Lá se vão  15 anos desde que comecei a meditar. Digo sempre às pessoas que atendo: ‘medita que te faz bem‘, adaptação da famosa frase italiana “mangia che te fa bene“.  A prática da meditação pode fazer a diferença na sua vida. E ajudar no seu processo de psicoterapia. 

Mas, na real, quais são seus benefícios? Meditar para quê? 

Antes de mais nada, entenda o que meditação é e o que não é  

Para começar: meditar não é simplesmente “parar de pensar“. Esta ideia faz muita gente nem tentar começar… Afinal, é impossível parar de pensar. 

A meditação também não está ligada, necessariamente, a uma prática religiosa, apesar de muitas tradições religiosas a adotarem.

médico Jon Kabat Zinn sistematizou o conhecimento sobre o mindfulness, com um conjunto de práticas  específicas originadas da tradição  zen budista. A partir daí, a  pesquisa científica atraiu a atenção de céticos, que  se permitiram experimentar e descobrir os inúmeros benefícios da meditação.

Quem pode praticar a meditação?

Praticamente sem contraindicações, milhões de pessoas em todo o mundo, de todas as  idades, raças, independente do sexo ou de terem ou não uma crença religiosa, têm a meditação na sua rotina diária de autocuidado.

Quanto mais cedo se começa, mais fácil adotar a prática diária. Atualmente, muitas escolas  estão adotando para melhorar a disciplina, a concentração e diminuir a agressividade infantil. 

Por perceberem os benefícios da prática, outras instituições e organizações também estão recorrendo à prática – inclusive academias de polícia e preparadores de atletas. A seleção alemã que goleou o Brasil no traumático 7 x 1  praticava a meditação.

Sintetizando muito, pode-se dizer que a meditação ‘dá um tempo’ para a sua mente. Comparando sua mente a um computador, a meditação é o  momento em que se roda um programa de manutenção, como o defrag.

O que impede você ou qualquer pessoa de aderir à prática? Talvez uma série de  crenças falsas sobre o que é a meditação. Alguns exemplos:   

  • “Para meditar, é preciso parar de pensar” – Saiba que a mente não para de produzir pensamentos. Pensar é sua função, o que nos difere dos animais e fundamental  para a sobrevivência. Portanto, parar de pensar  não pode  ser o objetivo da prática.  Se, por acaso,  a produção de pensamentos  parar por segundos ou minutos aproveite. O que a meditação é justamente  observar o fluxo dos pensamentos, sem alimentá-los. E trazer a  mente de volta para o foco de atenção, quando perceber que saiu dele.
  • É preciso praticar por horas! Não tenho tempo!” – Na verdade, pode-se começar com bem pouco tempo, até um minuto – veja o vídeo abaixo.  E, como diz um meme, se você tem tempo para internet (e redes sociais, como Facebook, Instagram etc), você tem tempo para meditar. É mais importante manter uma  regularidade, do que praticar por longo tempo. Assim se conseguem perceber os benefícios a médio e longo prazo.
  • Tenho de sentar  em posição de  yoga, na postura de lótus, e não consigo!” – Qualquer pessoa pode praticar, mesmo sem  flexibilidade. Basta sentar em uma cadeira ou almofada.  Existem técnicas em que se pode praticar na horizontal e algumas, inclusive, em movimento. Como o objetivo da meditação não é dormir,  é preferível meditar se sentando.  
  • Não consigo parar, vou dormir!” – Existem infinitas modalidades de meditação. Pessoas que não conseguem ficar muito tempo paradas podem praticar caminhando ou dançando,  por exemplo.

O vídeo da Meditação de 1 minuto mostra como pode ser simples começar – com um tempo reduzidíssimo.

Várias práticas

Existem inúmeras práticas: pode-se meditar caminhando, preparando um chá ou até mesmo dançando. Mas aqui vamos começar pela modalidade mais conhecida: a prática sentada.

Procure um ambiente mais tranquilo e reservado, em que não haja interferências e nem chamados para a distração. Roupas confortáveis ajudam. Desligue telefones e alarmes , o silêncio é bom e ajuda bastante quem está começando.

Escolha um foco de atenção (ou “âncora“). Pode ser um objeto, como uma vela ou uma flor, uma palavra (mantra ou não) ou uma imagem. A âncora pode ser apenas a sua respiração.

Concentre-se sobre o objeto foco/âncora, apenas observando os pensamentos  que invadem. Não tente  suprimi-los mas também não  os alimente. Deixe os pensamentos passarem, como observador, sem tentar controlá-los ou sem julgar.    Só observe. Sem julgamento.

E, quando  perceber que a mente divagou… traga-a de volta para o objeto âncora – ou seja, volte a observar sua respiração… Com carinho. Com compaixão.

Não se julgue por ter se distraído. É assim mesmo. Pode-se dizer que a meditação é uma ‘musculação mental’, em que a  a mente é trazida para  onde queremos que ela esteja. A âncora seria o peso a manter a atenção no aqui e agora. 

Abra espaço na sua agenda para você

Em um mundo corrido e invasivo, em que se tem de estar disponível, online, 24 horas, dedicar um tempo ao silêncio e à contemplação pode gerar, inacreditavelmente, uma ‘culpa’ nos workaholics – justo os que precisam mais da meditação. 

Estabeleça um horário para praticar, reserve  um espaço confortável, com iluminação suave e sem muitos barulhos. Pode ser no início do dia, antes de sair de casa. Mas é um autocuidado básico, que trará bons impactos na sua vida. 

Se preferir meditar com música, as instrumentais são mais indicadas. Algumas práticas são de olhos abertos, outras de olhos fechados. Pode-se escolher fixar a atenção em uma imagem ou em uma parede branca.

Você também pode meditar contemplando a natureza.

Quanto mais tempo se repete  uma prática específica mais fácil colher seus benefícios.  Assim, escolha a técnica que melhor lhe convém.  

Os benefícios são tantos que muitas empresas já perceberam que a produtividade aumenta. Assim, investem, patrocinando cursos para seus colaboradores – o que acaba gerando algumas críticas sobre o intuito – mas não aprofundaremos aqui. 

Foto de Brian Mann em Unsplash
O que  faz bem, de verdade

Cada vez mais, a meditação é apontada por profissionais da Medicina e da Psicologia  – e até da Nutrição – como importante coadjuvante nos tratamentos. Alguns dos benefícios estão listados abaixo – e fazem valer a pena o esforço para estabelecer a prática.

  • Melhora a concentração – permitindo que a vida possa ser analisada sob outra perspectiva;
  • Aumenta a criatividade – soluções  podem surgir durante a meditação, pensamentos inspirados ou criativos também, sem que tenha sido este o objetivo da meditação;
  • Diminui a ansiedade e os níveis de estresse;
  • Reduz os episódios de insônia e melhora a qualidade do sono; 
  • Melhora os relacionamentos interpessoais – na medida em que ajuda a distinguir o que se pode deixar passar;
  • Diminui compulsões.
  • Ajuda na regulação emocional.
A integração da meditação na psicoterapia

Várias abordagens psicológicas – como a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT)  e a Terapia Cognitivo-Comportamental  (TCC)  incorporaram técnicas de mindfulness. Uma simples parada, de alguns minutos, pode contribuir instantaneamente na condução da sessão.

Praticar no consultório também pode ajudar a estabelecer a rotina, esclarecendo sobre as crenças mencionadas acima. Porém, a continuidade  – fora do consultório – é que fará mesmo a diferença no processo psicoterápico.

Toda caminhada  começa com o primeiro passo. Assim, também para meditar, é importante vencer a inércia, a resistência inercial da própria mente.

Julgamentos (e auto condenações) podem vir, dependendo dos seus esquemas mentais (“eu não consigo!”,”não é para mim!“), mas é importante reconhecê-los e deixá-los passar.

O esforço compensa, como as pesquisas comprovam.  Informe-se. E pratique!

Referências Bibliográficas 

Goleman, D. Foco: a atenção e seu papel fundamental para o sucesso. Rio de Janeiro:Objetiva. 2013

Penman, D..  Williams, M. Atenção plena: mindfulness.  

Zinn-Kabat, J. Atenção plena para iniciantes.

____. Viver a catástrofe total.  São Paulo: Palas Athena, 2017.

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Thays Babo pratica meditação há 16 anos. Durante a pandemia de Covid-19, só atende on-line, a jovens e adultos em terapia individual, terapia de casal e pré-matrimonial.

Mestre em Psicologia Clínica, pela Puc-Rio, tem formação em TCC, extensão em Terapia de Aceitação e Compromisso pelo IPq (USP) e é associada à ACBS (Association for Contextual Behavioral Science). 

Meditação: entenda porque você deve adotar a prática

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