Medianeras é um filme argentino, co-produzido pela Alemanha e Espanha,  aclamado pela crítica. O subtítulo brasileiro (Buenos Aires na era do amor virtual) atrai quem estuda relacionamentos amorosos na era digital.

O filme mostra o dia-a-dia de duas pessoas geograficamente muito próximas, com vidas e neuroses parecidas – complementares? Martín (Javier Drolas) e Mariana (Pilar López de Ayala) não se conhecem, mesmo sendo vizinhos, em Buenos Aires.

Ambos têm suas vidas limitadas – por eles mesmos, vivendo  reclusos a maior parte do seu tempo. Anseiam por ar e luz, querem se relacionar mas tentam e não conseguem.

O nome da rua não deixa de ser uma ironia, talvez mais um recurso sutil para disfarçar o drama existencial com doses (econômicas) de humor .

Análise psicológica 

Se fôssemos fazer um diagnóstico de ambos, poderíamos propor que Martin é um fóbico social. Mas está em tratamento: usa remédios prescritos pelo seu psiquiatra para suportar viver em uma quitinete sombria. Webdesigner, está há anos sem um relacionamento amoroso consistente. Martin só anda a pé por Buenos Aires.

Desde que sua namorada se foi, deixando apenas o caozinho,  Martinse deprimiu. Afinal, morar em uma ‘caixa de sapatos’ com alguém que não gosta de sair para passear não deve ser fácil… Em sua mochila, Martin carrega seu mundo portátil, seu kit sobrevivência, que acaba com a sua coluna, e o leva a buscar mais medicamentos. Não por acaso se define como hipocondríaco.

A idade dos personagens principais não fica clara. Provavelmente passaram dos 25 anos – mas não muito. Por isto, provavelmente, Medianeras ‘conversa’ melhor com os que viveram o boom da internet e entraram na maturidade mergulhados no mundo virtual.

Em uma cena Martin, que diz: “Há 10 anos sentei na frente do computador e tenho a sensação de que nunca mais levantei…” ? – retrato de uma geração. 

Mariana é arquiteta mas trabalha como vitrinista – o que não contribui muito para sua autoestima profissional. Parte de seus desejos, projeta nos manequins – tanto nos que leva para casa onde ensaia (ou projeta) seus afetos como nos que enfeitam as vitrines.

Após o término do seu relacionamento amoroso, detecta, em retrospectiva, o afastamento progressivo do casal, pelo número decrescente das fotos tiradas ao longo dos anos.

Mariana tem claustrofobia, não usa elevadores, o que restringe bastante suas possibilidades. O livro Onde está Wally é sua referência literária e ajuda a manter uma ponta de esperança.

Solidão e solitude

Porém, o filme NÃO é sobre internet. Há relativamente poucas cenas sobre chats, por exemplo, um dos recursos mais usados na vida real para tentar aplacar a solidão. A solidão e o isolamento são talvez os principais condutores de Martin e Mariana.

Medianeras toca outros públicos, quer acessem ou não. Relembra Denise está chamando, mas com mais leveza. Acaba trazendo mais esperança a quem limita suas explorações pelo mundo. Como Martin. E também como Mariana.

Em Manhattan, de Woody Allen, explicita a melancolia e a impossibilidade de ficar.  Medianeras fala de perto a quem mora em Buenos Aires, Rio de Janeiro, São Paulo ou qualquer outra cidade grande que engula seus moradores.

Outra semelhança com os  filmes do diretor americano: os psicólogos do filme são ‘figuras’ mal resolvidíssimas. Não deve ter sido casual que Martin e Mariana tentam se relacionar com psicólogos. Porém, se buscavam neles a ‘cura’ para seus problemas, descobriram rapidamente que não seria assim tão fácil. 

Enfim, Medianeras traz muito material para reflexão, sendo especialmente recomendado para  psicólogxs que atendam a jovens e adultos.  

_________________________________________________________

Thays Babo é Psicóloga Clínica, Mestre pela Puc-Rio, com formação em TCC e extensão em Terapia de Aceitação e Compromisso pelo IPq (USP), membro da ACBS (Association for Contextual Behavioral Science. Atende a jovens e adultos em terapia individual, de casal e pré-matrimonial,  em Copacabana.

Medianeras
Classificado como:                        

2 ideias sobre “Medianeras

  • 14/01/2012 em 16:24
    Permalink

    Gostei muito do inicio, quando ele descreve Buenos Aires e o quanto o planejamento urbano (ou a falta dele) influencia no estilo de vida que seus habitantes vao levar. Parece uma bobagem, mas tem todo o sentido. E no Brasil, poderiamos contar a mesma historia varias vezes.

  • 14/01/2012 em 16:24
    Permalink

    Também achei interessantíssimo, Solange. Mas me senti – como comentei – em falta com Buenos Aires e insegura para comentar. 😉
    Engraçado que em relação às medianeras, o uso que se tem dado aqui no Rio é algo que me incomoda, mesmo sendo publicitária – já tinha pensado sobre isto, inclusive. Curioso, no prédio ao lado do que moro, algumas pessoas vazaram a fachada também – porém, não abriram janelas . Talvez por conta de legalização: simplesmente colocaram tijolos de vidro pra deixar alguma luz entrar…

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.