Archive for January, 2010

Aterrissar ou arremeter?

Decididamente, quem decide a tradução dos títulos dos filmes no Brasil não é movido pelo amor à arte. O que conta é o amor à bilheteria. Exemplo recente é o filme Up in the Air, batizado como Amor sem escalas, estrelado por George Clooney. Convenhamos, a combinação título-astro tem tudo para render muito reais para os exibidores. Mas, se atrai hordas de mulheres, em busca de cenas românticas com o ator, deixa de fora do cinema homens e mulheres racionais, que não apostariam neste título, achando que é mais um filme ‘mulherzinha’, chick flick, de final feliz.



Para isto também contribui o trailer , que engana bem o público. Guardando a surpresa do filme (o que é bom), caprichou-se demais na seleção de cenas bem humoradas ou sexies – que não são sua real proposta. E as resenhas por aí focam na quantidade de milhas que o protagonista, Ryan Bingham, quer acumular – sem que isto seja a principal questão. (Como sabem, apesar de publicitária, sou idealista. Fiquei incomodada com o merchandising agressivo da empresa aérea, da locadora de automóveis e da rede de hoteis – que viabilizam a produção. Na minha visão romântica da arte, empresas fictícias seriam mais simpáticas ao espectador. Felizmente Hollywood não precisa da minha opinião para sobreviver. ) ;)


Então, não vá pensando que é mais uma comédia romântica bobinha, se não você vai se desiludir. Decepcionar é improvável, mas, dependendo da sua idade, do seu estado civil e profissional, você pode sentir um incômodo com as questões que Ryan Bingham enfrenta – a contragosto, não por escolha.



(Descobri pelo menos mais um trailer (para DVDs?), um pouco mais fiel ao incômodo despertado. Mas não foi este o que vi exaustivamente veiculado fora da internet. Após assisti-lo, decida se quer continuar na nossa viagem psicológica.) Não posso evitar falar do fechamento da história de Ryan, portanto, só continue a leitura após o trailer se quiser conhecer as milhas que nosso herói percorrerá. Sras. e Srs. Passageiros, com destino a si mesmos, boa viagem. :)



Ok, já que decidiu continuar a leitura, aperte o cinto…

Ryan Bingham tem um papel que a maioria consideraria indigesto: como consultor, viaja por todo o EUA para anunciar olho no olho a demissão, quando a chefia não tem coragem para tanto. Após a crise de 2008, trabalho é o que não falta e, além da experiência, Ryan acumula muitas milhas de viagem e privilégios dos programas de fidelidade. Ironicamente, não precisa manter fidelidade a nenhuma ‘pessoa física’ já que ninguém, em terra, o espera. Seu apartamento lembra mais um apart-hotel impessoal.

Um dia, seu chefe anuncia que adotarão uma nova política na empresa, fazendo os desligamentos de pessoal via web. As viagens serão canceladas e com isto poderão ter suas rotinas de volta. Tudo isto graças a ideia de uma jovem funcionária recém-formada, Natalie Keener, que conseguiu convencer a empresa dos benefícios da mudança, mostrando a enorme redução de custos.

O que seria motivo de alegria para seus companheiros de empresa, faz Ryan se desesperar. Além de todos os privilégios que perderá – inclusive a pontuação que pretende atingir, para ser um dos happy few da companhia aérea em questão -, para quem ele voltará? A ideia da possibilidade de, enfim, ter relacionamentos pessoais próximos, diários, não lhe serve como atrativo. Contesta o chefe, argumentando que o segredo do negócio é o toque humanista do encontro face a face. Ryan faz simulações com Natalie para provar ao chefe o quanto ela é despreparada – e ressaltar a sua própria expertise.

Percebendo que em alguns pontos Ryan tem mesmo razão, o chefe ordena que ele leve Natalie nas próximas viagens para treiná-la. Não era o que Ryan esperava, mas tem de aceitar a missão – caso contrário seria o olho da rua. Ao invés de desistir rapidamente, Natalie vai amadurecendo e ganhando projeção na empresa – o que é uma ameaça direta ao experiente Ryan.

Pouco antes das viagens com Natalie, Ryan conhece Alex. Não é só o nome desta mulher que é nada feminino. Sua postura está bem distante do que se diz da feminilidade arquetípica. Sexualmente agressiva, ela mesma se define como uma versão Ryan com vagina. Alex tem uma rotina de vida muito parecida com Ryan, de aeroporto em aeroporto, o que faz com que seus encontros tenham de ser agendados em função dos seus planos de voo. De certa forma, é tudo muito conveniente à filosofia de vida de Ryan. Porém, as conjunturas mudam no trabalho de Ryan.

As mudanças apontam cada vez mais para o envelhecimento e trazem a possibilidade de desemprego e a solidão. Ryan é o indivíduo modelo que, cedo ou tarde, percebe que defesas nem sempre são eficazes contra o passar do tempo. Dá-se conta que talvez esteja no momento de aterrissar e, para isto, elege Alex como co-piloto, sem avisá-la. Aí está o que, pra mim, é a grande surpresa do filme – e que frustra boa parte do público – Ryan descobre que não existe terra firme. As escolhas que terá de fazer serão para si mesmo.

Para alguns críticos o filme é piegas. Como psicóloga, não o vejo como um filme de amor: ele fala de escolhas e do preço que se paga por elas. Pode incomodar a quem espera um sinalizador em terra firme. O confronto do jovem com o velho – puer x senex – do contato Ryan x Natalie é provocador. Como em uma reação química (ou alquímica?), os dois já não serão mais os mesmos depois das viagens que fizeram juntos. Estas mudanças, que alteram o norte de Ryan, acontecem na vida de todos. Rapidamente têm impacto no mundo do trabalho, não só nos EUA como nos demais países industrializados. Por mais especialista ou experiente que alguém seja, por redução de custos, torna-se descartável. Profissões desaparecem. A fala dos demitidos mostra a angústia que pessoas demitidas enfrentam – e quantos de nós ou próximos a nós já passamos por isto?

Há ainda outro foco de discussão, além das questões existenciais de envelhecimento, solidão e morte: as mulheres. Para isto, precisa-se desviar o olhar de George Clooney, digo, de Ryan. As mulheres do filme são a cara da nossa época. Todas encontram-se frente a desafios. Há dois eixos principais: as executivas e as que optam por uma vida mais provinciana – no caso, as duas irmãs de Ryan, que ele encontra muito raramente e com quem não tem muito o que falar.

Natalie e Alex, executivas, parecem sacrificar a feminilidade para serem bem sucedidas, encarnando o estereótipo da mulher executiva, endurecida, ainda que usando saias. Ao longo do filme, ambas revelam o lado romântico e emocional, tradicionalmente atribuído à mulher. Natalie, mais uma vez, como representante jovem, faz um contra-ponto à Alex, com sua lista de exigências em relação ao que espera de um parceiro. A resposta madura de Alex lembrou uma piada que rola na internet ( como a piada tem um final meio chulo, não vou repetir aqui.) . Ao final, Alex se revela na vida real, longe das salas de espera de aeroportos, muito parecida com o que muitos homens foram, por séculos. Gostaria de fazer uma pesquisa com os espectadores acerca de Alex. Pelas reações que ouvi, nem homens nem tampouco as mulheres conseguem perdoar ou tentar entender em Alex o mesmo que se perdoou ao homem, por séculos. Ao mesmo tempo, como psi, consigo até entender porque ela não percebeu que nem tudo estava sob controle e que o rumo das coisas poderia mudar de repente, com um vento ascendente.

Num extremo oposto, estão as irmãs de Ryan – uma acaba de separar e repensa sua escolha; outra, na beira do altar, sem coragem de pensar muito sobre o assunto. Ambas com estilos de vida mais pacatos mas não por isto menos encalacradas e angustiadas.

Para finalizar, voltemos a Ryan com suas escolhas. O que fazer? Prosseguir com sua vidinha, mantendo-se nas mesmas rotas ou mudar? Cabe a ele decidir permanecer nas alturas, com turbulências mas eventualmente “céu de brigadeiro”, ou aterrissar. Sua escolha não fica clara para o público. Fica, como a vida, em aberto.

2009 no sofá

Não abandonei o blog, nem estou de férias, muito pelo contrário… Vim só dar um oi e desejar um ótimo findi e anunciar que o próximo post deve ser sobre a retrospectiva dos dvds que assisti em 2009. Nem todos de safra recente, vi alguns clássicos de Bergman, produções argentinas etc.

Quando sobrar um tempinho e acabar o levantamento, volto.

2009 no cinema



Em geral, as pessoas fazem a retrospectiva antes de terminar o ano… Mas só agora consegui fazer o levantamento de todos os filmes a que assisti em 2009 – no cinema. Esta é uma das vantagens de morar no Rio: na região em que moro disponho de várias salas de exibição. E, por mais que o barulhinho da pipoca do vizinho incomode (sério, um amigo suíço, quando morou nos Estados Unidos, não ia ao cinema por causa do barulho e cheiro desta mania americana importada para nós), prefiro sentir a reação do público à comodidade de ver em casa. Depois, se for o caso e o filme merecer, pode ser visto, revisto e decorado no DVD. Em breve, Blue-Ray.

A seguir, a minha lista. Vários destes filmes eu já comentei ao longo do ano passado aqui no blog, basta dar uma busca. Alguns dispõem até de trailer. Em itálico, os meus Top Five, com uma certa dó por ter deixado alguns de fora…

  • Queime depois de ler
    O curioso caso de Benjamin Button
    Foi apenas um sonho
    O leitor

    Dúvida
    Quem quer ser um milionário?
    Noivas em guerra (concessão de carnaval, pra minha filha)
    Milk
    Simplesmente feliz (bomba do ano pra mim)
    Delírios de consumo de Becky Bloom (outra concessão para ela, mas o pior foi constatar que não é tão ruim assim)
    A mulher invisível (BRA)
    Minhas adoráveis ex-namoradas
    Apenas o fim (BRA)
    Ele não está tão a fim de você
    A verdade nua e crua (não sei se nesta ordem, lembrei ao acaso, era mais um chick flick)
    Desejo e perigo (muito bom, mas não coube no Top 5)
    Paris
    Caramelo (também muito bom, mas sobrou)
    Se beber, não case (é, a vida é feita de concessões :) )
    Horas de Verão
    A Partida

    Up (maldade deixar esta tocante animação de fora)
    Amantes
    O dia da saia (também merece aplausos, emociona. Entrará no circuito no Brasil?)
    Turistas (só não é pior do que “Simplesmente feliz”)
    Coco antes de Chanel
    À deriva (BRA)
    500 dias com ela
    Abraços Partidos
    Julie & Julia
    Um namorado para minha esposa
    Nova Iorque, eu te amo

Ainda não listei os que vi em DVD; alguns são preciosidades clássicas. Como os de Bergman – aliás, encarei uma maratona de 5 horas de Cenas de um Casamento, no Natal. Eu amei. Mas tem gente que dormiria no primeiro episódio. Ainda escrevo sobre ele, anotei várias frases inspiradoras! :)

E então? Destes, quais você viu? Qual ou quais você destaca?
O que faltou na minha lista?

Agora vou ficar atenta às estreias que a proximidade do Globo de Ouro e o Oscar propiciam. Sugira também! Até a próxima postagem

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Thays Babo é psicóloga e Mestre em Psicologia Clínica, pela Puc-Rio e atende em Ipanema.