Premiadíssimo no Oscar 2009, Slumdog Millionaire – que, no Brasil, recebeu o título Quem quer ser um milionário?, em referência ao programa dentro do filme – conquistou as duas principais estatuetas (Melhor Filme e Melhor Diretor), dentre outras. Mas dividiu as críticas. Reescrevo a resenha em 2011, dois anos depois de ter visto o filme pela primeira vez.

Muito se falou que o prêmio simbolizava a aproximação dos EUA do resto do mundo, com atores e diretores não americanos premiados. Acompanhando os comentários sobre os prêmios, vários especialistas apontaram que naquele ano de 2009 houve a preocupação em contemplar os vários países para, com isto, também aumentar a audiência da cerimônia. E, convenhamos, premiar uma produção ambientada na Índia não deixa de ser mercadologicamente importante. O mercado indiano não é nada desprezível, tanto por ser uma economia emergente, como pelo fato da produção Bollywoodiana ser bastante significativa . Para os indianos, Hollywood não tem o mesmo apelo e o filme talvez abrisse as portas para um mercado e tanto.

Mas, deixando de lado o mercado, por que o filme fez tamanho sucesso com o público? O que encantou? O diretor usou ingredientes certeiros: fez um romance disfarçado de ação, rodado em um lugar exótico, com a eterna luta entre o ‘bem e o mal’. Uma epopeia atrás do amor eterno, da alma gêmea, com ritmo frenético. Desde que o mundo é mundo, mitos em que o herói resgata a mocinha e com ela vive feliz para sempre agradam em cheio. Slumdog não é uma exceção – mesmo que o herói tenha cara de abobado e não tenha o menor controle sobre a situação – apenas perseverança. E a sorte ao seu lado. As perguntas estampadas no cartaz em inglês apelam para o lado romântico, épico, do filme: – O que faz achar um amor perdido? A) dinheiro B) sorte C) esperteza D) destino. Muita gente cínica marcaria a letra A, mas Jamal provavelmente assinalaria a resposta correta.

Sou totalmente interessada pela Índia, adoro sua cultura e admiro muitíssimo o pensamento hinduísta. Não me assusto com a pobreza tão ressaltada por quem não curte o país: ela apenas me entristece, tanto lá como a que vejo aqui no Brasil (que já foi chamada de Belíndia, lembra?). Mas lembro que faz parte de maya

Na época do lançamento, não achei este “O” filme. Talvez, em outros Oscars, pudesse ter uma opinião diferente, mas confesso que eu estava sob o impacto de O Leitor . O filme que deu o Oscar – finalmente! – à Kate Winsley tem a capacidade de nos fazer rever os conceitos, nos colocando no lugar dos personagens. Para mim, mostrava claramente o que é amor incondicional, com todas as contradições. Exemplificava um “amor de verdade”. Dois anos depois do lançamento, percebo que Quem quer ser… – além de ser ‘uma gracinha’ de filme, que vai bem com pipoca e refrigerante, numa sessão da tarde – também fala de “amor de verdade”. Um amor que não teve de enfrentar paradoxos, mas muitas provas até poder se realizar. Custei a correlacionar a história de Jamal com a de Rama e Sita. E Rama, que aparece apenas em uma cena, poderia parecer um personagem coadjuvante. Mas, talvez , só os indianos ou amantes da cultura hindu percebam a sua real importância ali.

Como no poema grego A odisseia, em que Ulisses sempre é protegido pela deusa Atenas, Jamal teve Rama. (Para quem não conhece nada de mitologia hindu, Rama é um avatar, ou seja, uma das encarnações do deus Vishnu, responsável pela conservação do mundo. Rama é o protagonista do Ramayana, um épico da tradição hindu. Rama, casado com Sita, tem de resgatar sua esposa, raptada pelo demônio Ravana. Conta, para isto, com a ajuda preciosa de Hanuman, o deus-macaco, que simboliza o devoto perfeito.) Apesar da história de Jamal ser muito parecida, ele não é um devoto, no sentido restrito da palavra. Mas ele age corretamente o tempo todo. Sem amigos com quem contar, tem de se virar, sozinho. Quer dizer, aparentemente… Tem sua meta, não se desvia e trabalha para atingi-la.

Apesar da religiosidade não estar ali, na superfície, o tempo todo. Jamal ‘nega’ a importância de Rama e Alá, em determinado momento. Mas, Latika reforça a possibilidade deste olhar, místico, quando diz : “Deus está com você”.  Enfim, também pode ser visto como uma briga entre o Bem e o Mal. Ou pensando melhor, entre a sabedoria e a ignorância. No final das contas, quem era o ignorante?!

Quem quer ser… faz a plateia vibrar. Toca a necessidade de buscar uma justiça e acreditar que o ‘bem’ será recompensado no final… Enfim, é um filme épico, para ver e sair feliz, cantando e comemorando. Confira uma seleção de cenas do filme, que mostra Jamal desde a sua infância, sempre superando os obstáculos.





Em tempo: Jai Ho significa “Que Você Seja Vitorioso”. Jai, jai, jai!
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Thays Babo é psicóloga, Mestre em Psicologia Clínica pela Puc-Rio, associada a ATC-Rio e atende no Centro.

Quem quer ser um Cachorro Favelado?
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2 comentários sobre “Quem quer ser um Cachorro Favelado?

  • 02/11/2011 em 16:24
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    Thays, concordo que O Leitor me deixou sem folego na epoca. Mas, Quem quer ser um milionario, alem de todas as questoes mercadologicas que vc mencionou, era uma historia bem contada. O diretor, Danny Boyle, tem em seu curriculum o surpreendente Cova Rasa (acho que dos 90’s) e, mais recentemente, 127 horas. O mais engraçado eh que sao filmes bem diferentes entre si. Boyle nao se repete. Depois de ver 127 horas, me convenci de que qualquer historia muito bem contada pode resultar num filmaço. Acho que eh o caso de Slumdog!

  • 02/11/2011 em 16:24
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    Concordo, Sol! Eu repensei o filme ontem, só ao ver o finalzinho.

    Hoje assisti inteiro… e fui procurar comentários a respeito e achei o de uma socióloga (ou antropóloga), detonando o filme, falando que aquela Índia ali representada estava sub-representada, que a relação entre muçulmanos/hindus – Paquistão/Índia vão muito além e é muito delicada. Aí me peguei pensando que ela não captou que o filme não é um filme político e, justamente por isto, tocou tanta gente. Quem quer ser fala de superação de limites, de ir em frente. Traz a questão de ‘existe um destino’? Se não, tudo é sorte ou apenas uma fábula. Ah, apesar de eu ser pró-hinduísmo, tenho de ressaltar que Jamal era, provavelmente, muçulmano e não estava realmente nem aí para as questões devocionais. O que traz outros possíveis debates religiosos, mas não vou embarcar nesta, pode deixar!

    Eu não tive coragem de assistir a 127 horas, por conta da ‘tal’ cena… quem sabe um dia eu supere este meu limite, rsrsrs. Pelo visto, o diretor gosta do tema superação…

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