
À moda antiga
Ainda tem muita mulher que acha que o seu lugar é na cozinha...
Por Carolina Mouta • 03/12/2008
Quem
nunca ouviu frases do tipo "seja homem", "homem não chora", "ele pode,
ele é homem"? E, não raro, elas são proferidas por bocas femininas.
Pois é... As mulheres não se dão conta, mas muitas ainda apresentam um
comportamento um tanto quanto machista, mesmo que não reconheçam.
Uma mulher machista defende a hierarquia dentro do casal, aceita que pertença ao homem a "chefia" da casa, e acha natural ele assistir à TV enquanto ela dá
banho nas crianças ou faz o jantar. É ela que, sem saber, defende e
alimenta o machismo dos homens. "Como comportamento culturalmente determinado, o machismo
não pressupõe reflexão. Quando uma pessoa, homem ou mulher, tem uma
atitude machista, assim o faz porque acredita que é o mais correto a
fazer. A atitude machista só é percebida quando passa por um processo
reflexivo, o que não acontece em todos os casos", esclarece o
antropólogo Rodrigo Rosistolato.
Uma mulher machista acha que homens podem ter alguns privilégios e
obrigações específicas, só por serem homens. Podemos dizer, de certa
maneira, que a mulher é ensinada a ser machista
Segundo o especialista, não é possível falar em um
machismo específico das mulheres. "O fenômeno é o mesmo que acontece
com os homens. A diferença está na ênfase", diz. Rodrigo reforça que
este é um fenômeno cultural, que atinge ambos os sexos. "A dominação
masculina não é uma dominação dos homens, porque domina os homens
também. Os homens são obrigados a serem 'homens' o tempo todo, o que
pressupõe uma série de comportamentos e atitudes. Da mesma forma, as
mulheres precisam se comportar da maneira que a sociedade considera mais 'adequada'. Quem foge ao padrão se torna vítima de
atitudes preconceituosas. O machismo é um resultado da dominação
masculina", complementa.
A psicóloga Thays Babo vai
um pouco além: "Uma mulher machista acha que homens podem ter alguns
privilégios e obrigações específicas, só por serem homens. Podemos
dizer, de certa maneira, que a mulher é ensinada a ser machista",
analisa. E é isso mesmo - o sexismo pode começar dentro de casa, na família. É bom tomar cuidado, porque,
desta forma, o comportamento só se dissemina. Mulheres machistas criam
filhos machistas, e por aí vai... "Muitas mulheres aprendem em casa esta visão de mundo", confirma a psicóloga.
Eles também sofrem
Ao
contrário do que muita gente pensa, o machismo nas mulheres é um
comportamento comum, principalmente quando criam filhos homens. "Em
minha tese de doutorado, analisei este tipo de machismo. Algumas de
minhas entrevistadas diziam que eram totalmente favoráveis à igualdade
de gênero, mas queriam que seus filhos fossem 'machos' e os criavam
para isso. Elas entendiam que contribuíam para a dominação masculina
com estas atitudes, mas afirmavam que, quando seus filhos tinham
atitudes consideradas femininas, elas ficavam muito preocupadas com a
possibilidade de não serem 'machões'", conta Rodrigo.
Mesmo
com a igualdade entre os sexos sugerida pelo mundo moderno, é possível
dizer que, infelizmente, a sociedade ainda é bastante machista.
"Masculino e feminino são classificações sociais presentes em todas as
sociedades e culturas. O machismo é um produto perverso desta dinâmica
de classificações. A modernidade iguala as pessoas a partir de uma
perspectiva política, mas não consegue igualá-las culturalmente. A
diversidade de culturas, inclusive, é nosso maior patrimônio", explica
o antropólogo.
Então,
a queima de sutiãs pelas feministas do século passado não deu um basta
ao machismo, que sobrevive até hoje. "Sobrevive graças a mães que
educam seus filhos de maneira desigual: falam coisas diferentes para os
meninos e as meninas, mantêm a dupla moral. E algumas mulheres criadas
assim não conseguiram se desvencilhar disso", observa Thays. Rodrigo
Rosistolato concorda: a diferença na criação das crianças pode ter uma
contribuição intensa para o comportamento machista. "É na infância que
aprendemos o que podemos e o que não podemos fazer. Meninos e meninas
passam por processos de socialização que os ensinarão a se comportar no
contexto social em que vivem", argumenta ele.
A mulher machista acha que é obrigação do homem sustentá-la, por exemplo. Ela acha que homem não pode chorar, e não deixa que o homem participe na criação dos filhos
Mas quem disse que o homem não sofre com o machismo da parceira? "A mulher machista acha que é obrigação do homem
sustentá-la, por exemplo. Ela acha que homem não pode chorar, e não
deixa que o homem participe na criação dos filhos", enumera Thays Babo.
"Existem também as acomodadas, que preferem ser bibelôs ou objetos,
para não terem de se esforçar na vida, ir para o âmbito público",
exemplifica. De acordo com ela, as mulheres que se submetem a esta
dominação podem ser consideradas machistas, principalmente quando acham
que é assim mesmo que a relação deve ser.
Olhe para si
Se você jura que diz não ao machismo, cuidado com frases do
tipo "meu marido me ajuda em casa". Elas podem esconder um pensamento
machista que você nem sabe que tem. Sabe por quê? As mulheres são
ensinadas, ainda que de forma indireta, que é seu dever cuidar da casa e dos filhos. Dificilmente aceitam que o marido deva ser tão
responsável quanto ela, principalmente em relação aos afazeres
domésticos.
Portanto, tomar para si esse tipo de
obrigações é só a ponta do iceberg da discussão. "Da mesma forma que
existem homens e mulheres que consideram que o trabalho do homem no lar
é uma ajuda, existem mulheres que simplesmente não deixam os homens
fazerem nada porque entendem que eles não sabem fazer. Ambos os casos
podem ser classificados como exemplos da dominação masculina. O
trabalho no lar é socialmente classificado como trabalho feminino.
Logo, o homem pode até fazer trabalho doméstico, mas o faz como
'ajuda'", diz o antropólogo.
Mas se você não concorda
com esse comportamento, não ri das piadinhas sexistas que costuma ouvir
por aí, nem mesmo concorda com comentários do tipo "tinha que ser
mulher" ao volante, por exemplo, não pense que tudo está perdido. Há
uma luz no fim do túnel e parece que realmente estamos caminhando para
uma mudança definitiva. "Podemos ver que o machismo é um comportamento
que tende a se extinguir com uma maior escolarização das mulheres. Em
classes sociais mais altas e nos centros urbanos, isso já é menor do
que nas camadas populares", conclui a psicóloga Thays Babo.
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