Um amor inesperado é um filme argentino, que fez bastante sucesso no Brasil, no início de 2019. Durante a pandemia, é uma boa opção de filme. Além do mais, conta com Ricardo Darín no elenco.

Mas existem outros bons motivos, além do ator.

Um amor… pode ser uma filmoterapia para casais que já criaram filhos e estão passando pela síndrome do ninho vazio. O longa conta a história de um casal, Ana (Mercedes Morán) e Marcos (Ricardo Darín), cujo único filho vai estudar no exterior.

Quando o rapaz parte, começam a discutir a relação e analisar o casamento. Percebem que lhes falta paixão, após tantos anos de bom convívio. A saída do filho desequilibrou a harmonia.

Caso você ainda não tenha visto o filme, continue a leitura depois de assistir, por causa dos spoilers.

O casamento de Ana e Marcos “funcionava” bem. Até a vida sexual do casal era satisfatória, o que costuma ser queixa de muitos casais estáveis. E, de repente, para surpresa de todos, o casal decide se separar, sem nenhuma causa aparente.

A causa da separação pode parecer frívola: em uma conversa casual, perguntam-se para quê continuar. Qual o significado de continuarem juntos, sem estarem apaixonados? Ana é quem provoca a discussão. Como muitas mulheres, cujo principal objetivo para casar é ter filhos, quando seu papel na família muda, entra em crise.

Sem ter seu filho por perto o seu para cuidar, diariamente, começa a se questionar. Fica intolerante com coisas pequenas, que suportou muitos anos. Talvez Ana tenha sentido inveja da mãe, octogenária, que redescobre a paixão.

Um amor inesperado nos faz crer que talvez sejam mesmo as mulheres as maiores vítimas das crenças que o amor romântico instilou.

Como já comentado no blog, as expectativas que o amor romântico trouxe para o casamento são um tanto quanto perigosas, gerando muita frustração. Tem-se de um lado a supervalorização da excitação, permanente, da paixão.

A neuroquímica da paixão

A paixão é mesmo viciante; segundo os neurocientistas, funciona como uma droga. Quando a paixão acaba – e isto acontece bem rápido -, provoca a privação dos neurotransmissores liberados inicialmente. Pedro Calabrez a compara com uma demência temporária. Passada a paixão, muitas pessoas deixam um relacionamento e partem em busca de outro. A visão não é nada romântica, mas precisa ser considerada.

Um casal que já passou pela paixão e se separa muitos anos depois causa estranheza (e medo) entre os casais amigos e na família – que podem passar a se questionar, também. De certa forma, Ana não percebeu os 25 anos passando, pois colocou sua atenção e afeto principalmente na educação do filho (como tantas mulheres que você conhece).

Marcos, com uma visão existencialista, percebe os benefícios da partida do rapaz, não buscava a paixão. Acreditava que a nova fase traria vantagens. Mas Ana foi ficando mais intolerante com os comportamentos do companheiro (atraso e preferência por determinados sabores de empanadas).

A paixão se opõe, muitas vezes, à necessidade de segurança, pertencimento, acolhimento. Quando decidem a separação, Ana busca a liberdade, acima de tudo. Marcos, sem tanta certeza, lamenta, quer mais a segurança. Bauman descreveu muito bemo conflito entre liberdade e segurança, característico do relacionamento amoroso na contemporaneidade.

Relacionamentos amorosos na era digital

As experiências amorosas/sexuais que Ana e Marcos têm a partir da separação são divertidas. Redes sociais e aplicativos de relacionamento (como Tinder e Instagram) não poderiam ficar de fora da discussão. Mesmo jovens usuários destes aplicativos poderão se reconhecer em algumas situações, mesmo sem nunca terem tido um casamento.

Excesso de pensamento

Um amor inesperado pode servir como excelente filmoterapia, ajudando casais que se encontrem nesta fase do casamento. Ou para quem acaba de se separar – tanto para poder planejar o que fazer quanto também para analisar e ver se a decisão foi impulsiva ou amadurecida.

Muitas vezes os nossos pensamentos (crenças e ideais) são os causadores do sofrimento, predominantemente mental. E muito do sofrimento é desnecessário, quando há maior clareza das ideias. O título original é Um amor menos pensado. Fica a dica.

Aplicando isto ao filme, percebe-se que tudo ia bem, mas quando ambos começam a pensar – baseados nos padrões e expectativas românticos – começam a se comparar e acreditam que podem ser mais felizes.

Spoiler – pare aqui, se ainda não viu

É verdade que Ana e Marcos cresceram após a separação. Também tiveram a incrível sorte de serem suficientemente flexíveis e aceitarem um ao outro com suas respectivas histórias. Muitas pessoas não cogitariam perdoar as aventuras amorosas e sexuais, ainda que no momento de separação tenha sido amistoso e consensual. Haja flexibilidade psicológica e cognitiva – algo que falta para muitos casais.

E você? Assistiu? O que lhe chamou a atenção, o que desagradou? A quantas anda o seu relacionamento e como você pode melhorá-lo? Deixe sua opinião.

Thays Babo é  Mestre em Psicologia Clínica pela Puc-Rio, com formação em terapia cognitivo-comportamental (TCC),  pelo CPAF-RIO e extensão em ACT (Terapia de Aceitação e Compromisso),  pelo IPq (USP).

Durante a pandemia de coronavírus, apenas atendimento on-line – a a jovens e adultos em terapia individual, terapia de casal e terapia pré-matrimonial.

Um amor inesperado

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