Você sabe o que é um transtorno mental, como ansiedade ou depressão? Vou dizer o que não é. Não é ‘preguiça’, não é ‘falta de amigos’ nem falta de ‘Deus no coração’. Aliás, afeta pessoas religiosas, inclusive. Também não está diretamente relacionado a pessoas “fracassadas”: pessoas famosas, de destaque e bem sucedidas têm, cada vez mais, vindo a público revelar que recorreram à ajuda profissional, para crises pessoais, como a cantora Pink, ou mesmo de relacionamento – a exemplo da ex-primeira dama americana, Michelle Obama. Em tempo: por mais surpreendente que possa parecer, profissionais da saúde mental também precisam de cuidados. Então, qualquer pessoa pode precisar de atendimento psicológico. Melhor prevenir do que remediar.

Aumento de suicídios

Em 2018, dois suicídios causaram espanto em todo o mundo: o de Anthony Bourdin (chef americano, escritor e apresentador) e o da estilista Kate Spader. Muitos casos não são divulgados por causa do estigma que envolve este ato.

Em 2016, a família real britânica lançou uma campanha sobre a importância de cuidar da saúde mental (hashtag #headstogether). Os príncipes falam das respectivas experiências pessoais. Em janeiro de 2019, o príncipe Williams falou mais sobre o assunto no Forum Econômico Mundial de Davo.


O duque e a duquesa de Cambridge and Prince Harry no lançamento da campanha Heads Together – abril de 2016, Londres. Foto de Nicky J Sims em Getty Images

Michael Phelps, o maior medalhista da história dos Jogos Olímpicos, também se engajou em campanhas de esclarecimento sobre a necessidade do cuidado com a saúde mental, tornando-se garoto propaganda de uma plataforma de atendimento psicoterápico online (para celular e web). Depoimentos de pessoas que têm destaque e sucesso ajudam a combater o preconceito contra portadores de transtornos mentais – a psicofobia. E nos faz pensar se o número de pessoas com sofrimento mental não é muito maior do que o que é estimado. Se não houvesse preconceito e vergonha, provavelmente seria bem maior.

Preconceito – psicofobia

Portadores de transtornos mentais são estigmatizados e, por isto, muitas pessoas que deveriam procurar ajuda psi não o fazem. Responsáveis por crianças, por não aceitarem a condição do filho ou da filha – ou por não quererem encarar a sua própria condição, acabam fazendo com que a criança seja mais afetada. Às vezes, só por indicação da escola – ou de um/a médico/a – irão em busca de ajuda.

Não tratar não cura. Não querer saber o que se tem, não ajuda. Pelo contrário, pode agravar o quadro e prejudicar o desenvolvimento. A autoestima e a autoconfiança ficam comprometidas por toda a vida.

O preconceito faz com que muitas pessoas, ao invés de buscarem profissionais da saúde mental, como psiquiatras ou psicólogxs, consultem outros especialistas, para evitar o rótulo e não se sentirem “malucas”. Mais arriscado ainda é quando acaba confiando apenas em tratamentos alternativos e espirituais, esperando que a questão se resolva magicamente.

Mudanças no mundo corporativo

Algumas empresas investem no cuidado de seus colaboradores, oferecendo programas de saúde mental , com algumas sessões de psicoterapia focadas na questão principal. Tais programas, em geral, dão prioridade à terapia cognitivo-comportamental. Outras investem em programas de mindfulness, hoje considerado um importante coadjuvante em vários transtornos, e também em programas de desintoxicação. Apesar do principal motivo ser a preocupação com a produtividade (transtornos de ansiedade e depressão causam afastamento e prejudicam as metas), e não a qualidade de vida dos funcionários, estes acabam se beneficiando. Para evitarem críticas, piadas ou julgamento, muitas pessoas escondem da chefia (bem como da família, amigos e amores) sua condição. Com isto, muitas não conseguem aderir a um tratamento prolongado como a psicoterapia que, inicialmente, costuma ser semanal. E podem, a médio ou longo prazo, perderem emprego, por causa das faltas. Recentemente, um executivo passou a deixar na sua agenda de trabalho a marcação de suas consultas. Expondo assim a sua vulnerabilidade (que todos temos mas não assumimos), considera que se tornou um chefe melhor e estimulou que seus colaboradores também reconhecessem suas questões e buscassem ajuda. 

Medicação – será mesmo necessária?

O pavor da prescrição de medicamentos psiquiátricos afasta muita gente dos consultórios dos profissionais de saúde mental. Em primeiro lugar, é importante esclarecer que a prescrição de medicamentos cabe apenas a quem se graduou em Medicina. No caso dos remédios psiquiátricos, o ideal é buscar quem tenha esta especialidade, mas, por preconceito, pessoas pedem receitas para profissionais das mais diversas especialidades.

Resistir à ideia de tomar uma medicação pode ser tema de algumas sessões de psicoterapia. Há uma resistência, por preconceito ou por medo de ter de tomar remédio ‘para sempre’. O medo dos efeitos colaterais também pesa. Muitas pessoas desconhecem que a tomada do remédio pode ser temporária, dependendo do caso. Ao continuar o acompanhamento psi,  a medicação pode ser ajustada, reduzida, ou até suspensa depois de um tempo, com a orientação do/a psiquiatra. Mas a adesão ao tratamento é fundamental, bem como mantê-lo durante o tempo determinado, não parando de repente, sem acompanhamento médico.

Você sabe o que é psicofobia?

Medicação – precisa mesmo?

Nem tudo precisa ser medicado. É preciso saber distinguir. Não existe um remédio para tristeza, emoção absolutamente normal, quando perdemos alguém, ou alguma coisa – ou mesmo quando adoecemos. Nem para uma pequena ansiedade, que não paralise. Algumas dores são importantes de serem sentidas – por mais que isto possa parecer “masoquista”. Elas podem mesmo fortalecer. Um critério diagnóstico costuma ser o tempo que os sintomas se apresentam. E também se eles impedem as atividades.

Aceitação do que a vida apresenta parece ser uma das condições para uma vida mais plena – ou mais “feliz”. É um aprendizado necessário mas muitas pessoas recusam a ideia, tão contrária ao que se prega no Ocidente, do conforto a qualquer preço. Na psicoterapia, é trabalhada, entre outras coisas, a aceitação – dos fatos da vida e, inclusive que, em alguma medida, a pessoa poderá ter sempre um nível de ansiedade – e tudo bem. Aceitação é, no entanto, muito  diferente de resignação. A conhecida Oração da Serenidade se assemelha aos pressupostos da Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT, em inglês), sendo um pedido sábio para obter a “serenidade necessária para aceitar as coisas que não posso modificar, coragem para modificar aquelas que posso, e sabedoria para distinguir umas das outras”.  


Thays Babo é Psicóloga Clínica, Mestre pela Puc-Rio, com formação em TCC e extensão em Terapia de Aceitação e Compromisso pelo IPq (USP), membro da ACBS (Association for Contextual Behavioral Science. Atende a jovens e adultos em terapia individual, de casal e pré-matrimonial,  em Copacabana.

Saúde mental – não descuide da sua
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