Desde a Antiguidade já se conhece a estreita relação entre mente e corpo. Portanto, você deveria dedicar igual atenção à saúde física e à saúde mental. O que você tem feito como autocuidado?

Mens sana in corpore sano

O poeta romano Juvenal disse: “Deve-se pedir em oração que a mente seja sã num corpo são“.  Orações, apenas, não bastam.  É preciso compromisso com o autocuidado. 

Nos cursos de graduação,  corpo e mente são tratados separadamente, não havendo  um olhar filosófico. Muitos profissionais da Medicina ainda desprezam a importância das questões emocionais. Em parte porque não são preparados, durante a graduação, para lidar com elas.

A bem da verdade, a maioria mal lida com suas próprias questões.  Aqueles que conseguem perceber  que as emoções afetam seus pacientes eventualmente indicam  para psicoterapia. Há os que não sugerem, por preconceito ou temer rejeição da clientela. Tratam muitas vezes apenas medicamentosamente – mas não vão no que mantém o sintoma. 

E aí, infelizmente, podem manter o quadro, já que a causa inicial não foi tratada.

Saúde física e estética

Na  era  digital,  estética, a imagem e os  padrões de beleza vigentes recebem muita atenção. Investe-se muito dinheiro em dietas mirabolantes, tratamentos estéticos e até cirurgias.  Chega-se ao ponto do endividamento. Sacrifica-se o cuidado com  a mente para poder estar bem esteticamente.

É uma pena quando o que mais se valoriza é a forma do que o conteúdo. Até porque todo mundo sabe da existência dos programas de edição de imagem – que agora incluem inclusive os vídeos. Sacrificar-se com  dietas da moda – sem eficácia a longo prazo -, usando  inibidores de apetite – muitas vezes sem acompanhamento médico – ou com exercícios em excesso na verdade está a serviço do que? Do que se foge? 

A pouca aceitação do corpo pode contribuir para quadros de ansiedade, depressão e transtornos alimentares, dentre outros. 

As redes sociais e o impacto na saúde mental

Cada vez mais pesquisas apontam  que o uso excessivo das redes sociais afetam muito a saúde mental, sendo o instagram uma das mais criticadas. Ao seguirem   celebridades, internautas se desesperam com a própria imagem, porque se comparam. Estabelecem ideais estéticos mas não gastam com a mente o mesmo tempo investido para  cuidar do corpo. 

Influenciadores digitais – no Youtube, Facebook e Instagram –  enriquecem com a hipervalorização da imagem. Mas eles mesmos não são imunes aos transtornos mentais. Uma conhecida influencer se suicidou, chocando seus seguidores.

Cuide do seu corpo, sim, mas não esqueça da sua mente. O que ela pensa afeta o seu corpo
A preocupação com a estética do corpo muitas vezes suplanta a que se deve ter com a saúde – seja física ou mental – foto de Jennifer Burk at Unplash

Ou seja, de nada adianta ter milhares de seguidores, ou ser esteticamente muito atraente se, internamente, você está em frangalhos emocionalmente. Você precisa se ver como um todo. E cuidar de si como um todo. 

Psicofobia – o preconceito contra os problemas de ordem mental

Mesmo entre pessoas de boa escolaridade,  há quem ainda acredite que psicoterapia seja para gente ‘maluca’, ‘sem amigos’, ‘que não tem mais o que fazer’.  Portanto, é ótimo quando pessoas bem sucedidas vêm a público dar testemunho de suas histórias pessoais. Recentemente o youtuber Whindersonn Nunes falou da sua depressão.

E é importante combater a psicofobia.

Guy Winch, Doutor em Psicologia, aponta a necessidade de termos mais cuidados com nossa saúde mental. Obviamente,  cuidados físicos são necessários, inclusive para nossa sobrevivência. Mas não é sábio  relegar sua  saúde mental a um segundo plano. 

Winch fala da importância de uma higiene emocional, ou seja, uma especial atenção ao tipo de pensamentos que se têm.  A pessoa precisa :

  • parar de  alimentar pensamentos auto depreciativos e derrotistas – estes aumentam  o risco de transtornos como a depressão. Muitos destes pensamentos  nem são verdadeiros. 
  • parar de repassar cenas ou falas (comportamento conhecido como   ruminação).

Higiene emocional e a saúde mental

Reconhecer este tipo de pensamentos e o quanto eles são inadequados é difícil para quem já os mantêm há muito tempo. A falta do distanciamento para observar este padrão disfuncional também dificulta a identificação dos pensamentos negativos e falsos. 

Abordagens psicoterápicas como a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC)  e a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) facilitam bastante  a conscientização sobre o que se pensa e também sobre a utilidade do que se pensa. 

A meditação será um bom auxiliar do processo. 

Autocuidado o ano inteiro

O final do ano aumenta a melancolia que muitas pessoas sentem . Assim, os especialistas deram algumas dicas para autocuidado  que, na verdade,  devem ser aproveitadas o ano inteiro. Eles aconselham a

  • Ter gratidão – pelo trabalho (ainda que estressante), pelas relações (ainda que tensas, mas que são importantes no resto do ano) 
  • Dizer ‘não’, quando realmente achar que não vai ser uma boa companhia. Respeite-se e esteja consciente das suas necessidades. 
  • Exercitar-se – caminhadas no shopping não contam como atividade física que, comprovadamente, ajuda a melhorar o humor. Médicos têm indicado 150 minutos de atividade física por semana – no mínimo
  • Detox digital –  reduzir o consumo de mídias sociais (especialmente o Instagram) pode aumentar o bem estar. 
  • Ter abertura para novas tradições – e tire o foco de você,  ajude outras pessoas. 
  • Cuidar da   alimentação – observe as desculpas que você se dá para exagerar. E, se antes de eventos,  você comer algo  chance de comer compulsivamente diminuirá  

Fica a dica. Mas se você não está conseguindo fazer nada disto, por conta própria, considere experimentar a psicoterapia. Ela pode ajudar a mudar hábitos, observando seus padrões mentais e lidando melhor com eles, com mais autoaceitação e autocompaixão. Desta forma, você poderá se comprometer com seus valores e agir de forma a ter maior realização pessoal. 

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Thays Babo é Mestre em Psicologia Clínica pela Puc-Rio, com formação em TCC pelo CPAF-RIO e extensão em Terapia de Aceitação e Compromisso pelo IPq (USP). Atende a jovens e adultos em terapia individual, pré-matrimonial ou de casal, em Copacabana.

Saúde física vs saúde mental – qual a sua prioridade?

2 ideias sobre “Saúde física vs saúde mental – qual a sua prioridade?

  • 03/06/2019 em 16:24
    Permalink

    As mídias sociais exercem cada vez mais influência sobre o modelo de beleza, mesmo em detrimento da saúde mental. O aumento da bulimia e outras mazelas são consequências disso. Essa inversão de valores é perigosa. Além de prejudicar a qualidade de vida dos que seguem a beleza a qualquer custo, podem pagar muito caro por isso.
    Desculpe, Vinícius, mas saúde mental é que é fundamental.

  • 10/06/2019 em 16:24
    Permalink

    obrigada pelo comentário, Eduardo, eu também me preocupo com a maior preocupação na estética e na beleza do que em outros valores.

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