Você sabe distinguir solitude e solidão? Paul Tillich, filósofo e teólogo americano, esclareceu:

A linguagem (…) criou a palavra solidão para expressar a dor de estar sozinho. E criou a palavra solitude para expressar a glória de estar sozinho”.

Para os existencialistas, a solidão é um presente da existência. Estamos todos sós. Nossas emoções, só nós sentimos.

No entanto, temos parceiros de jornada. Testemunhas da nossa vida, que podem ser valiosas companhias.

Porém, nos últimos séculos, o amor se tornou uma das questões centrais na vida do ocidental. A ponto de ser confundido e restrito ao relacionamento amoroso romântico .

Assim, fica difícil entender que estar só pode ser uma escolha. Não se aceita bem o prazer da solitude. Entende-se como solidão, que é mal vista e considerada preocupante.

A pessoa solteira, muitas vezes, se sente mal, julgada, solitária. Solitude frequentemente é interpretada como solidão. E pode levar à anuptafobia. Que é o medo de não casar.

A pressão social para que as pessoas se fixem  em um relacionamento faz como se fosse um atestado de ‘saúde mental’. Mas, na verdade não é – que isto fique bem claro.

Pressão para casar

As famílias surgiram inicialmente por fins de sobrevivência. A religião controlava, não só por fins religiosos mas também econômicos. Era bom para o Estado, até para a formação de exércitos. Não é muito romântico… Mas ainda funciona assim em algumas sociedades.

Em pleno século 21, ainda há quem considere que as pessoas devem se fixar  em um relacionamento amoroso. Casar, ter filhos. Como se fosse um mesmo propósito de vida para todos.

Na verdade estar casado(a) não é atestado de sanidade mental.

Talvez a gente possa afirmar – mesmo sem ter dados estatísticos – de que a pressão é maior sobre as mulheres.

Porém, homens também são pressionados. Pela vantagem biológica de poderem ter filhos até mais tarde, podem ficar mais à vontade. Mas, a sociedade preconceituosa começa a fazer inferências sobre orientação sexual dos homens que permanecem solteiros depois dos 40 anos.

Ser casado não é necessariamente saudável

Relacionamentos longos não necessariamente são saudáveis. Podem ser desprazerosos ou até tóxicos. Muitos casais não ousam se separar para não enfrentar questionamentos. Ou perder o status social.

Ainda, pior: acreditam mesmo que  não ter ‘alguém’ indica algum problema. Ou simplesmente temem estar só.

Riscos de não suportar estar só

Indo mais além, há pessoas que não suportam ficar sozinhas. Mesmo estando em um relacionamento amoroso, se seu par precisa se ausentar, ficam ansiosas. Sentem-se incompletas ou abandonadas.

Podem até ficar furiosas – mesmo que a situação de afastamento seja compreensível ou inevitável.

Pessoas com esquema de abandono ou privação emocional sentem mais o afastamento do par. Por não suportarem a solidão, arriscam-se mais: podem escolher mal o parceiro ou parceira. Para evitar estar só, preferem permanecer em relacionamentos tóxicos.

Há alguns anos foi encenada uma  peça intitulada  “Não sou feliz, mas tenho marido”. O título bem humorado brinca com quem acredita mesmo que não estar com ‘alguém’ indica algum problema.

Solidão na pandemia

A pandemia do coronavírus provocou uma parada, que pode ser estratégica. Esta pode ser a hora para analisar a sua vida e tentar torná-la mais satisfatória, mais de acordo com seus valores.

Alguns casais resolveram que era a hora de se unir. E outros, apesar de toda dificuldade, viram que não dava mais para adiar e se separaram. Porque estar com alguém em tempo integral só é suportável quando há amor e respeito.

Você escolhe: glória ou dor?

Assim, não estar em  um relacionamento amoroso não necessariamente estará relacionado com tristezaabandonorejeição.

Você não precisa acreditar na crença de que ‘estar só é estar triste‘. Ponto. Esta ideia, alimentada por séculos, tem um alto custo emocional e às vezes traz mais sofrimento do que estar só. 

Muitas pessoas se jogam em relacionamentos amorosos sucessivos. Querem evitar o encontro consigo mesmas. Na verdade, são viciadas na paixão. Querem as emoções de início – e aí, tanto faz, na verdade, quem seja o seu par, desde que proporcione estas emoções.

“Aprenda a ficar sozinho e você nunca mais se sentirá só” – Dalai Lama

O neuropsicólogo Pedro Calabrez explica a química da paixão. Esta química viciante leva as pessoas a emendarem um relacionamento no outro, no que se conceitua como monogamia em série.

Ou seja, quando as emoções prazerosas começam a diminuir e as diferenças surgem, hora de buscar o próximo relacionamento.

Sem flexibilidade e sem capacidade de negociação e por não terem parado para  perceber o que deu errado, muitas pessoas desistem dos relacionamentos. Por não ficarem bem com o fato de estarem de novo “solteiras”, lançam-se à procura de nova parceria amorosa. Sentem como solidão o que poderia ser vivenciado como solitude.

A pessoa que não reflete sobre as razões do seu relacionamento não ter sido satisfatório, pode atribuir total responsabilidade à outra pessoa. Dependendo dos seus esquemas, o ciclo de relacionamentos sucessivos se perpetua.

Monogamia em série

O pensador Zygmunt Bauman propôs o conceito de amor líquido, ao observar a facilidade com que, nos dias de hoje, as pessoas se lançam em novos relacionamentos.

Esta “liquidez” faz com que as pessoas se sintam cada vez mais sós, mais vulneráveis. Com isto, aumentam suas defesas para não sofrerem – impedindo de receberem justamente o que mais querem: amor.

E o que acontece com você? Você consegue se comprometer, não só nos momentos fáceis e prazerosos mas também nos de crise? Ou foge?

Você consegue estar só? Ou se encaixa no perfil de monógamos sequenciais? 

Analise o seu momento presente, observe o que você gosta na pessoa que se tornou e é hoje. E lembre que, antes mesmo de entrar em alguma  relação – aí, não só amorosa, mas também de amizade ou profissional –  autocuidado e autocompaixão são fundamentais para manter sua saúde mental. 

Será que o que  impede você de ser feliz hoje,  aqui e agora,  é apenas (ter ou não) uma parceria amorosa? 

O amor é um aprendizado, que vai na contramão do que a mídia e a cultura popular apregoam. Não é inato. Allain de Botton frisa que é uma habilidade aprendida.

A importância dos modelos recebidos

Como dito anteriormente, modelos que recebemos e mantemos sem questionar nos fazem dificultar nossas relações afetivas, de todos os tipos. As crenças românticas a que somos expostos em filmes, músicas e literatura, bem como nossas experiências de início de vida, deixam uma marca. Observando os relacionamentos amorosos mais próximos moldamos o que esperamos dos nossos relacionamentos.

Avalie suas crenças românticas, questione as que realmente lhe servem na vida real. Expectativas  muito altas  dificilmente serão atendidas. Pequenos gestos e sinais que refletem a qualidade do relacionamento acabam passando desapercebidos. Com a frustração, a pessoa por vezes se descontrola. Ou se decepciona.  E assim, a insatisfação pessoal continua. Assuma a sua responsabilidade pela vida que você tem e na que você quer ter.

“Conhece-te a ti mesmo”, como diziam os gregos. Observe e  se comprometa com os valores que  são realmente os seus, caminhando na direção deles. 

Se preciso, procure ajuda psicoterápica.

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Thays Babo é Mestre em Psicologia Clínica pela Puc-Rio, na linha de Família e Casal, com formação em Terapia Cognitivo-Comportamental e Extensão em  Terapia de Aceitação e Compromisso. Atende a jovens e adultos, em terapia individual, de casal ou pré-matrimonial em Copacabana.

Na pandemia de coronavírus, atendimentos são prioritariamente online

Solitude vs solidão

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