Archive for November, 2009

Existencialistas, graças a Deus…


Rio de Janeiro, calor infernal, jogos importantes na reta final do Brasileirão, mas a sala de teatro do shopping em área nobre da cidade estava lotada pra assistir a uma hora de Fernanda Montenegro no palco, encarnando Simone de Beauvoir. O espetáculo Viver sem tempos mortos é um desafio e tanto para os neurônios quem não conhece o histórico de Beauvoir e compareceu só pra conferir o desempenho da atriz. Fernandona deu conta do recado com louvor, sem entediar o público, que a vê sentada durante 60 minutos. Boa parte dos quais remetendo-se à sua metade intelectual: Sartre, com quem formou o casal mais provocador do século 20. Talvez até o mais inteligente – e certamente o mais emblemático de uma geração.



De uma forma muitíssimo sintética, o existencialismo teve seu ápice na França, no pós-guerra, popularizado pelo casal Beauvoir e Sartre.
Contaminado pelo clima da época, pessimista, frente a uma França invadida e dominada pelos nazistas, tem como conceitos fundamentais a liberdade, responsabilidade, autoria. Não era, em sua origem, materialista, mas na visão Sartreana – e de Beauvoir, bien sûr! – o existencialismo negou qualquer a priori. Focado no aqui e agora, nada de lá e então. A morte é vista como aniquiladora dos projetos.

Mas e qual papel cabe a Beauvoir no meio dos intelectuais franceses? Talvez ela tenha ficado à sombra demais de Sartre. Vivia em um meio dominado por homens – e a partir de suas pesquisas, escreveu o Segundo Sexo, em que diz logo que “não se nasce mulher. Torna-se mulher”. Também declara que o homem também tem um papel, aprendido. Não há como ignorar que mulheres do mundo inteiro, mas, em especial, ocidentais, devem muito à Simone de Beauvoir. Independe de se concordar ou não com todas suas escolhas e caminhos que ela percorreu, experimentando a liberdade (ou não?) no seu limite, pagando o preço de sua autoria.

Pode ser que tenha sido só impressão – mas acho que não – de que as experimentações amorosas e sexuais continuam chocantes para grande parte da plateia, mesmo sendo uma elite. Mesmo considerando que já acaba a primeira década do século 21. Portanto, mais de 50 anos depois dos fatos! Sempre me surpreendo como muita gente ouve sobre as guerras sem se chocar tanto como quando ouve sobre sexo…

Ok, muito antes disto, Beauvoir abriu mão de qualquer crença na essência, negando qualquer a priori, assumindo os riscos de suas escolhas, a sua solidão existencial. Com Sartre, pode descortinar muitas possibilidades impensáveis para uma burguesa católica, como ela.


Beauvoir talvez ficasse indignada com a pergunta que fica, revendo em pouco tempo sua trajetória. Mas não posso evitar. Será que a adoração que tinha a Sartre não foi muito mais limitadora para ela do que libertadora? Apegou-se a uma imagem tal que, para ser coerente, abriu mão de projetos seus – inclusive seu desejo por Sartre, que desistiu dela como parceira sexual muito cedo. Numa cumplicidade tal, desistiu de um relacionamento amoroso, nos Estados Unidos, que relata com muita intensidade, pra acompanhar as jornadas intelectuais do filosófo.

Teria sido medo frente ao risco de se lançar em um relacionamento – que poderia vir a ser algo estável?



Ficam então estas perguntas para possíveis interpretações, palpites sobre Beauvoir. Não só sobre seu relacionamento com Sartre, mas também suas colaborações para a vida de todas as mulheres, sejam feministas ou não…

E o amor é lindo…


Depois de ter ouvido vários elogios, finalmente assisti a 500 dias com ela (500 days of Summer), algo que queria ter feito ainda na época do Festival. O filme é bom, mas esperava bem mais.





Ponto forte: os dois personagens de 500 dias vão contra dois grandes estereótipos: 1)TODAS as mulheres querem porque querem compromisso sério, senão surtam (lembra de Ele simplesmente não está a fim de você? Se não lembra, veja o post aqui ) e 2) que os homens evitam SEMPRE qualquer relacionamento mais sério.


Sim, existem muitas mulheres que perseguem um relacionamento a qualquer custo, ignorando sinais amarelos ou vermelhos, indo em frente e atropelando os homens. Mas, pelo que observo, este comportamento feminino é algo localizado. Tem a ver com idade (sim, claro), grau de escolaridade (sim, claro), possivelmente contexto familiar e também moradia. Sem ser preconceituosa, as pressões sociais são muito diferentes, dependendo de onde se viva, o que pode influenciar na tolerância a ficar ou não só. O que o psicólogo Bernardo Jablonski chamou de efeito Rebouças, em relação ao Rio de Janeiro, pode ser ampliado: mulheres cosmopolitas sofrem cobranças diferentes das que mulheres interioranas sofrem. Nas grandes metrópolis, há o anonimato – e com isto outros problemas, claro. 500 dias mostra uma jovem, descolada, que não tem pressa em assumir nenhum compromisso. Aliás, que nem acredita neles.


Conheço muitas mulheres como Summer. E nenhum cara como Tom, o protagonista. Ah, sim, fora o fato de se apaixonar à primeira vista pela mocinha – o que é comum, quando a mocinha em questão é bonita e tem belos olhos azuis. Destes, conheço vários. ;)


Brincadeiras à parte, o que vemos é que Summer racionaliza os sentimentos. Não acredita em paixão, não se preocupa com rótulos, para desespero de Tom, um cara basicamente romântico, que vive de escrever frases para cartões comemorativos. É interessante esta ‘troca’: quando Summer fala, parece um homem (estereotipado). Tom sofre como uma mulher (estereotipada também), querendo segurança e garantia.


Os amigos de Tom são bastante interessantes, apesar de terem sido ‘construídos’ para parecerem problemáticos: um não tem um relacionamento duradouro há muitos anos. O que tem, está junto com a mesma namorada desde muito cedo e o próprio Tom desqualifica, achando que ele não tem ‘experiência’. Não fica clara a relação de amizade entre Tom e a pessoa mais sensata que lhe aconselha e a quem ele ouve atentamente. A dúvida persiste até o fim.



500 dias tem ótimos momentos. Mas, sério, para mim, nada justificaria a cisma de Tom com Summer. Ou sim? Além dos belos olhos azuis dela e da afinidade musical, o que mais? Ok, ela é descolada, não pega no pé – o que é muito atraente para muitos homens.

A seguir, spoiler. Se não viu ainda, não leia.

Apesar de, à primeira vista, Summer não querer relacionamento nenhum, ela se mostra ao final tão igual às demais mulheres do velho estereótipo, lembrando as 4 amigas de Sex and City. Para quem não acompanhou a série, ao longo das várias temporadas, Carrie, Samantha, Charlotte e Miranda experimentavam vários relacionamentos. No final da última temporada, todas terminam com relacionamentos estáveis. Que isto seja uma possibilidade e talvez até sinal de amadurecimento, tudo bem, mas talvez seja improvável estatisticamente todas conseguirem parceiros decentes ao mesmo tempo.

Summer igualmente rendeu-se ao compromisso, selado com um brilhante. Foi muito mais rápida do que se poderia prever a partir da sua fala. Tom fica arrasado ao descobrir isto. Mas não dá pra ter raiva dela. Summer não mentiu, como espectadores sensíveis, empatizando com Tom, podem achar. Desde o início, dizia que não queria rótulos, que achava Tom interessante, mas que não queria ser definida como namorada. Faltou acrescentar um pronome possessivo: não queria ser namorada dele. Summer foi deixando acontecer. Com todo mundo acontece começar um relacionamento sem intenções esperando – ou não – se apaixonar no meio do caminho. Ambos apostaram nisto, mas, enquanto ela não tinha pressa de descobrir nem definir nada, Tom precisava desta confirmação. É interessante ver o desespero dele. Até o 500o dia.

Ao final, ouso dizer que Summer foi muito generosa quando, de certa forma, o procura para dar uma explicação. Ali, o liberta para uma nova tentativa amorosa. Em ‘psicologuês’, ele fechou uma gestalt. Conseguiu visualizar o fim. Esta atitude dela mostrou que já estava mais amadurecida, sabendo o quanto esta conversa poderia libertá-lo. Neste ponto, agiu de forma bastante feminina, com a DR póstuma – muito diferente de uma maioria masculina, que foge ao papo e, com isto, mantém muitas mulheres questionando, por décadas, o que fizeram de errado para o relacionamento ter naufragado.

E para os colegas junguianos, fica a pergunta: estaria Summer dominada pelo animus e Tom dominado pela anima, até um pouco antes do fim do filme?

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Thays Babo  é psicóloga, Mestre em Psicologia Clínica pela Puc-Rio  e atende em Ipanema.

Coco Chanel: um caso de individuação na tela?


O filme Coco antes de Chanel pode ser visto como um caso de individuação clássico, ‘de livro’. Ah, mas do que estou falando mesmo? ‘Traduzindo’, individuação é um dos conceitos centrais na Psicologia Analítica, de Carl G. Jung. O psiquiatra suíço a mencionou pela primeira vez em 1916 e, de forma muitíssimo resumida, o processo de individuação é ‘tornar-se o que se é’. ‘Como assim?’.

A ideia da individuação gera até hoje várias discussões filosóficas. Algumas correntes questionam que seja uma tendência inata, preexistente, propondo que há liberdade total para a pessoa se construir ao longo da vida. Bem, segundo Jung, não nascemos como uma ‘tábula rasa’, totalmente em branco. Apesar de, até o final da vida, não definir se acreditava em múltiplas existências (o que cabe mais, talvez, na proposta da abordagem transpessoal), Jung propôs que, ao nascer, já se receberam registros do mundo exterior, da família, da sociedade, ainda no útero. O inconsciente coletivo, outro conceito junguiano, também exerceria influência no processo de individuação. A concepção inicial de individuação propunha que ela acontecia a partir da meia idade, quando a pessoa não precisava mais lutar para adaptar-se ao meio. Já teria resolvido questões iniciais básicas (teria casado, concluído os estudos, conseguido se emancipar dos pais e ter seu espaço). Adaptada, poderia ir em busca de si mesma, do que deixou pra trás, adiado. Seria uma urgência de se autorrealizar. Alguns pós-junguianos questionam que o processo se dê tardiamente, contra argumentando que já acontece na infância. Levando em consideração que o mundo mudou muito desde a morte de Jung, em 1961, nada mais natural que suas teorias sejam revistas. Talvez o timing para amadurecer seja outro totalmente diferente.

Mas, por que o filme me remeteu a este processo de individuação? Mesmo com um início de vida bem difícil, contrariando algumas teorias psicológicas, Gabrielle Chanel não se restringe ao seu ambiente inicial. Juntamente com sua irmã, foi deixada em um orfanato, quando bem pequena, após a morte da mãe. Seu pai não mais voltou para visitá-las. Seus talentos foram desenvolvidos a partir de um ambiente sombrio. Não ficou na lamentação (pelo menos, se ficou, não se vê no filme, aí teria de ir em busca das biografias…). Bem antes de atingir a meia idade, a vemos enfrentando condições adversas, não se acomodando, criando. “Individuando-se”.



Coco ousou, foi à frente do seu tempo. Frente a dificuldades materiais e barreiras impostas, reagiu com a criatividade. Ela aplicou a expressão ’se te derem um limão, faça uma limonada’. Mas seu processo, pelo que se testemunha ao longo do filme, parece totalmente espontâneo, natural, não tendo sido induzido ou estimulado por uma análise (uma das formas possíveis de auxiliar a individuação). Talvez, quem sabe, pela literatura, algo a que ela dedicava horas de lazer. Ou pelo Self. Ela amadurece, cresce, cria, expande-se além da Europa.

Um pedido a quem tiver maiores detalhes biográficos: partilhe aqui – e pode corrigir alguma ideia que tenha vindo erradamente do filme… ;)

Há críticas ao tom comercial do filme, como se fosse um merchandising da Maison. Não chegou a me incomodar; pra mim era até esperado algo do tipo. O mérito principal foi mostrar que, mais do que uma estilista, Gabrielle Chanel foi uma revolucionária.

O filme não retrata toda a vida de Coco e há críticas negativas por ter deixado de fora um período delicado: na época da II Guerra, Chanel se envolve com um oficial nazista. Fechou a Maison, foi para a Suíça e, ao voltar para a França, já não teve tão boa aceitação. Mas, graças ao prêt-à-porter, conseguiu se manter. Esta passagem de sua vida gera ataques – não a seu trabalho, que permanece incontestável. Surpreendi-me com a menção ao nome de Chanel como uma cortesã em um livro, devido aos relacionamentos amorosos que manteve ao longo da vida. No filme, só dois foram retratados: o que viveu com Etienne Balsan e com Boy. Ambos influenciaram seu estilo, em alguns momentos bastante andrógino, criado a partir da necessidade de recorrer ao closet dos amantes para se vestir. E foi Boy que ajudou, inicialmente, com capital.



Mmle. Chanel revolucionou não só o guarda-roupa como também o comportamento sexual das mulheres, podendo recusar casar em uma época em que o casamento era cobrado das mulheres. Mais um pouquinho da vida dela aparece em outro filme francês, que ainda vai estrear no Brasil, sobre o relacionamento affair com Igor Stravinsky – mas já foi exibido também no Festival, em outubro de 2009. Decididamente, Gabrielle Chanel abriu caminho para muitas mulheres, com uma vida amorosa bastante agitada, pelo que tem sido ventilado. Não podemos esquecer que ela foi contemporânea de Jung e ousou mesmo no início do século 20. Por estas e outras, mesmo quem não é fashionista, pode gostar do filme.

Como este não é um texto acadêmico, paro por aqui, esperando a opinião de vocês – discordando inclusive. E, aos junguianos, deixo uma pergunta: se Chanel tivesse sido analisada por Jung, será que ele diria que ela era possuída pelo animus? ;)

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Thays Babo é psicóloga e Mestre em Psicologia Clínica pela Puc-Rio. Atende em Ipanema.

50 anos de feminismo: foi muito barulho por nada?

O feminismo completa 50 anos, já sofreu críticas e revisões, mas confesso que ainda me surpreendo ao ouvir alguém usando o termo como algo desagradável, pejorativo, em relação ao movimento. Fico quase catatônica quando o deboche vem de uma mulher. Já perdi as contas de quantas vezes me mandaram um e-mail escrito por uma destas, queixosa, que diz que gostaria de viver no tempo da mãe dela e não ter de sair pra trabalhar. Tudo o que ela queria era ficar em casa, cuidar dos filhos, fazer bolo. Bem, nem me lembro exatamente do que ela diz que sente falta. Fico tão mal humorada que respondo a quem me manda que “Deus me livre!!!” levar uma vida igual à da minha mãe, minhas avós ou bisavós.

Mas, talvez minha reação seja exagerada. Talvez a vida doméstica não seja tão ruim assim. Repensando ‘alto’, minha indignação se dá porque o poder de escolha das mulheres hoje foi o que de melhor as feministas nos deram. O preço que se paga pela liberdade de escolha diminuiu. Finalmente, depois de séculos, se admitiu que a mulher tem alma, que a mulher tem direito à educação, que pode votar, que tem direito a orgasmo – sem ser queimada na fogueira ou tachada de prostituta, dentre várias outras conquistas … As perguntas que se apresentam para as mulheres de hoje são: ‘Que vida você quer ter? Quer ser dona de casa e só viver para marido e filhos?’ Ótimo. ‘Quer ser executiva, assoberbada, ter tripla jornada?’ Ótimo, também, se esta é a sua escolha, feita baseada no que você quer e acredita que seja bom, justo, saudável. (ah, se você não sabe realmente o que quer, ou prefere não escolher, o caso é grave… A melhor saída – ou mais saudável – é a psicoterapia…). Escolher por pressão – dos amigos, da família, do trabalho – nunca garantiu felicidade, em época alguma, ainda que traga estabilidade aparente. Ah, e esperar que a vida em família seja igual a dos comerciais de margarina também pode ser um pouco frustrante… :)

O movimento feminista não trouxe benefícios apenas às mulheres. Os homens conquistaram muito, apesar de nem todos reconhecerem. Se, por um lado, perderam um pouco o espaço no mercado de trabalho, ‘adquiriram’ o direito de serem sensíveis, podendo chorar, sem serem julgados ou questionados em sua virilidade (ah, claro, pra isto tem de procurar a parceira certa, feminista também. Conheço algumas que ficam chocadas frente à fragilidade masculina…).



O horror ao termo ‘feminismo’ provavelmente vem da acusação de que as mulheres deixaram de ser femininas. Talvez sim, talvez algumas. Mas dava para ser mais específico? O que é ’ser feminina’? É ser passiva, aceitadora, doméstica, ‘domiciliada’? Respostas para o blog. Ah, e a opinião dos homens, feministas ou não, é muito bem vinda! Não temam choros descontrolados, a gente já passou desta fase. Ou não?

Mas o tópico não é um ode ao feminismo. Rompi meu silêncio um tanto tardiamente frente à constatação de que não avançamos muito, aqui no Brasil. A gente até achava que já estava com um pé no futuro, graças às novas tecnologias, cibercultura, mudanças sociais,achando mesmo que tinham surgido um novo homem e uma nova mulher, quando a notícia de que uma estudante tinha sido expulsa de uma Universidade por estar com roupa ‘inadequada’ nos sacode. Peraí, onde estamos? É uma Nova Inquisição? Mas não estamos em 2009? E isto foi em uma cidade????

Resumindo o caso, exaustivamente debatido pela mídia: uma famigerada universidade, no estado de São Paulo, expulsou uma estudante. Diante da reação pública (e governamental), voltou atrás. O motivo da expulsão? O tumulto causado pelos alunos, arruaceiros, que a xingaram de ‘puta’ pelos seus trajes. Mas peraí, quem foi expulsa foi a aluna? Sim, afinal, ela estava desrespeitando os códigos de vestir-se adequadamente. Mesmo tendo retrocedido, depois de ocorrido o fato e tamanha polêmica, não tem como ignorar que em algum lugar dito ‘civilizado’, em 2009, uma barbárie foi cometida por universitários. Mesmo sem a expulsão, já haveria lugar para um debate caloroso sobre sistema de ensino, vestibular, autorização para funcionamento de instituições de nível superior etc etc. Não resultou em morte, pelo menos não física mas, e os danos causados a ela?

Como o povo brasileiro é piadista, se encontra muito comentário online do tipo engraçadinho. Cariocas já falaram que isto é coisa de paulista, já convidaram pra migrar pro Rio. E já se ‘posta’ por aí que em breve vai surgir um convite pra Playboy, que a jovem vai desfrutar seus 15 minutos de fama. Bem que pode ser, dado o oportunismo da mídia.

Mas, tentando refletir um pouco, sobre a sociedade hoje, o que temos de encarar? Que sombra é esta? Por que o que foge à regra ainda tem de ser linchado (ainda que ‘apenas’ simbolicamente?)

Uma famosa estilista brasileira declarou que, nada justifica, mas a estudante errou no ‘dress code‘. Ora, ora, não estaria esta fala amenizando a responsabilidade dos que a atacaram? Pesquisando para este post, deparo-me com a notícia de que Mary Quant, criadora da minissaia, completou 75 anos em 2009. E foi homenageada com um selo no Reino Unido, que estampo aqui, numa homenagem de agradecimento! Pelo menos nisto o mundo melhorou…



No programa Saia Justa, exibido em 11 de novembro, pelo GNT, a jornalista Monica Waldvogel comentou que, nos anos 60, os homens aplaudiriam as mulheres que ousassem ir de pernas de fora a faculdade. Nisto então a sociedade parece ter retrocedido, no seu lidar com o desejo. Tais atitudes sempre geram suposições de que homens assim têm desejo homossexual e que por isto teriam hostilizado a moça mas, pra mim, sinceramente, é um pensamento bastante redutivo. Uma outra poderia ser também a frustração de ter se controlar frente ao que se deseja, para parecer civilizado. Então, desqualificando o ‘objeto de desejo’, ele fica menos desejável? Ou será tudo isto muito localizado?

Sem respostas prontas, com muito questionamentos, esperando respostas ou provocações…

A cultura do terror

Totalmente ao acaso, abri hoje um livro que tenho há anos, chamado O livro dos abraços, do Eduardo Galeano. Achei algumas pérolas nele, algumas, de dor. Deixo uma para reflexão individual:

A CULTURA DO TERROR

A extorsão,
o insulto,
a ameaça,
o cascudo,
a bofetada,
a surra,
o açoite,
o quarto escuro,
a ducha gelada,
o jejum obrigatório,
a comida obrigatória,
a proibição de sair,
a proibição de se dizer o que se pensa
a proibição de se fazer o que se sente,
e a humilhação pública
são alguns dos métodos de penitência e tortura tradicionais na vida da família. Para castigo à desobediêcia e exemplo de liberdade, a tradição familiar perpetua uma cultura do terror que humilha a mulher, ensina os filhos a mentir e contagia tudo com a peste do medo.
- Os direitos humanos deveriam começar em casa – comenta comingo, no Chile, Andrés Domínguez.


Galeano, E. O livro dos abraços. Porto Alegre: L&PM, 1991. p. 141




Enfim, pais e mães, mestres, repensemos nossa responsabilidade nas nossas relações, nas quais exercemos poder – e como.