Antes de mais nada: você sabe o que é a procrastinação? Mesmo que não conheça a palavra, é bem possível que já tenha procrastinado, pois é um comportamento universal. 

Procrastinar é a tendência a adiar, empurrando compromissos e atividades para frente – muitas vezes para a última hora, para o último prazo.   

Há uma definição, bastante irônica, que diz: “procrastinação (s. f.): ato de arruinar sua vida sem nenhuma razão aparente“. 

A tarefa que se adia pode ser  justamente o que falta para melhorar bastante a sua vida. Justamente por isto, pela ansiedade que provoca adia-se. Adia-se o que é desprazeroso, o desconforto e o desafio.

E por que a pessoa continua procrastinando? Porque se ela consegue aumentar o prazo, ‘passar’ de ano etc, entregar – mesmo que algo não tão bom quanto  o que poderia ter feito se usasse o seu tempo,  há uma satisfação que reforça o comportamento.

Regulação das emoções

Quem procrastina sente culpa, vergonha, e muitas vezes se autocritica. Cada vez mais, psicólogos e psiquiatras propõem que a procrastinação tem muito mais a ver com a gestão das emoções do que com a falta de tempo ou de gestão de tempo.

Tipos de procrastinadores

Existem alguns perfis típicos de procrastinadores que podem se superpor, em alguns casos. São eles:

  • Perfeccionistas ou autocríticos – temem finalizar algo e perceber, ao final, alguma falha. Por isto, às vezes, nem começam o que têm a fazer; 
  • Auto sabotadores –   evitam  o próprio sucesso, temem assumir maiores responsabilidades. Com isto, limitam muitas vezes sua própria ascensão profissional, por exemplo;
  • Workaholics –  como assumem tarefas demais, acreditam que darão conta de tudo. Não conseguem gerenciar o tempo;
  • Passivos ou dependentes – por medo de dizer ‘não’, de perderem algo ou alguém, não estabelecem limites. Assumem muitas coisas, têm de jogar com os prazos e às vezes estouram alguns;
  • Hedonistas – querem ‘curtir’ a vida, buscam o prazer primeiro, a curto prazo. Adiam tudo o que for desprazeroso. 

A procrastinação também é conhecida como  ‘síndrome do estudante’. E é curioso observar que, independente da idade, é só entrar no papel de estudante que alguns comportamentos retornam: deixa-se para estudar a sério apenas nas vésperas de uma prova ou concurso, tenta-se estender prazo de entrega de trabalho e terminá-los  perto do deadline.

Mas pessoas adultas também se comportam assim se quando mais jovens faziam isto, em um curso de pós-graduação. No entanto, a  médio e longo prazo, este comportamento provoca efeitos negativos para a autoconfiança, por exemplo.

Como surge a procrastinação

Estudos apontam que a tendência a procrastinar passa pela aprendizagem, por hábitos adquiridos ainda na infância, quando, em família, era permitido adiar as tarefas ‘desprazerosas’. 

Portanto, é importante que pais, mães e cuidadores estejam atentos para este comportamento. Procrastinação é uma característica de pessoas que desenvolvem o esquema de autodisciplina insuficiente. E que sofrem muito por isto.

Afinal, o tempo que usam estendendo o prazo, muitas vezes é passado com ruminações autocríticas e autodepreciação.    

Na palestra TED, Tim Urban conta a sua própria experiência como procrastinador.

A cultura reforçando a procrastinação

O ‘jeitinho brasileiro’ acaba favorecendo este comportamento, já que a impontualidade é tolerada em casamentos (já vi um noivo se atrasar, porque ficou na praia!). Shows em casas de espetáculos atrasam, para aumentar o consumo de comidas e bebidas. Muitos profissionais liberais marcam mais de um cliente no mesmo horário e os deixam esperando na antessala.  

Quando  finaliza a tarefa, em geral, a pessoa que procrastina fica aliviada. Mas, muitas vezes, intimamente, avalia que o resultado ficou aquém do que poderia ter ficado, se não tivesse deixado para o último prazo. Daí advêm outros pensamentos: “sou uma fraude”, “se me aprovaram com este lixo que apresentei, eles não são tão bons avaliadores”. Outros pensamentos geram culpa e  baixam a auto-estima. Pode haver mesmo uma autodesvalorização do que se  produziu, minimizando  o valor positivo do que foi realizado.

Procrastinação e trabalhos em equipe

Uma pessoa procrastinadora na equipe de trabalho pode comprometer todos os resultados. Neste caso, quem lidera a equipe deve  estabelecer prazos curtos. Ou dividir os projetos em etapas e ir cobrando por partes.

Para quem ‘enrola’, decididamente, trabalhar em projetos de que se goste é o principal antídoto para a procrastinação. O vídeo abaixo retrata o que muita gente experiencia. 

Algumas das  dicas mais eficazes:

– Crie uma rotina, com horários e tente cumpri-la. Se sair dela, volte o mais rapidamente possível (sem se culpar – apenas observe o que fez você se distrair).

– Espalhe post-its pela casa ou escritório, chamando a atenção de volta pro foco. 

– Elimine do campo de visão o que  normalmente distrai e tira do foco.

– Pratique meditação – se feita com regularidade, fica mais fácil perceber, no ato, quando se começa a adiar uma tarefa. Com consciência de que, se entrou naquele padrão, pode voltar ao objetivo inicial. Mais uma vez: não se julgue, apenas  observe. 

 Procrastinação na sociedade digital

Cada vez mais a internet contribui para a distração. Seja pelo smartphone, seja pela smartv (as séries de streaming colaboram muito…). Se possível, trabalhe offline. Caso não possa, algumas atitudes básicas:

  • Elimine joguinhos do computador e do celular;
  • Limite o acesso às redes sociais a horários específicos. Preferencialmente, deixe-as apenas no computador. Altere as configurações para não receber atualizações constantes. 
  • O smartphone, preferencialmente, deve ser deixado em outro ambiente – ou ser silenciado;
  • Use os aplicativos de gerenciamento de tempo online
  • Se assistir a alguma série, limite-se a assistir um episódio por vez .  

Com disciplina, consegue-se até uma horinha livre para cultivar o  necessário ócio. Ou várias outras, como propõe a expert em gerenciamento de tempo, Laura Vanderkam, em sua palestra TED.

E, quando você conseguir terminar aquilo a que se propôs no prazo – ou antes dele –, dê-se uma recompensa. 

A psicoterapia e a mudança de comportamento

Mudar hábitos antigos pode ser muito difícil, por conta própria. É preciso autoconsciência: “para que adio?“, “O que estou evitando?“. 

A psicoterapia ajuda a extinguir – ou, ao menos, diminuir bastante – a procrastinação, ao  identificar a causa e o tipo de distração favorita. Pode-se, a partir daí, estabelecer limites e prioridades: o que é realmente o mais importante? 

Ao aprender e aplicar as  técnicas de auto observação e de automonitoramento, alguns passos importantes são dados para a efetiva modificação dos comportamentos, sem tantos julgamentos e auto condenações. O/a cliente se  compromete com a mudança em direção aos próprios valores.

Para finalizar, é importante dizer que, havendo algum transtorno psicológico, a mudança pode ser mais demorada. Transtornos de ansiedade,  transtorno de déficit de atenção (TDAH), dentre  outros, atrapalham o gerenciamento de tempo – independente de quanto tempo se tenha disponível.

A psicoterapia pode ajudar a compreender o que se passa, caso a caso e, se necessário,  deve ser combinada com acompanhamento psiquiátrico. 

Se você se identificou e sofre por procrastinar, agende uma consulta.

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Thays Babo é psicóloga, Mestre em Psicologia Clínica pela Puc-Rio. Com formação em terapia cognitivo comportamental e extensão em terapia de aceitação e compromisso,  atende a jovens,  adultos e idosos, em terapia individual, de casal ou terapia pré-matrimonial.

Durante a pandemia de coronavírus, o atendimento é exclusivamente online. 

Procrastinação – um comportamento universal