
Bissexualidade, amor flex
Especialistas debatem: será que todas as formas de amar valem a pena?
Por Carolina Mouta • 20/09/2008
Biológica e culturalmente, nascemos homens e mulheres, seres fisicamente diferentes e definidos aos olhos da sociedade. Feitos um para o outro, homem e mulher seriam as metades da mesma laranja. A sociedade ensina que homem tem que se relacionar com mulher e vice-versa. Entretanto, o comportamento de cada um vai se moldando ao longo do tempo e sofre influências bio-psico-sociais. Resultado: nem oito nem oitenta. Tradições dão lugar a novos valores surgidos a partir de grupos que se formam batendo de frente firmemente com o que a sociedade impõe. A opção sexual, por exemplo, ganhou relevância no contexto social moderno. E a bissexualidade ganhou espaço não só nas rodas de discussão. A moda agora é ser flex.
A juventude de hoje vê na sexualidade uma forma de dar o grito de liberdade. "Estamos aceitando a diversidade. Permitimos que as pessoas ‘diferentes' do padrão imposto socialmente saiam de seus casulos e assumam seus desejos. Isto é um ganho individual e social. Provavelmente, num futuro próximo, muitos dirão: estou bissexual, e não sou bissexual", diz a terapeuta sexual Franciele Minotto. Mas, quando se trata da sexualidade, muitos ainda arregalam os olhos se o assunto é ser bi.
Descobrir-se bissexual é uma questão que está intimamente ligada à relação com o mundo que cada um tem. A cultura tem um papel fundamental na definição dos papéis sociais. É a partir dela que se define o conjunto de comportamentos considerados adequados às pessoas. Com a bissexualidade é a mesma coisa. "Ao identificar-se como bissexual, o indivíduo é inserido em um circuito de relações sociais que envolve moda, comportamento, formas de linguagem, freqüência a lugares específicos", explica o sociólogo e pesquisador Rodrigo Rosistolato.
Resolvidos os traumas, aparadas as arestas internas e definido o que é atração real e o que é simples curiosidade, vem a "saída do armário". E a decisão de assumir-se só o próprio indivíduo pode tomar. A honestidade, pregada pela sociedade, esbarra em aspectos pessoais, profissionais e familiares. Esta apresentação para o mundo pode vir acompanhada por momentos difíceis. A mestre em Psicologia Clínica Thays Babo acredita que o autoconhecimento pode ajudar na hora da escolha. "O armário bi tem duas portas: uma para homossexualidade, outra para a heterossexualidade. E abrir ambas ao mesmo tempo requer muito mais do que coragem: requer auto-aceitação, auto-entendimento. Afinal, é duplamente difícil se assumir como gostando de ambos os sexos - por vezes indistintamente, por outras com alguma preferência", explica.
A especialista não acredita que o ambiente influa na orientação sexual. Para ela, o seu papel é outro. "O ambiente é fundamental para a aceitação negação ou repressão - o que equivale dizer que o ambiente influencia no "comportamento sexual". É muito diferente e mais fácil se assumir homo ou bi em uma grande cidade, em que há um anonimato, não se precisa dar conta da sua vida sexual para família, comunidade etc", ressalta.
O mais famoso defensor da bissexualidade humana foi o pai da psicanálise Sigmund Freud, que dizia que todos nascem com plena possibilidade de serem bi, mas as experiências e a relação com a sociedade vão moldando a sexualidade humana. "Ser ou não ser bissexual não é uma escolha consciente. A orientação sexual não é algo que se escolhe, é algo que se vive, acontece!", ratifica a terapeuta Franciele Minotto.
Alguns atribuem a mudança na orientação sexual às experiências sexuais iniciais. Mas parece que a influência não é tão direta. "Cada história é uma história. Cada indivíduo interpreta suas iniciações e vivências sexuais a seu modo. Alguns jovens iniciam a vida sexual com colegas do mesmo sexo, mas acabam tornando-se exclusivos heterossexuais ao longo da vida, alguns descobriram sua bissexualidade após a vivência da exclusiva heterossexualidade. Assim, não há regras", afirma a Dra. Franciele.
Porém, a descoberta da bissexualidade não é um mar de rosas para todos. Para alguns é um verdadeiro susto. "A pessoa se questiona, acha que está confusa, tem dificuldade de aceitar que bissexualidade existe e não é doença ou desvio de caráter - como grande parte da população acha, ainda no século 21", conta Thays.
A aceitação da bissexualidade, tanto por parte do bissexual quanto de quem o rodeia, pode ser um processo lento e doloroso. O medo de ser diferente pode impedir a decisão de se mostrar para todos. Por isso há indivíduos que ficam por muito tempo "em cima do muro", adotando o comportamento que lhe convier, dependendo do grupo em que está inserido.
Depois de todas as pontuações, a pergunta que não quer calar é: bissexualidade existe mesmo ou é lorota? A resposta é simples. Existe sim, e há muito mais bissexuais do que se imagina. Aliás, tem gente que é e nem desconfia.... "Talvez apenas um terço dos bissexuais tenha algum contato sexual efetivo com parceiros de ambos os sexos. Mas poucas vão abrir isto e se identificar como bissexuais", afirma a psicóloga.
Segundo a terapeuta sexual Franciele Minotto, teoricamente, o que define nossa orientação sexual não é nossa prática sexual e sim nossa atração. "Bissexual é o indivíduo que se sente atraído por pessoas do mesmo sexo e do sexo oposto (ambos os sexos), no entanto, não necessariamente precisa fazer sexo com o mesmo sexo e/ou com o sexo oposto", explica a especialista.
Autora do livro "Bissexualidade: invisibilidade e existência", prestes a ser lançado, Thays Babo concorda. "Apesar de a sexualidade ser definida freqüentemente como um contínuo - com heterossexualidade (atração exclusivamente por membros do sexo oposto) em uma extremidade, e homossexualidade no outro (atração exclusivamente por membros do mesmo sexo) - no meio estão pessoas que têm atração por membros de ambos os sexos. Podem ser desejos ocasionais (fantasias, sonhos)", explica a especialista. E ela continua: "Determinar o que faz o desejo surgir é uma tarefa que psicólogos têm se dedicado e ainda não conseguiram decifrar. Há quem busque causas biológicas, hormonais, outros falam de contexto familiar ou social".
Isso prova que a bissexualidade pode estar muito mais presente do que imaginamos. De acordo com a Dra. Franciele, o Estudo da Vida Sexual do Brasileiro, coordenado pela Dra. Carmita Abdo, aponta que a prevalência de bissexuais entre as mulheres é de 0,9% e 1,8% entre os homens, variando conforme a faixa etária. Nas mulheres entre 18 a 25 anos a prevalência é de 1%, já nas acima de 60 anos é de 0,8%. Entre os homens na faixa etária de 18 a 25 anos é de 2,1%, nos acima de 60 anos chega a 0,4%.
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