E o amor é lindo…


Depois de ter ouvido vários elogios, finalmente assisti a 500 dias com ela (500 days of Summer), algo que queria ter feito ainda na época do Festival. O filme é bom, mas esperava bem mais.





Ponto forte: os dois personagens de 500 dias vão contra dois grandes estereótipos: 1)TODAS as mulheres querem porque querem compromisso sério, senão surtam (lembra de Ele simplesmente não está a fim de você? Se não lembra, veja o post aqui ) e 2) que os homens evitam SEMPRE qualquer relacionamento mais sério.


Sim, existem muitas mulheres que perseguem um relacionamento a qualquer custo, ignorando sinais amarelos ou vermelhos, indo em frente e atropelando os homens. Mas, pelo que observo, este comportamento feminino é algo localizado. Tem a ver com idade (sim, claro), grau de escolaridade (sim, claro), possivelmente contexto familiar e também moradia. Sem ser preconceituosa, as pressões sociais são muito diferentes, dependendo de onde se viva, o que pode influenciar na tolerância a ficar ou não só. O que o psicólogo Bernardo Jablonski chamou de efeito Rebouças, em relação ao Rio de Janeiro, pode ser ampliado: mulheres cosmopolitas sofrem cobranças diferentes das que mulheres interioranas sofrem. Nas grandes metrópolis, há o anonimato – e com isto outros problemas, claro. 500 dias mostra uma jovem, descolada, que não tem pressa em assumir nenhum compromisso. Aliás, que nem acredita neles.


Conheço muitas mulheres como Summer. E nenhum cara como Tom, o protagonista. Ah, sim, fora o fato de se apaixonar à primeira vista pela mocinha – o que é comum, quando a mocinha em questão é bonita e tem belos olhos azuis. Destes, conheço vários. ;)


Brincadeiras à parte, o que vemos é que Summer racionaliza os sentimentos. Não acredita em paixão, não se preocupa com rótulos, para desespero de Tom, um cara basicamente romântico, que vive de escrever frases para cartões comemorativos. É interessante esta ‘troca’: quando Summer fala, parece um homem (estereotipado). Tom sofre como uma mulher (estereotipada também), querendo segurança e garantia.


Os amigos de Tom são bastante interessantes, apesar de terem sido ‘construídos’ para parecerem problemáticos: um não tem um relacionamento duradouro há muitos anos. O que tem, está junto com a mesma namorada desde muito cedo e o próprio Tom desqualifica, achando que ele não tem ‘experiência’. Não fica clara a relação de amizade entre Tom e a pessoa mais sensata que lhe aconselha e a quem ele ouve atentamente. A dúvida persiste até o fim.



500 dias tem ótimos momentos. Mas, sério, para mim, nada justificaria a cisma de Tom com Summer. Ou sim? Além dos belos olhos azuis dela e da afinidade musical, o que mais? Ok, ela é descolada, não pega no pé – o que é muito atraente para muitos homens.

A seguir, spoiler. Se não viu ainda, não leia.

Apesar de, à primeira vista, Summer não querer relacionamento nenhum, ela se mostra ao final tão igual às demais mulheres do velho estereótipo, lembrando as 4 amigas de Sex and City. Para quem não acompanhou a série, ao longo das várias temporadas, Carrie, Samantha, Charlotte e Miranda experimentavam vários relacionamentos. No final da última temporada, todas terminam com relacionamentos estáveis. Que isto seja uma possibilidade e talvez até sinal de amadurecimento, tudo bem, mas talvez seja improvável estatisticamente todas conseguirem parceiros decentes ao mesmo tempo.

Summer igualmente rendeu-se ao compromisso, selado com um brilhante. Foi muito mais rápida do que se poderia prever a partir da sua fala. Tom fica arrasado ao descobrir isto. Mas não dá pra ter raiva dela. Summer não mentiu, como espectadores sensíveis, empatizando com Tom, podem achar. Desde o início, dizia que não queria rótulos, que achava Tom interessante, mas que não queria ser definida como namorada. Faltou acrescentar um pronome possessivo: não queria ser namorada dele. Summer foi deixando acontecer. Com todo mundo acontece começar um relacionamento sem intenções esperando – ou não – se apaixonar no meio do caminho. Ambos apostaram nisto, mas, enquanto ela não tinha pressa de descobrir nem definir nada, Tom precisava desta confirmação. É interessante ver o desespero dele. Até o 500o dia.

Ao final, ouso dizer que Summer foi muito generosa quando, de certa forma, o procura para dar uma explicação. Ali, o liberta para uma nova tentativa amorosa. Em ‘psicologuês’, ele fechou uma gestalt. Conseguiu visualizar o fim. Esta atitude dela mostrou que já estava mais amadurecida, sabendo o quanto esta conversa poderia libertá-lo. Neste ponto, agiu de forma bastante feminina, com a DR póstuma – muito diferente de uma maioria masculina, que foge ao papo e, com isto, mantém muitas mulheres questionando, por décadas, o que fizeram de errado para o relacionamento ter naufragado.

E para os colegas junguianos, fica a pergunta: estaria Summer dominada pelo animus e Tom dominado pela anima, até um pouco antes do fim do filme?

———-
Thays Babo  é psicóloga, Mestre em Psicologia Clínica pela Puc-Rio  e atende em Ipanema.

Leave a Reply