Cuidados de prevenção à saúde mental ainda são raros no Brasil. Mas o que pode contribuir para melhorá-la? Mudar seu estilo de vida, adotar hábitos saudáveis – como alimentação balanceada, atividades físicas, meditação (e também psicoterapia) são alguns exemplos de comportamentos que melhoram sua saúde mental.

Mas existem outros fatores, que você não controla, que podem predispor a um transtorno mental, como ansiedade ou depressão. E é bom que fique claro o que uma doença mental não é.

Não é ‘preguiça’, não é ‘falta de amigos’ nem falta de ‘Deus no coração’. Aliás, afeta pessoas religiosas, inclusive.

Transtornos mentais também não são exclusivos de pessoas “fracassadas”: pessoas famosas, de destaque e bem sucedidas têm, cada vez mais, vindo a público revelar que recorreram à ajuda profissional, para crises pessoais.

Alguns exemplos são a cantora Pink, a ex primeira dama americana, Michelle Obama – que revelou que já recorreu à terapia de casal – e mesmo Michael Phelps. Maior medalhista da história dos Jogos Olímpicos, Phelps e engajou em campanhas de esclarecimento sobre a necessidade do cuidado com a saúde mental, tornando-se garoto propaganda de uma plataforma de atendimento psicoterápico online (para celular e web).

Quem cuida de quem cuida

Em tempo: por mais surpreendente que possa parecer, profissionais da saúde mental também precisam de cuidados. Ou seja, ninguém é imune. Qualquer pessoa pode precisar de atendimento psicológico. E sempre será melhor (e mais barato) prevenir do que remediar.

Aumento de suicídios

Em 2016, a família real britânica lançou uma campanha sobre a importância de cuidar da saúde mental (hashtag #headstogether). Os príncipes falam das respectivas experiências pessoais. Em janeiro de 2019, o príncipe Williams falou mais sobre o assunto no Forum Econômico Mundial de Davo.


O duque e a duquesa de Cambridge and Prince Harry no lançamento da campanha Heads Together – abril de 2016, Londres. Foto de Nicky J Sims em Getty Images

Depoimentos de pessoas que têm destaque e sucesso ajudam a combater o preconceito contra portadores de transtornos mentais – a psicofobia. E nos faz pensar se o número de pessoas com sofrimento mental não é muito maior do que o que é estimado. Se não houvesse preconceito e vergonha, provavelmente seria bem maior.

Em 2018, dois suicídios causaram espanto em todo o mundo: o de Anthony Bourdin (chef americano, escritor e apresentador) e o da estilista Kate Spader. Muitos casos não são divulgados por causa do estigma que envolve este ato.

Preconceito – psicofobia

Portadores de transtornos mentais são estigmatizados e, por isto, muitas pessoas que deveriam procurar ajuda psi não o fazem. Responsáveis por crianças, por não aceitarem a condição do filho ou da filha – ou por não quererem assumir a responsabilidade emocional que têm no adoecimento dele(a)s acabam fazendo com que a criança seja mais afetada. Às vezes, só por indicação da escola – ou de um/a médico/a – irão em busca de ajuda.

Não tratar não cura. Não querer saber o que se tem, não ajuda. Pelo contrário, pode agravar o quadro e prejudicar o desenvolvimento. A autoestima e a autoconfiança ficam comprometidas por toda a vida.

O preconceito faz com que muitas pessoas, ao invés de buscarem profissionais da saúde mental, como psiquiatras ou psicólogxs, consultem outros especialistas, para evitar o rótulo e não se sentirem “malucas”. Mais arriscado ainda é quando acaba confiando apenas em tratamentos alternativos e espirituais, esperando que a questão se resolva magicamente.

Mudanças no mundo corporativo

Para evitarem críticas, piadas ou julgamento, muitas pessoas escondem da chefia (bem como da família, amigos e amores) sua condição mental, até chegarem ao seu limite. Com isto, muitas não conseguem aderir a um tratamento prolongado como a psicoterapia que, inicialmente, costuma ser semanal.

Não tratar da saúde mental pode, a médio ou longo prazo, causar a demissão, por causa de ausências ou baixa produtividade. Há pouco tempo, um executivo passou a deixar na sua agenda de trabalho a marcação de suas consultas. Ao expor sua vulnerabilidade (que todos temos mas não assumimos), considerou que se tornou um chefe melhor e estimulou que seus colaboradores também reconhecessem suas questões e buscassem ajuda. 

Felizmente, algumas empresas investem no cuidado de seus colaboradores, oferecendo programas de saúde mental , com algumas sessões de psicoterapia focadas na questão principal. Tais programas, em geral, dão prioridade à terapia cognitivo-comportamental, podendo também incluir programas de mindfulness, hoje considerado um importante coadjuvante em tratamentos terapêuticos e também em programas de desintoxicação. Apesar do principal motivo ser a preocupação com a produtividade (transtornos de ansiedade e depressão causam afastamento e prejudicam as metas), e não a qualidade de vida dos funcionários, estes acabam se beneficiando.

Medicação – será mesmo necessária?

O pavor da prescrição de medicamentos psiquiátricos afasta muita gente dos consultórios dos profissionais de saúde mental. Em primeiro lugar, é importante esclarecer que a prescrição de medicamentos cabe apenas a quem se graduou em Medicina. No caso dos remédios psiquiátricos, o ideal é buscar quem tenha esta especialidade, mas, por preconceito, pessoas pedem receitas para profissionais das mais diversas especialidades.

Resistir à ideia de tomar uma medicação pode ser tema de algumas sessões de psicoterapia. Há uma resistência, por preconceito ou por medo de ter de tomar remédio ‘para sempre’. O medo dos efeitos colaterais também pesa. Muitas pessoas desconhecem que o uso do remédio pode ser temporário, dependendo do caso.

Ao continuar o acompanhamento psi,  a medicação pode ser ajustada, reduzida, ou até suspensa depois de um tempo, com a orientação do/a psiquiatra. Mas a adesão ao tratamento é fundamental, bem como mantê-lo durante o tempo determinado, não parando de repente, sem acompanhamento médico.

Você sabe o que é psicofobia?

Medicação – precisa mesmo?

Nem tudo precisa ser medicado. É preciso saber distinguir. Não existe um remédio para tristeza, emoção absolutamente normal, quando perdemos alguém, ou alguma coisa – ou mesmo quando adoecemos. Nem para uma pequena ansiedade, que não paralise. Algumas dores são importantes de serem sentidas – por mais que isto possa parecer “masoquista”. Elas podem mesmo fortalecer. Um critério diagnóstico costuma ser o tempo que os sintomas se apresentam. E também se eles impedem as atividades.

Aceitação do que a vida apresenta parece ser uma das condições para uma vida mais plena – ou mais “feliz”. É um aprendizado necessário mas muitas pessoas recusam a ideia, tão contrária ao que se prega no Ocidente, do conforto a qualquer preço. Na psicoterapia, é trabalhada, entre outras coisas, a aceitação – dos fatos da vida e, inclusive que, em alguma medida, a pessoa poderá ter sempre um nível de ansiedade – e tudo bem. Aceitação é, no entanto, muito  diferente de resignação. A conhecida Oração da Serenidade se assemelha aos pressupostos da Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT, em inglês), sendo um pedido sábio para obter a “serenidade necessária para aceitar as coisas que não posso modificar, coragem para modificar aquelas que posso, e sabedoria para distinguir umas das outras”.  

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Thays Babo  atende em Copacabana (e também on-line), a jovens e adultos em terapia individual, terapia de casal e pré-matrimonial.

Mestre em Psicologia Clínica, pela Puc-Rio, tem formação em TCC, extensão em Terapia de Aceitação e Compromisso pelo IPq (USP) e é associada à ACBS (Association for Contextual Behavioral Science). 

Saúde mental – não descuide da sua
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