Decididamente, quem decide a tradução dos títulos dos filmes no Brasil não é movido pelo amor à arte. O que conta é o amor à bilheteria. Exemplo recente é o filme Up in the Air, batizado como Amor sem escalas, estrelado por George Clooney. Convenhamos, a combinação título-astro tem tudo para render muito reais para os exibidores. Mas, se atrai hordas de mulheres, em busca de cenas românticas com o ator, deixa de fora do cinema homens e mulheres racionais, que não apostariam neste título, achando que é mais um filme ‘mulherzinha’, chick flick, de final feliz.
Para isto também contribui o trailer , que engana bem o público. Guardando a surpresa do filme (o que é bom), caprichou-se demais na seleção de cenas bem humoradas ou sexies – que não são sua real proposta. E as resenhas por aí focam na quantidade de milhas que o protagonista, Ryan Bingham, quer acumular – sem que isto seja a principal questão. (Como sabem, apesar de publicitária, sou idealista. Fiquei incomodada com o merchandising agressivo da empresa aérea, da locadora de automóveis e da rede de hoteis – que viabilizam a produção. Na minha visão romântica da arte, empresas fictícias seriam mais simpáticas ao espectador. Felizmente Hollywood não precisa da minha opinião para sobreviver. )
Então, não vá pensando que é mais uma comédia romântica bobinha, se não você vai se desiludir. Decepcionar é improvável, mas, dependendo da sua idade, do seu estado civil e profissional, você pode sentir um incômodo com as questões que Ryan Bingham enfrenta – a contragosto, não por escolha.
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on Sunday, January 24th, 2010 at 12:08 and is filed under Posts da Thays.
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Muito bons os seus comentários sobre o filme. Você é psicóloga? Entendeu o filme de maneira brilhante e adorei a sua descrição do final. “Ryan descobre que não há terra firme” é muito bom. E realmente. As escolhas que precisa fazer são para si mesmo. Achei o filme demais.
Oi, Ciro!
sim, sou psicóloga… Não conheço ninguém que tenha desgostado do filme até agora. Ah, excluindo as ’senhorinhas’ e ‘mocinhas’ que foram ao cinema esperando uma comédia romântica com George Clooney. Mas quem gosta de reflexão se supreendeu positivamente.
Obrigada pelo comentário!
bjs
Up in the air sim porque, vc tem toda a razao, o titulo Amor sem escalas eh suspeito. Se a ideia era atrair um determinado tipo de publico, deram um tiro no peh. Ainda no cinema, observei algumas mulheres que saíam reclamando. No meu facebook, uma amiga escreveu um status mencionando a “chatice” do filme. Claro. Houve uma total frustração de expectativas.
O filme me fez pensar muito, mas vi ali, em especial, uma séria questao de genero. A ele interessava o poder simbolizado por cartoes preferenciais, privilegios em hoteis, e as tais milhas que ele tanto planejou mais pareciam outra demonstraçao de poder. As milhas me lembraram a visao de Baudrillard sobre coleçoes. O colecionador (e ele era um colecionador de voos) age com paixao, pois a coleçao lhe confere um poder especial. Quando ele “acha” que encontrou uma mulher que pensa como ele, dah com os burros n’agua. Ela eh fake. Na verdade, ela, como as outras mulheres do filme (as irmãs, a funcionária nova) tem em seus relacionamentos a sua maior prioridade na vida, ainda que Alex buscasse uma fuga do tédio à la Madame Bovary. A funcionaria nova soh entrou na empresa dele porque seguiu o “amor da sua vida”. Quando ela descobre que o tal “amor da sua vida” nao a ama de verdade, ela se sente livre para buscar outro caminho profissional. Ficou a duvida. Sera que ela se trasformarah num Ryan de saias? Nao creio. Apostaria num novo investimento amoroso no medio prazo.
Uma outra linha de pensamento interessante provocada no filme eh a questao do trabalho. Alguem diz no filme que a dor da demissao do emprego equivale a uma morte na familia. Mas ele, o demitido, se sentia como ele proprio houvesse morrido. O trabalho do personagem de Clooney era quase que o de um medico que deveria dar uma noticia ruim aos familiares do seu paciente. Como fazer isso atraves da video conferencia? A cultura norte americana que tende a mercantilizar tudo parece encontrar um limite. (serah???). Talvez nao seja mesmo possivel mercantilizar qualquer tipo de serviço. E esse era, para mim, o maior paradoxo do filme. O personagem de Clooney sabia da importancia dos relacionamentos, mas preferia a zona de conforto que o seu trabalho lhe proporcionava, e, claro, o poder. Entra a questao que todas nos fazemos sempre: medo da perda? Medo de se relacionar seriamente? Medo da rotina? Medo de perder o poder? Aí, jah eh um territorio seu.
Uau, Solange, muito bom o que você levantou… Acho que você vai ter de abrir uma seção no seu blog para analisar filmes, hein?
Quando ao bovarismo da Alex, é quase isto… fuga ao tédio, busca por um parêntesis. Mas a Bovary do livro se iludia, achava que viria princípe encantado. Nos dias de hoje, a Alex era tão prática que nem isto esperava. E até se surpreende quando ele bate à porta. Não dá também pra comparar com o tédio da Belle du Jour, que não tinha vida profissional, vivia em função do marido e não queria substitui-lo. Acho que Alex inaugura um tipo novo de heroína. Na verdade, uma heroína que não agradou à maioria das espectadoras… rsrsrs
Bom ponto. Essa mulher continua entediada, mas menos romantica (diferente de Bovary) … Já se deu conta de que o principe nao existe (preciso ver de novo para lembrar o que ela disse para a menina, consolando-a quando o namorado dá o fora nela).
E nisso vc tem razao – aquela eh uma cena-chave do filme. Acho que muita gente achou, naquela hora, que ela fosse se surpreender e abraçá-lo e que “viveriam felizes para sempre”. Acho que foi aí a melhor parte do filme! Houve um choque de realidade que as Madames Bovarys de plantao tiveram dificuldade de assimilar… soh lhes restou praguejar no cinema…hehehehehe!
Bj.
January 28th, 2010 at 23:14
Muito bons os seus comentários sobre o filme. Você é psicóloga? Entendeu o filme de maneira brilhante e adorei a sua descrição do final. “Ryan descobre que não há terra firme” é muito bom. E realmente. As escolhas que precisa fazer são para si mesmo. Achei o filme demais.
Beijos!
January 29th, 2010 at 06:47
Oi, Ciro!
sim, sou psicóloga… Não conheço ninguém que tenha desgostado do filme até agora. Ah, excluindo as ’senhorinhas’ e ‘mocinhas’ que foram ao cinema esperando uma comédia romântica com George Clooney. Mas quem gosta de reflexão se supreendeu positivamente.
Obrigada pelo comentário!
bjs
January 29th, 2010 at 10:55
Up in the air sim porque, vc tem toda a razao, o titulo Amor sem escalas eh suspeito. Se a ideia era atrair um determinado tipo de publico, deram um tiro no peh. Ainda no cinema, observei algumas mulheres que saíam reclamando. No meu facebook, uma amiga escreveu um status mencionando a “chatice” do filme. Claro. Houve uma total frustração de expectativas.
O filme me fez pensar muito, mas vi ali, em especial, uma séria questao de genero. A ele interessava o poder simbolizado por cartoes preferenciais, privilegios em hoteis, e as tais milhas que ele tanto planejou mais pareciam outra demonstraçao de poder. As milhas me lembraram a visao de Baudrillard sobre coleçoes. O colecionador (e ele era um colecionador de voos) age com paixao, pois a coleçao lhe confere um poder especial. Quando ele “acha” que encontrou uma mulher que pensa como ele, dah com os burros n’agua. Ela eh fake. Na verdade, ela, como as outras mulheres do filme (as irmãs, a funcionária nova) tem em seus relacionamentos a sua maior prioridade na vida, ainda que Alex buscasse uma fuga do tédio à la Madame Bovary. A funcionaria nova soh entrou na empresa dele porque seguiu o “amor da sua vida”. Quando ela descobre que o tal “amor da sua vida” nao a ama de verdade, ela se sente livre para buscar outro caminho profissional. Ficou a duvida. Sera que ela se trasformarah num Ryan de saias? Nao creio. Apostaria num novo investimento amoroso no medio prazo.
Uma outra linha de pensamento interessante provocada no filme eh a questao do trabalho. Alguem diz no filme que a dor da demissao do emprego equivale a uma morte na familia. Mas ele, o demitido, se sentia como ele proprio houvesse morrido. O trabalho do personagem de Clooney era quase que o de um medico que deveria dar uma noticia ruim aos familiares do seu paciente. Como fazer isso atraves da video conferencia? A cultura norte americana que tende a mercantilizar tudo parece encontrar um limite. (serah???). Talvez nao seja mesmo possivel mercantilizar qualquer tipo de serviço. E esse era, para mim, o maior paradoxo do filme. O personagem de Clooney sabia da importancia dos relacionamentos, mas preferia a zona de conforto que o seu trabalho lhe proporcionava, e, claro, o poder. Entra a questao que todas nos fazemos sempre: medo da perda? Medo de se relacionar seriamente? Medo da rotina? Medo de perder o poder? Aí, jah eh um territorio seu.
January 29th, 2010 at 10:57
Uau, Solange, muito bom o que você levantou… Acho que você vai ter de abrir uma seção no seu blog para analisar filmes, hein?
Quando ao bovarismo da Alex, é quase isto… fuga ao tédio, busca por um parêntesis. Mas a Bovary do livro se iludia, achava que viria princípe encantado. Nos dias de hoje, a Alex era tão prática que nem isto esperava. E até se surpreende quando ele bate à porta. Não dá também pra comparar com o tédio da Belle du Jour, que não tinha vida profissional, vivia em função do marido e não queria substitui-lo. Acho que Alex inaugura um tipo novo de heroína. Na verdade, uma heroína que não agradou à maioria das espectadoras… rsrsrs
January 29th, 2010 at 11:04
Bom ponto. Essa mulher continua entediada, mas menos romantica (diferente de Bovary) … Já se deu conta de que o principe nao existe (preciso ver de novo para lembrar o que ela disse para a menina, consolando-a quando o namorado dá o fora nela).
E nisso vc tem razao – aquela eh uma cena-chave do filme. Acho que muita gente achou, naquela hora, que ela fosse se surpreender e abraçá-lo e que “viveriam felizes para sempre”. Acho que foi aí a melhor parte do filme! Houve um choque de realidade que as Madames Bovarys de plantao tiveram dificuldade de assimilar… soh lhes restou praguejar no cinema…hehehehehe!
Bj.