O amor não vem pronto: não basta apenas olhar, gostar e ter reciprocidade. Isto é paixão, possível precursora do amor, muito valorizada graças ao ideário romântico, de que sempre se fala aqui. Mas, quer se queira ou não, a paixão tem tempo de validade (assista ao vídeo de Pedro Calabrez), como apontam neurocientistas, estudiosos da Psicologia e da Antropologia. Um relacionamento de amor, compromissado, demanda atenção, cuidado, carinho. E também muita flexibilidade psicológica – e cognitiva. Crenças amplamente divulgadas sobre o amor romântico e os mitos sobre o convívio amoroso precisam, então, ser avaliados e questionados.

Qualidade da relação – querendo ficar


Pesquisadores do The Gottman Institute, referência em terapia de casal há décadas, nos Estados Unidos, criaram um laboratório para observar a interação dos casais – o Love Lab (Laboratório do Amor). Concluíram que há sinais claros na comunicação de um casal que mostram se este permanecerá junto no futuro, em uma relação de qualidade. Uma das descobertas, que surpreende, é que nem sempre é bom continuar uma discussão quando o clima esquentou. Ir dormir ‘brigados’ pode ser melhor para que as ideias se assentem. Com distanciamento, pode-se ver mais claro e reconhecer quando houve exagero.


A comunicação é um bom indicador do futuro da relação. A quantas anda a comunicação com o seu par? Conseguem se ouvir, de forma compassiva e interessada? Falam de forma respeitosa? Ou se fecham e erguem muros?

Os Gottman também destacam que a atenção que se dá a quem se ama faz total diferença. Oferecem dicas preciosas, nada difíceis de implantar, para que o relacionamento dure. O cuidado diário é imprescindível, mais do que grandes gestos ou demonstrações. Provavelmente você já percebeu que é mais prazeroso ficar em uma relação em que se é bem tratado(a) e acolhido(a). Esta é uma necessidade básica de todos, por mais que se disfarce ou se queira manter a pose de autossuficiente.

Razões para querer desistir e partir

Segundo Zach Brittle, terapeuta de relacionamentos certificado pelo The Gottman Institute, quem está na dúvida se é hora de desistir de um relacionamento amoroso deve observar:
1. Quando se diz mais “eu” do que “nós”. 2. Quando há mais caos do que glória 3. Quando há mais decepção do que satisfação.

A decepção pode vir de coisas do dia-a-dia: alguém que não cuida da casa, por exemplo. Por mais triviais que sejam, tais cuidados básicos contribuem para a felicidade conjugal, independente da orientação sexual.  Compartilhar as tarefas domésticas,  e em especial no momento em que um casal tem filhos, traz grande alívio para a  mulher que,  cansada – e, por vezes, irritada – muitas vezes se afasta do par. Não por acaso, o nascimento de uma criança muitas vezes coincide com o momento de separação – por mais que a gestação tenha sido desejada por ambas as pessoas. Como o filósofo Alain de Botton disse, de forma bem humorada “Nenhum poeta romântico, escritor ou artista jamais mencionou lavar roupas“.  Dividir tarefas libera mais tempo para que a outra pessoa também possa cuidar de si, mantendo a autoestima. Tais ações colaboram para o melhor humor e podem servir de combustível para a relação continuar boa. 

Outro motivador para partir é a descoberta de algum episódio de  infidelidade.  Como alguns terapeutas de casal vêm apontando, a sociedade contemporânea, principalmente na era digital, passa valores inconciliáveis –  supervaloriza  a paixão, estado que tira as pessoas da sanidade total, como mostrado no vídeo de Calabrez –  mas quer a segurança que a paixão não traz.   Psicólogos, sociólogos e filósofos vêm questionando a importância de se reconsiderar e repensar o que é afinal fidelidade e lealdade. A psicoterapeuta Esther Perel, belga que atende em Manhattan, cada vez está mais presente nas mídias,  falando sobre o assunto, de forma compreensiva e compassiva.  Seus livros  rapidamente viram best sellers, e parte do que fala no livro está nesta palestra TED 

Nesta palestra, Perel mostra que o conceito de infidelidade deve ser repensado. 

Se você está em um relacionamento amoroso e está em dúvida sobre se deve mantê-lo ou sobre o que pode fazer para melhorá-lo, procure ajuda psi. Se seu par demonstrar abertura para investigar o que cabe fazer pelo relacionamento, não tendo medo de expor suas vulnerabilidades, a terapia de casal (ou a pré-matrimonial) é uma boa indicação. Pense a respeito , comunique-se e invista na qualidade da sua relação.

Thays Babo é  Mestre em Psicologia Clínica pela Puc-Rio, com formação em terapia cognitivo-comportamental (TCC),  pelo CPAF-RIO e extensão em ACT (Terapia de Aceitação e Compromisso),  pelo IPq (USP). Atende a jovens e adultos em terapia individual, terapia de casal e terapia pré-matrimonial,  em Copacabana.

Relacionamentos amorosos – quando ficar, quando partir?