Casais em Crise (de criatividade)

O cinema argentino tem me sido muito bem recomendado e aproveitei o final de um domingo para poder me redimir da minha falta de conhecimento a respeito. Ao ler a resenha de Um namorado para minha esposa, filme argentino, não pensei duas vezes: desliguei o computador e fui pro cinema, em busca do riso, necessário nesta época de final de ano em um Rio insuportavelmente quente e engarrafado. Ah, a imagem abaixo não diz tudo… ;)



Como estava atrasada para a última sessão, prestei atenção apenas ao início da crítica e só descobri o lado ‘dramático’ já instalada na poltrona do cinema, depois de um tempinho de projeção. (Será um cacoete psi, ver sofrimento, ainda que disfarçado, enquanto as pessoas só dão gargalhadas? Pode ser…) Mesmo brincando, o trailer enuncia uma grande ‘verdade’: “O casamento é a principal causa de divórcio“. Nem precisa ser pessimista pra dizer que é impossível um filme sobre relacionamentos amorosos sem uma dose de drama, não é mesmo? Mas Um namorado pra minha esposa é basicamente cômico, sim, não se derrama uma lágrima ao assisti-lo – sem contar possíveis pessoas com a sensibilidade à flor da pele, em pleno processo de separação.

Ah, uma vez mais eu sugiro que não veja o trailer antes de assistir ao filme – contém vários spoilers



A vida pode ser vista como um drama ou como uma comédia, já dizia Woody Allen em Melinda, Melinda. Se a arte imita a vida (ou bem ao contrário), pode-se também assistir a comédias e encontrar conteúdo dramático. “Tenso” e Tana Ferro são casados. Ele vive infeliz com o jeito de sua mulher, que não pára de reclamar, desde que acorda, fuma feito uma louca, não faz nada o dia inteiro. E, pior, detesta os amigos dele, constrangendo-o até não poder mais. Nos primeiros minutos de projeção, a simpatia vai toda para “Tenso”. A gente se pergunta como ele pode escolher alguém assim e não entende como lhe falta coragem de pedir para separar. Seus amigos dão uma força, dizendo que é a única saída e até ensaiam a fala com ele. :D

Até que um apresenta a louca ideia de contratar um famoso sedutor, partindo da premissa que ela também não resistirá e tomará a iniciativa de deixar Tenso, deixando-o livre e sem culpa. Isto já seria um bom motivo para terapia, concordam? ;)

Justiça seja feita: me identifiquei em muitos momentos com a irritação de Tana, a quem a mediocridade humana tirava do sério. Apesar do seu jeito reclamão ser excessivo, nada do que reclamava era descabido – só demonstrava uma falta de traquejo social. Ou talvez um transtorno de humor, leve… que deve ter causado empatia em parte do público, aposto.

Fiquei com uma curiosidade: a escolha dos nomes dos protagonistas teria sido casual? Diego Polsky seria Tenso por ter casado com uma “Ferro”? Mas, todos deveriam saber que o ferro, se aquecido, se molda. E é isto que vamos vendo ao longo do filme, com a transformação de Tana. Diego, coitado, era muito boa gente (com ressalvas, rsrsrs) mas não tinha noção de quem era a mulher com quem se casara. E, não, não é nada disto que você está pensando. Bem, os nomes podem ter sido apenas uma coincidência, daquelas que irritariam a protagonista. (Aliás, apesar de ter me identificado em alguns pontos, não compartilho da ojeriza dela quanto à astrologia – apenas com as pessoas que conhecem muito pouco e citam a esmo).


Diego fica surpreso com a auto-confiança de Cuervo Flores, o sedutor – inacreditável, diga-se de passagem. Quer controlar a situação, mas tem de ceder à constatação de que Tana vai se transformando a partir da aparição do sedutor. Quer dizer, é o que parece durante boa parte do filme.


Na terapia de casal, fica claro que ambos viam a relação de forma totalmente diferente – o que é , aliás, bem comum em casais em crise, em que um dos dois quer (ou diz que quer) a separação e o outro não. Apesar de argentina, esta comédia romântica não fugiu ao final feliz dos filmes holliwoodyanos. Nada tão grave que seja contra-indicativo de conferir, na tela ou na telinha, quando estiver disponível em uma locadora perto de você.

_________________
Thays Babo é psicóloga e Mestre em Psicologia Clínica, pela Puc-Rio e atende em Ipanema.

Leave a Reply