.

A protagonista Gigi é de espantar qualquer homem com alergia a compromisso. E desespera as mulheres que assistem ao filme: muitas delas se reconhecem por terem cometido os mesmos erros crassos!

Além do elenco, bastante competente, o ‘desabafo’ da personagem de Drew Barrymore é um dos pontos altos do filme: no século 21, com tantas tecnologias disponíveis, fica ainda mais patente se alguém não se interessa. Os sinais estão ali, evidentes pois, afinal, todo mundo está disponível o tempo todo: seja via internet, com  dezenas de portais e sites de relacionamento – orkut, twitter, facebook etc -  seja por celular, on 24 horas. Não há mais porquê ficar em casa, ao lado do telefone esperando por uma ligação. Foram-se o romantismo e o sofrimento: se ele ou ela quiser te achar, vai conseguir… (Sim, ele ou ela – porque algumas mulheres agem iguaizinhas aos homens: seduzem mas não assumem) . No final das contas, acabaram-se as incertezas (‘ligou ou não ligou?’), mas será que não aumentou o sofrimento e, com isto, a ansiedade? ;)

Como se podia esperar, o final não escapou ao   tradicional happy ending para quase todos os personagens, contrariando a premissa básica do filme.

Nada tão imperdoável assim.