Medianeras é um filme argentino, de 2011, co-produzido pela Alemanha e Espanha. Aclamado pela crítica, traz um  subtítulo brasileiro (Buenos Aires na era do amor virtual).

Medianeras são fachadas laterais “cegas” de prédios . Ainda que proibido, alguns moradores descumprem a lei e abrem suas janelas. É uma busca por mais luz, mais ventilação e maior contato com o mundo externo. 

O filme mostra o dia-a-dia de duas pessoas geograficamente muito próximas, com vidas e neuroses parecidas – complementares? Medianeras retrata o isolamento na era digital e seus impactos na vida amorosa de Martín (Javier Drolas) e Mariana (Pilar López de Ayala). Vizinhos próximos em Buenos Aires, jovens adultos e isolados.  

Martín e Mariana têm suas vidas limitadas  por eles mesmos. Vivem reclusos a maior parte do seu tempo. Anseiam por ar e luz, querem se relacionar mas tentam e não conseguem. Falta a eles habilidades sociais  importantes para estabelecer relacionamentos interpessoais.  

O nome da rua em que moram não deixa de ser uma ironia, talvez mais um recurso sutil para disfarçar o drama existencial com doses (econômicas) de humor.

Saúde mental e emocional 

Seria Martín um fóbico social? Possivelmente. Ele usa remédios para suportar viver em uma quitinete sombria. Web designer, está há anos sem um relacionamento amoroso consistente. Martin só anda a pé por Buenos Aires.

Em sua mochila, Martin carrega seu mundo portátil, seu kit de sobrevivência, que acaba com a sua coluna, e o leva a buscar mais medicamentos. Não por acaso se define como hipocondríaco.

“Há 10 anos sentei na frente do computador e tenho a sensação de que nunca mais levantei…” 

Mariana é arquiteta mas trabalha como vitrinista. Não se realiza profissionalmente, e sua autoestima é baixa. Projeta nos manequins parte de seus desejos, onde pode exercer sua criatividade.

Após o término de um relacionamento amoroso,  percebe através das fotos que o afastamento foi gradual: ao longo dos anos, elas foram rareando. Em uma geração que tudo registra fotograficamente, este é um indicador importante.

Mariana tem claustrofobia, não usa elevadores, o que restringe bastante suas possibilidades. O livro Onde está Wally é sua referência literária e ajuda a manter uma ponta de esperança.

Solidão e solitude

Porém, o filme NÃO é sobre internet. A solidão e o isolamento social são  os principais condutores de Martin e Mariana. Já se sabe o quanto o isolamento contribui para quadros de depressão e ansiedade.

Medianeras remete a Denise está chamando, mas com mais leveza. Acaba trazendo mais esperança a quem limita suas explorações pelo mundo. Como Martín. E também como Mariana.

O isolamento nas grandes cidades

Medianeras fala de perto a quem mora em Buenos Aires, Rio de Janeiro, São Paulo ou qualquer outra cidade grande que engula seus moradores.  Pessoas introvertidas podem ser ainda mais prejudicadas com a indiferença de quem passa a seu lado e nem as vê. 

Há uma semelhança com os  filmes de Woody Allen: os psicólogos do filme são ‘figuras’ mal resolvidíssimas.Não deve ter sido casual que Martín e Mariana tentam se relacionar com psicólogos. 

Porém, se buscavam neles a ‘cura’ para seus problemas, descobriram rapidamente que não seria assim tão fácil. 

Medianeras traz muito material para reflexão, merecendo ser visto e revisto. Especialmente recomendado para  pessoas que tenham dificuldade em estabelecer relacionamentos amorosos satisfatórios ou algum tipo de fobia social.   

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Thays Babo é Psicóloga Clínica, Mestre pela Puc-Rio, com formação em TCC e extensão em Terapia de Aceitação e Compromisso pelo IPq (USP), membro da ACBS (Association for Contextual Behavioral Science. Atende a jovens e adultos em terapia individual, de casal e pré-matrimonial,  em Copacabana.

Durante a pandemia de coronavírus, todos os atendimentos são online. 

Filmoterapia: Medianeras
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2 ideias sobre “Filmoterapia: Medianeras

  • 14/01/2012 em 16:24
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    Gostei muito do inicio, quando ele descreve Buenos Aires e o quanto o planejamento urbano (ou a falta dele) influencia no estilo de vida que seus habitantes vao levar. Parece uma bobagem, mas tem todo o sentido. E no Brasil, poderiamos contar a mesma historia varias vezes.

  • 14/01/2012 em 16:24
    Permalink

    Também achei interessantíssimo, Solange. Mas me senti – como comentei – em falta com Buenos Aires e insegura para comentar. 😉
    Engraçado que em relação às medianeras, o uso que se tem dado aqui no Rio é algo que me incomoda, mesmo sendo publicitária – já tinha pensado sobre isto, inclusive. Curioso, no prédio ao lado do que moro, algumas pessoas vazaram a fachada também – porém, não abriram janelas . Talvez por conta de legalização: simplesmente colocaram tijolos de vidro pra deixar alguma luz entrar…

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