Em termos históricos, a compatibilidade sexual só se tornou recentemente um dos principais fatores para que um relacionamento afetivo se transforme em casamento e se constitua uma família. A atração sexual recíproca entre marido e mulher era pouquíssimo valorizada, não sendo também o fator de manutenção do casamento. A sociedade o mantinha, sob forte controle e pressão, pela religião e pela economia. A felicidade, perseguida exaustivamente hoje, era secundária. Manter as propriedades e gerar filhos era o que importava. Aos homens, se ensinava que se deveria separar amor de sexo. Eram de certa forma “autorizados” a realizarem suas fantasias  com outra/s mulher/es, sem resquício de culpa. Não tinham interesse ou preocupação de que a mulher (oficial ou não) tivesse prazer. Da mulher, exigiam-se  pureza e castidade. Sua virgindade era vigiada até o casamento e a  mulher que tivesse relacionamento sexual antes de se casar trazia a vergonha para a família, se descoberta. Poderia ser expulsa de casa ou encaminhada para um convento. Assim, a maioria se comportava dentro do que era previsto.

  • Dupla Moral

Até bem pouco tempo, a traição do homem  era plenamente aceitável. A da mulher, nunca. Para as mulheres,   sexo era obrigação, para servir ao marido. Com pouco empenho do homem em dar prazer, a maioria das mulheres  encarava o sexo como um sacrifício necessário para sua sobrevivência. A fidelidade garantia que o homem não sustentaria filhos de outro.  Se traísse, poderia ser morta. Apesar do feminicídio continuar existindo, não é mais legitimado.

  • Revolução sexual

A partir do surgimento da pílula, na metade do século 20, a sexualidade passou por uma revolução. Reduzindo o risco de engravidar e com as infecções sexualmente transmissíveis (IST´s) relativamente controladas, as mulheres passaram a ter maior  liberdade sexual. Porém,  na década de  80, com o surgimento da AIDS, a liberdade sexual sofreu um  baque. Apesar dos grandes avanços no tratamento da síndrome desde então,  outras IST´s aumentaram – como HPV, hepatite C e a sífilis, que  está mais resistente a tratamento mas isto é tema para outro post).

  • Ideal Romântico e os problemas conjugais na atualidade

Muitos ideais e crenças surgidas a partir do Romantismo ainda influenciam os relacionamentos amorosos, não sendo, em geral,  discutidos às claras na fase de namoro. Após o casamento, podem minar a felicidade conjugal. Portanto,  a comunicação do casal é importantíssima para a qualidade do vínculo amoroso e, também, da vida sexual. A escuta  compassiva e atenta,  sem acusações ou pré-julgamentos, é fundamental para a felicidade amorosa. Caso contrário, pode haver  separação ou a manutenção de um casamento  de fachada,  infeliz entre 4 paredes, mantido em nome da estabilidade financeira ou pela preocupação com o futuro dos filhos em comum.

Surpreendentemente, há casais que optam em não mais se relacionarem sexualmente, ou reduzem a prática sexual ao mínimo. Os motivos podem ser os mais diversos possíveis:

  • incompatibilidade de desejos – pode ser em relação à preferência de posições, fantasias, horários ou até frequência;
  • disfunções sexuais – principalmente na fase do desejo ou da excitação – que geram bastante ansiedade de desempenho;
  • cansaço pelas atividades do dia-a-dia;
  • descoberta de infidelidade;
  • prioridade sobre a educação e bem-estar dos filhos
  • vergonha do próprio corpo (caso esteja muito acima ou muito abaixo do que considera seu corpo ideal);
  • crenças religiosas;
  • doenças físicas ou psíquicas – depressão, por exemplo, afeta a libido;
  • crença de que sexualidade tem uma idade para ser vivenciada e que já ‘passaram’ da fase.

 

se a diferença do nível de desejo dos parceiros for muito grande, pode haver problemas no casamento.

 

  • Quando a infidelidade acontece

Quando a decisão de manter o casamento assexuado é unilateral,  as chances de que a pessoa, que não fez esta escolha, venha a ter um caso extraconjugal aumentam. Porém, a exclusividade sexual segue sendo exigida na maioria das relações – ainda que  difícil de se manter. Ou seja, apesar da revolução sexual e da recente revolução da comunicação causada pelo smartphone, a expectativa do comportamento sexual continua sendo o da monogamia e, portanto, relacionamentos paralelos não são tolerados. Dada a dificuldade de manter a promessa de fidelidade, o relacionamento termina e parte-se em busca de outro,  com a mesma exigência – vindo daí o termo monogamia sequencial ou monogamia em série.  

Além da fidelidade física, que é tão difícil de controlar ou monitorar,  existe uma tentativa ainda mais difícil de controlar o desejo da outra pessoa. A música Seu espião, do grupo Kid Abelha, mostra bem a preocupação do que o outro sonha. 

 

No ideal romântico,  espera-se que  a pessoa deseje seu par exclusivamente, para todo o sempre.  Muitas pessoas consideram traição se seu par  mantém conversas, sexualizadas ou não, por internet ou pessoalmente com outra pessoa.  O simples fato de descobrir que o par tem  alguma fantasia (mesmo não realizado) pode gerar  uma crise no relacionamento, e terminar em  separação. Vários estudiosos do casamento também consideram um tipo de infidelidade, mas é bom lembrar que cada casal deve estabelecer suas regras, conversando, preferencialmente antes de formalizar um compromisso. Conversar sobre regras – possíveis e atingíveis -,  valores individuais e do casal pode contribuir para fortalecer o vínculo. Conhecer as fantasias de seu par e dar a conhecer as suas, de  forma confortável, aceitadora e sem julgamento, aproxima o casal. É importante frisar que nem todas as fantasias precisam ou devem ser realizadas principalmente se uma das partes não concorda ou tem aversão à ideia. Mas  saber e aceitar que seu par tem fantasias – e que algumas  podem não incluir você – aumenta a cumplicidade do casal. 

Portanto, se você ainda não se casou, procure  conversar com seu par antes sobre o que você espera, sobre seus valores e expectativas. Procure conhecer quais orientam a pessoa com quem você quer se unir.  Afinal, como amar quem não se conhece? Como aceitar o outro como ele é se às vezes nem sabemos quem nós mesmos somos? Como ter desejo continuado por alguém que não se interessa em saber o que pensamos ou sentimos? 

Para casais que já estão vivendo uma crise conjugal, a terapia de casal ajuda a refazer os acordos, (re)estabelecer a comunicação e, com isto,  ´é possível voltar a  ter uma vida a dois  prazerosa e feliz. Ou, caso o final seja inevitável, ajuda a estabelecer boas condições para que isto aconteça de forma amigável para ambas as pessoas.

terapia pré-matrimonial é uma variação da terapia de casal que vem aumentando bastante e ajuda a estabelecer a comunicação de forma clara e assertiva. Ela pode ajudar na decisão de oficializar o relacionamento e também alinhar as expectativas de cada pessoa quanto ao relacionamento, minimizando problemas futuros na relação e a possibilidade de divórcio. Se você quiser saber mais, agende uma consulta. 

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Thays Babo é Psicóloga Clínica, Mestre pela Puc-Rio na linha de Família e Casal. Fez formação em TCC no CPAF-RIO e extensão em Terapia de Aceitação e Compromisso no IPq (USP). Atende a jovens e adultos em terapia individual, de casal ou pré-matrimonial, no Centro do Rio e em Copacabana.
Casamento e felicidade sexual – é possível conciliar?
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