Archive for May, 2009

Ainda procrastinando?


Não sei o quanto vocês têm explorado o blog, mas, em fevereiro, fiz um post sobre uma palavra que muita gente acha que é palavrão: procrastinação. E, mesmo sem saber  seu significado, a ‘pratica’ diariamente.

Outro dia achei este vídeo no Youtube, e  resolvi vir compartilhar com vocês. Mesmo sem legendas, acho que dá para pegar o espírito da coisa, não?



Resumindo, nosso amigo acorda de manhã rápido porque tem muita coisa a fazer (to get my stuff done).  Para isto, toma café. Mas, como sujou sua mesa, resolve limpá-la totalmente – o que o ajudaria a terminar o trabalho, se organizando melhor, certo? Quando termina, ele percebe que não fez muita coisa, e  resolve comer cereais, para não ter fome durante o trabalho. Dá-se conta de que tem de ir ao mercado… Chegando lá, faz uma compra para toda semana. Chega em casa, já não queria mais comer cereais e resolve lavar a louça, pra comer e não ter de parar enquanto trabalha. Ah, como a cadeira range acha melhor sair para comprar óleo, para não atrapalhar o trabalho…  Bom, depois ele percebe que está ficando tarde e começa a ver Twilight Zone. Mas, claro, decide dormir cedo para poder estar descansado no dia seguinte, acordar cedo e trabalhar…

 Soa familiar?  ;)

Perdas e despedidas

Não adianta: nenhum ‘manual de instruções’ é suficientemente bom quando chega a hora de dizer adeus a alguém querido.


Toda morte nos choca, independente da causa: acidente ou velhice, doença degenerativa (em casos em que até pode ser um alívio, para quem se vai e ou para quem fica, que sofre ao assistir o declínio lento).


Independente de religião, mesmo quem acredita em múltiplas existências, não consegue passar indiferente ao ritual de despedida. Enterro ou cremação são igualmente dolorosos – e em geral as pessoas mais próximas se veem envolvidas nos preparativos, quando tudo o que gostariam de poder fazer mesmo seria sentar e prantear. Poder fazer isto é fundamental para elaborar a perda.

Tenho a impressão de que, como ocidentais, sofremos mais nas despedidas das pessoas que são importantes para nós. Nossa cultura não nos prepara para o enfrentamento da morte, este que é o único evento de que temos certeza. Segundo os estudiosos, os avanços da medicina contribuíram para isto, ao afastar o doente de sua família, sendo um peso na elaboração da perda.

Talvez algumas perdas nunca possam ser ’superadas’, só ‘ressignificadas’. O tempo colabora, transformando o desalento total em saudade. Mas se não houver um firme comprometimento com a vida, as pessoas ao redor de quem sofreu a perda devem buscar ajuda profissional.

Dentre as abordagens filosóficas ocidentais, talvez a existencialista seja a que melhor aponte a relação entre a qualidade de vida que levamos com a aceitação diante de nossa própria finitude. Sim, cada morte de alguma forma nos atinge e nos desestabiliza porque vem nos lembrar da nossa própria morte, agendada, em algum dia distante (ou não, como saber?).

Apesar do hermetismo que dificulta a compreensão de Heidegger, o filósofo alemão definiu de forma (precisa?): o homem é um ser-para-a-morte. Mas isto não nos torna automaticamente ‘habilitados’ para lidarmos bem com ela.

Pessoalmente, consegui entender melhor a angústia de morte quando li o capítulo 4 de Existential Psychotherapy, de Irvin Yalom. Famoso por aqui pelos seus romances, pouca gente sabe que o autor escreveu um compêndio – ainda não traduzido – sobre a clínica apoiada nesta abordagem psicoterápica. O capítulo é repleto de casos clínicos e também de trechos de romances em que a angústia de morte está ali, clara como cristal. Um dos livros que cita é A morte e a morte de Ivan Iliitch, de Tolstoy. Tolstoy retratou perfeitamente bem o que todos nós pensamos antes mesmo do confronto com a morte. A percepção do envelhecimento já nos é difícil. E a negação de Ivan Illitch,  diante da constatação de que  vai morrer, é muito bem descrita :

No fundo de seu coração, ele sabia que estava morrendo, mas ele não apenas não se acostumava com a ideia: ele simplesmente não lidava nem conseguiria lidar com isto.

O silogismo que ele havia aprendido no Tratado de Lógica de Kiezewetter, “Caio é um homem; homens são mortais, logo Caio é mortal”, sempre lhe pareceu correto se aplicado a Caio, mas, certamente, não se aplicado a ele mesmo. Aquele Caio – homem abstrato – era mortal, perfeitamente correto. Mas ele não era Caio, não era um homem abstrato, mas uma criatura bastante diferenciada de todas as outras. (…) Caio realmente era mortal e estava certo para ele morrer. Mas, quanto a mim, pequeno Vanya, Ivan Ilyich, com todos os meus pensamentos e emoções, é um assunto totalmente diferente. Não pode ser que eu tenha que morrer. Isto seria muito terrível.


Existential Psychoterapy mudou minha forma de me relacionar com a vida. Teve muita importância a frase que Yalom ouviu de uma paciente, após um diagnóstico de terminalidade: “A existência não pode ser adiada“. Ele percebeu em seus pacientes, de todas as idades, de ambos os sexos, a urgência de fazer o máximo aqui, agora, sem adiar projetos, quando descobria que a vida podia se extinguir muito antes do que se planejara. Viver plenamente e de acordo com os outros existenciais: liberdade, responsabilidade, autoria. O psiquiatra aprendeu com seus pacientes  que a forma com que lidam com a morte é indicativa de como viveu: foi uma vida plena? Ou feita de adiamentos?

Alguns filmes tocam no assunto de forma sensível e trazem reflexão, sem apelar para o melodrama. Alguns destaques:

- O clássico Sétimo Selo – de Ingmar Bergman, de 1956

- All that Jazz - musical

- O Reencontro (1983) e Para o Resto de nossas Vidas (1992) – quase 10 anos separam os dois filmes, que se confundem um pouco por terem em comum a temática da reunião de antigos amigos e o enfrentamento da terminalidade.

- O Encontro Marcado – filme de 1998, com Brad Pitt e Anthony Hopkins.

- Amor além da Vida – este filme de 1998, que tem Robin Williams no elenco, ganhou Oscar de Melhores Efeitos, trata da morte inesperada e também do suicídio, trazendo um olhar espiritualista, muito parecido com a visão da  doutrina espírita.

- Magnólia – filme de 1999, com elenco muito bom e várias histórias que se cruzam.


- As Confissões de Schmidt – produção de 2002, com Jack Nicholson. Schmidt se aposenta e então descobre algumas coisas sobre a vida.

- Invasões Bárbaras – filme canadense, de 2003, premiado no Oscar

- O Tempo que Resta – filme francês, de 2005, ilustra bem o que Irvin Yalom percebeu em alguns pacientes terminais: a urgência de viver a vida plenamente.

- O Escafandro e a Borboleta – Baseado em uma história real, nos lembra que a morte espreita todas as pessoas, de qualquer idade, a todo o tempo, apesar de construirmos defesas para não lembrarmos dela.

Listo abaixo outros a que não assisti (por critérios cinematográficos e não propriamente por rejeição ao tema) mas que sempre são citados :

- Doce Novembro

- Um amor para recordar

- P.S. Eu te amo

(Caso lembre de algum, mande a dica…)

Apesar de toda a importância do pensamento existencialista, na verdade estou mais de acordo com o que ouvi pela primeira vez na Unipaz, e não sei exatamente a autoria: somos seres-para-a-transcendência.

Cabe a cada um buscar descobrir como. Sim, há sempre a opção de não querer pensar sobre o assunto. Por isto, deixo como reflexão um filminho que foi premiado.


‘Se ninguém olha, quando você passa,’

… já diziam Lobão e Bernardo Vilhena, a pessoa se considera carente, achando que ‘não está legal’ se não é notada. Lembrei da música ao ler o artigo de Miriam Goldemberg no Jornal do Brasil deste domingo (sim, sou a última que ainda lê  o JB! :) ). Para as mulheres brasileiras, não chamar a atenção dos homens na rua – mesmo que por homens que não pertençam a seu ‘público alvo’ – é um termômetro de ‘algo a ser feito’. E a ação, claro, vai para o externoior: roupas novas, cirurgias plásticas, maquiagem e cosméticos, bem como malhação pesada são alguns dos recursos para reverter o quadro.

Miguel Paiva, cartunista que  lançou a Radical Chic  no JB :D   , criou  uma historinha em que a própria, depois de se sentir arrasada pela  falta de cobiça pública, medida provavelmente pela ausência de olhares ‘gulosos’,  troca de roupa para ir à feira. O sorriso dela demonstrava que sua auto-estima foi recuperada, após ouvir aquelas bobagens que alguns feirantes costumam dizer ao ver uma ‘freguesa’ bonita. É dela a pérola: “Adoro quando os feirantes, os porteiros e os pedreiros do meu bairro me chamam de gostosa: é a comunidade solidária!” (Já ouvi de mulheres de carne e osso que  passar por uma obra vitalizar e renova sua auto-percepção como fêmea.)

E é nesta necessidade que a antropóloga vai focar, ao comparar a atitude de mulheres adultas brasileiras  e  a das alemãs, as quais entrevistou em viagem entre 2005 e 2007. Provocadora, a autora aponta esta como uma das principais diferenças entre a mentalidade da mulher brasileira e da alemã.  (http://jbonline.terra.com.br/leiajb/noticias/2009/05/17/sociedadeaberta/o_capital_marital.asp).

Miriam constatou que as alemãs usufruem muito mais do seu poder pessoal, de suas vitórias e conquistas, ao invés de se submeterem (e aprisionarem) ao olhar do outro – no caso, dos homens.

As brasileiras avaliam o seu valor pessoal em função do olhar masculino e, em casos extremos, até o feedback positivo de homens que não são o seu tipo ideal já serve! Estarem ou não casadas ou com um relacionamento estável assegura-lhes maior autoconfiança. Não deve ser por acaso que fez tanto sucesso a peça “Não sou feliz, mas tenho marido“, com Zezé Polessa no papel principal.  Vem daí a obsessão da mulher brasileira em parecer mais jovem, ‘gostosa’. Ser desejada assegura (ou, pelo menos, acreditam assim) que um relacionamento estável surja.  Obviamente a indústria e a mídia apoiam isto, endossando o que, nas palavras de Miriam, é a ‘miséria subjetiva’ .


O desespero das mulheres é ainda maior ao constatar que o homem brasileiro é facilmente seduzível por mulheres mais jovens. O Brasil, por  ter um enorme litoral, em que as mulheres expõem o corpo ainda mais,fica ainda mais acirrada a disputa pelos poucos homens – e aí já estão incluídos até os não disponíveis, para algumas mulheres, basta respirar!  Com isto, o envelhecimento, que vem para todos – homens e mulheres -  é ainda mais apavorante para a mulher já que as estatísticas apontam que quando mais velhas tem maior dificuldade em manterem um relacionamento.

E o que cada uma pode fazer para combater esta ansiedade e ‘miséria subjetiva’?

Sugestões?

Repensando hábitos

Ok, não vou entrar no papo sobre vegetarianismo, listando os inúmeros motivos para não comer carne. Até porque ainda como peixe direitinho, então, meu telhado é de vidro…

Mas, por favor, se você ainda não se deu conta de que este seu hábito ajuda a tornar o nosso planeta pior, dá uma lida na matéria do Yahoo em  http://br.noticias.yahoo.com/s/14052009/48/saude-bife-vem-daqui.html .

Viu as fotos? elas não te tocaram?

Tinha uma foto ainda mais chocante, que o  Yahoo já tirou do ar, infelizmente. Eram uns 2 ou 3 bois numa área enorme, desmatada. Depois o pessoal reclama de desastre ecológico, que falta ação do governo. Eu, como sou meio radical, acho que deveriam proibir a construção de churrascarias que tivessem sistema de rodízio! Convenhamos: é antiecológico, faz mal à forma física, eleva os níveis de colesterol. Quem lucra?

A mudança começa em cada indivíduo. Mudança de hábitos. Mas quem quer fazer a sua parte?

Umbigólatras

Uma matéria em Veja (13 de maio de 2009) relata pesquisa realizada por psicólogos americanos sobre um traço fundamental da sociedade americana: o narcisismo. Segundo os psis Jean M. Twenge e W. K . Campbell, as celebridades estariam ‘disseminando’  este ‘vírus’.  A matéria destaca várias  personalidades (melhor dizendo, ‘celebridades’), que  tem o narcisismo exacerbado. Cientificamente conhecido como transtorno de personalidade narcísistica, está catalogado no CID-10 junto a outros transtornos .

Outro estudioso do assunto, o psicólogo americano Drew Pinsky, testou 200 celebridades e  a partir daí escreveu o livro The Mirror Effect.  Listou 7 traços característicos das personalidades narcísicas e os  correlacionou com alguns artistas americanos e seus escândalos, amplamente cobertos pela mídia.  São eles:

  • Autoritarismo (ex: ator Christian Bale)
  • Superioridade (ex: cantor Chris Brown)
  • Vaidade (ex: Michael Jackson)
  • Exibicionismo (ex: Lindsay Lohan, Britney Spears)
  • Exploração dos outros (Madonna)
  • Autossuficiência (ex: Tom Cruise)
  • Pretensão a privilégios (ex: Mariah Carrey)

A matéria faz um rápido resumo do belo e trágico mito de Narciso, o jovem que se apaixona pela sua própria imagem. 

Se esta busca pela atenção é mais evidente entre os artistas, políticos e esportistas (segundo Pinsky, o narcisismo é o que os estimula a buscarem o reconhecimento público), de certa forma não só a atenção do público o reforça. Em um mundo em que nada está sendo ’sólido’ e as relações se fluidificaram, estar em evidência aparentemente garantiria sucesso. Claro que não é assim.

Twenge e Campbell sugerem que se combata a epidemia narcísica com uma evitação à informação sobre as vidas das ‘celebridades’. Poderia ser uma solução – mas parece bem difícil, pois precisaria de conscientização. Não só o público procura avidamente estas informações: é-se invadido por ela, mesmo em casa ou no trabalho. Exemplos: tente checar e-mails acessando  seu webmail. Ninguém precisa comprar revistas de fofocas para se inteirar delas: basta ir a um salão ou aos profissionais de saúde, que oferecem Caras como degustação.

É bom lembrar que os autores mencionados não são psicanalistas, adotando uma abordagem social do fenômeno.  Aliás, para isto é bom ressaltar também as características culturais, locais. A matéria ressalta as diferenças entre o narcisismo entre os artistas brasileiros e os americanos. É possível que tal diferença se dê devido às diferentes tradições religiosas: nos EUA, a sociedade protestante sentiria menos culpa em relação ao orgulho do que a nossa, de base católica. A fama se tornou um valor em si e  a internet potencializa esta possibilidade de se tornar rapidamente conhecido, simultaneamente, em todo o mundo.

Por que tanto interesse sobre o assunto? Ora, o transtorno de personalidade narcísica tem efeitos não só sobre os famosos. Os estudiosos consideram que algusns aspectos como a compulsão por compras (ostentando-se um poder econômico que não se tem, na realidade – causando complicações na vida financeira e, por tabela, na vida familiar e amorosa), o boom das plásticas e próteses, dentre outros, tem correlação com esta ‘escalada narcísica’.  Outro ‘efeito colateral’ seria  a proliferação dos blogs e sites, em que a intimidade é exposta aos olhos de qualquer um. Na busca da fama a qualquer preço, o perigo é ainda maior para jovens adolescentes, que buscam se destacar  mais avidamente (crise de valores? falta de horizontes?)

Todas estas reflexões são apenas uma forma de preparar questionamentos que devem ser também pessoais.