Falta pouco mais de um mês para 2019 terminar. A contagem regressiva para o período de Festas já começou: a decoração natalina de várias lojas foi feita em outubro. A esta “animação” também se juntaram as campanhas de Black Friday, agora em novembro.

É a temida hora do balanço do ano que termina. Hora de refletir sobre o que se evitou ao longo do ano. Balanço emocional, físico, financeiro. Quem se acha em débito com suas realizações pode sentir angústia.

Para quem mora longe da família, é um tempo de saudade. Porém, quem vem de uma família agressiva, pode sofrer ante a ideia de ter de encontrar pessoas abusadoras (física ou emocionalmente). A ocasião festiva vira quase um encontro marcado com o sofrimento.

Famílias disfuncionais

Na família de origem, se dá, em geral, o primeiro contato com o mundo. As memórias e experiências na infância e adolescência marcam profundamente. Muitos problemas de saúde mental se originam nesta fase, como observam a maioria das abordagens psicológicas. Mas, representadas nos comerciais, as famílias parecem sempre felizes – em especial na época do final de ano.

Foto de Andrew Neel em  Unsplash

Nos Estados Unidos, o Thanksgiving ou Dia de Ação de Graças – última quinta do mês de novembro – antecipa algumas destas tensões. O período pode ser bastante difícil. Porém, famílias com relações abusivas podem causar um grande mal estar. Sentimentos ambivalentes surgem quando é preciso (re)encontrar a família “tóxica”, ou apenas disfuncional. Pessoas ansiosas podem imaginar os piores quadros possíveis frente aos temidos reencontros.

Nestas ocasiões, encontramos pessoas que conseguimos manter à distância durante todo o resto do ano. Como lidar com estes encontros? Evite os temas polêmicos de sempre, nem faça questão de ganhar discussões – para quê mesmo? Você também não precisa ser plateia para aqueles parentes que querem dominar todos os assuntos, mostrando que sabem mais do que você.

Cuide da sua saúde física também: controle seu consumo de álcool (você pode ficar sensível demais às provocações ou às memórias) . Se conseguir, continue as atividades físicas – não só pelo seu corpo, mas também pelo seu bem estar emocional

Luto

O período é especialmente difícil para quem perdeu alguém recentemente (por morte ou separação). O período de luto pode durar até dois anos e aí não se vê sentido em comemorar. Pressionadas estas pessoas, muitas vezes, comparecem a eventos mas sem estarem verdadeiramente lá. Podem não ficar  atentas a  quem está  a seu lado e insiste em animá-las.

É difícil se divertir sobre pressão, quando se anseia por algo – ou alguém – que não está mais lá.  Dói mesmo.

A quem recorrer

Se você não está em processo de psicoterapia, o Centro de Valorização da Vida (CVV), instituição internacional, pode ajudar, como um s.o.s. O CVV funciona a pleno vapor nesta época.

O CVV – Centro de Valorização da Vida realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo por telefone, e-mail e chat 24 horas todos os dias.

Há plantonistas disponíveis também na noite de Natal e na virada do Ano Novo. A instituição, que é internacional, atende a  inúmeras ligações, no mundo todo. 

Mas, além do socorro emergencial, avalie a possibilidade de começar um processo de psicoterapia, se ainda não faz, caso tenha seu humor tenha estado muito instável nos últimos meses.

Outro cuidado a se tomar é em relação às pessoas idosas, na família, morando sozinhas. E procure aquelas pessoas que não têm rede de amigos, ou estão em luto. Verifique como está o estado de humor delas nesta época, esteja presente. Ou sugira a elas procurar ajuda psicológica. Alguns grupos apresentam mais riscos e precisam de mais atenção e cuidados nesta época.

A importância dos ritos de passagem 

Apesar das situações mencionadas acima, a virada de ano traz uma sensação de “começar de novo” . Analisa-se um final de ciclo para  planejar o/s próximo/s ano/s.

Projetos abandonados  podem ser retomados ou repensados se forem valiosos pra você. Os que estão em andamento devem passar por uma avaliação: mantê-los ou não?

Avalie o que não conseguiu realizar – e porquê. Faça o balanço: você se comprometeu com seus valores este ano? Suas ações  estavam alinhadas com eles? Ou  você  se afastou do que você valoriza de verdade? Redefina o que realmente é valioso para você. A partir daí, comprometa-se.

Comprometa-se com seus valores para o próximo ano 

A cada dia, o mundo parece mais imprevisível e acelerado, gerando grande ansiedade. Planejamento é importante, juntamente com a flexibilidade para adaptar, caso haja algum acidente de percurso. É preciso aceitação de que há coisas que não dependem diretamente de nossa vontade ou não estão sob nosso controle. É preciso no entanto o compromisso e ações alinhadas com os valores.

Pode ser a hora de buscar apoio psicoterapêutico

Depois desta avaliação, se você achar que está difícil manter o foco e se empenhar, busque ajuda especializada, faça psicoterapia.

Dependendo da circunstância, insistir nos projetos não significa resiliência, nem persistência, e sim teimosia. Pode ser mera perda de tempo. Talvez você só precise de mais tempo para analisar o que realmente importa.

Observe e mude o que pode ser mudado, na direção do qu você quer. Compaixão e autocompaixão são importantes neste processo. Ao avaliar suas “distrações”, você pode se comprometer com  as mudanças necessárias.

O que a psicoterapia pode fazer por você?

Em psicoterapia, você aprende a viver  sem talvez idealizar tanto. Você estabelece objetivos e passa a ter expectativas mais realistas. Você aprende a aproveitar o que se apresenta agora.

O futuro – quando chegar e se tornar presente – depende das ações hoje. Não estar com os pés no tempo de agora, no momento presente, faz perder o foco. Muitas vezes contribui para alterar o  humor. 

Ao ‘viver’ no passado, relembrando cenas ou situações – dolorosas ou felizes, não importa – não se percebe, muitas vezes, o que se tem hoje para desfrutar e o que se está perdendo.  Viver querendo antecipar, controlando por temer o futuro, ou ficar só sonhando, também impede de construir a vida que se quer, de se comprometer com os valores pessoais. 

Uma nova fase

Considere seriamente a possibilidade de iniciar um processo de  psicoterapia.  “Ser feliz dá trabalho” (e é impermanente, sempre é bom lembrar). Autoconhecer-se e trazer à tona  pensamentos e emoções que paralisam você pode ser o necessário para que eles mudem ou percam sua intensidade. Ou fiquem ali, reconhecidos, mas já sem causar prejuízo e insatisfação com sua própria vida e suas escolhas. 


Thays Babo é Psicóloga Clínica e atende a jovens e adultos em terapia individual, em Copacabana ou online, ou em terapia de casal e pré-matrimonial
.

Mestre pela Puc-Rio, tem formação em TCC, extensão em Terapia de Aceitação e Compromisso pelo IPq (USP), e é associada à ACBS (Association for Contextual Behavioral Science).

Festas de final de ano – contagem regressiva
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