Caminhos da Floresta é  um filme dos estúdios Disney. Mas não tanto para crianças. Ao  assistirmos, atraídos pelo elenco estelar – que inclui Johnny Depp e Meryl Streep, mais uma vez indicada para Oscar (desta vez como atriz coadjuvante), nos surpreendemos. Caminhos… reúne vários personagens dos contos dos irmãos Grimm. O filme costura o destino de Chapeuzinho Vermelho com seu Lobo Mau, João – o do pé de feijão, Rapunzel e Cinderela com seus respectivos príncipes. E, logicamente, não poderia faltar a bruxa má.

Função do conto de fadas

Em um tempo que nos parece muito distante, quando não havia eletricidade e nem  telefone, era através dos contos que adultos alertavam as crianças sobre os riscos da vida.

Bruno Bettleheim, no livro A Psicanálise dos Contos de Fadas, diz: “No conto de fadas, o paciente encontra soluções analisando as partes da história que dizem respeito a seus conflitos”. 

Impacto nos relacionamentos amorosos

Os psicólogos que estudam a Psicologia do Amor sempre apontam a importância do  imaginário acerca de ‘príncipes encantados’. Talvez tenha tudo piorado a partir dos filmes da Disney. Nem todos os contos originais terminavam quando o príncipe resgatava a princesa – de um sono profundo, de um dragão ou de uma bruxa (que sempre era má).

Mas os desenhos do estúdio venderam esta ideia e, ainda hoje, muitas mulheres adultas esperam o homem perfeito em suas vidas.  Logicamente, eles não existem. Mesmo nos países onde há monarquia,  vemos que príncipes –  e também princesas – , como os plebeus, são seres humanos. Todos falíveis.  

A indústria cinematográfica mais recentemente parece se empenhar em corrigir a ilusão de um príncipe ‘salvador’. Vem até fazendo piada – como em Malévola, por exemplo. Não é o beijo do príncipe que desperta Aurora. E os príncipes de Caminho da Floresta são risíveis.

Contos de fada – como retratam a psicologia

Não só neste filme, mas personagens de contos de fada ilustram muito bem posturas que assumimos na vida real, muitas vezes sem nos darmos conta.

Madrasta, bruxa, princesa, são todos aspectos do feminino. Assim como o lobo mau, o príncipe e o gigante o são do masculino. Para exemplificar: apesar de Rapunzel não ter muito destaque no filme, a cena em que a bruxa (que é Meryl Streep) e Rapunzel se enfrentam serve como ‘filmoterapia’ para trabalhar a relação mãe e filha.

A bruxa representa o arquétipo da mãe devoradora. Lida  mal com o florescimento da filha, tem dificuldade com o envelhecimento. Não é fácil envelhecer – e dar de cara com a finitude e a perda do poder de atração. Assim, tenta  impedir a saída para o mundo. Ficando só, teria de enfrentar a ‘síndrome do ninho vazio’.

Quantas relações mãe e filha não existem assim? Quantas mães não prendem, de forma “inconsciente”, sua prole para não ter de lidar com seu decaimento e solidão?

Contos também serviam para educação sexual. A história de Chapeuzinho Vermelho, neste filme, parece um alerta sobre pedofilia.

A influência dos contos 

No consultório, muitas vezes recebemos clientes – homens e mulheres – com grande dificuldade para se separarem do pai ou da mãe. Não se sentem livres para uma vida de adulta. Emaranhados com eles, abrem mão de vários projetos importantes.  

Tudo o que está sendo dito aqui, sobre Caminhos da Floresta, racionalmente, muitas vezes é sentido dolorosamente na vida e se apresenta na clínica de psicoterapia.

Em alguns casos, precisa-se de muito tempo para elaborar estes sentimentos ambivalentes, de amor e ódio pelas figuras parentais, para conseguir encontrar o equilíbrio, sem ‘abandonar’ a família de origem mas sem abdicar também dos projetos pessoais.

Em Caminhos da Floresta, uma canção é bastante significativa e ‘terapêutica’ até: dois personagens adultos cantam para crianças (João e Chapeuzinho Vermelho) que pais e mães também erram. Então, se você for pai ou mãe, provavelmente errará. 

É preciso, pois, desenvolver a aceitação e a compaixão: consigo e para com os outros. E, ao mesmo tempo, ir se separando para ter uma vida valiosa, alinhada com os seus valores pessoais.

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Thays Babo é  Mestre em Psicologia Clínica, pela Puc-Rio, tem formação em TCC, extensão em Terapia de Aceitação e Compromisso pelo IPq (USP) e é associada à ACBS (Association for Contextual Behavioral Science). 

Durante a pandemia de Covid-19, só atende on-line, a jovens e adultos em terapia individual, terapia de casal e pré-matrimonial.

Caminhos da Floresta – e os descaminhos

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