Decididamente, quem decide a tradução dos títulos dos filmes no Brasil não é movido pelo amor à arte. O que conta é o amor à bilheteria. Exemplo recente é o filme Up in the Air, batizado como Amor sem escalas, estrelado por George Clooney. Convenhamos, a combinação título-astro tem tudo para render muito reais para os exibidores. Mas, se atrai hordas de mulheres, em busca de cenas românticas com o ator, deixa de fora do cinema homens e mulheres racionais, que não apostariam neste título, achando que é mais um filme ‘mulherzinha’, chick flick, de final feliz.



Para isto também contribui o trailer , que engana bem o público. Guardando a surpresa do filme (o que é bom), caprichou-se demais na seleção de cenas bem humoradas ou sexies – que não são sua real proposta. E as resenhas por aí focam na quantidade de milhas que o protagonista, Ryan Bingham, quer acumular – sem que isto seja a principal questão. (Como sabem, apesar de publicitária, sou idealista. Fiquei incomodada com o merchandising agressivo da empresa aérea, da locadora de automóveis e da rede de hoteis – que viabilizam a produção. Na minha visão romântica da arte, empresas fictícias seriam mais simpáticas ao espectador. Felizmente Hollywood não precisa da minha opinião para sobreviver. ) 😉


Então, não vá pensando que é mais uma comédia romântica bobinha, se não você vai se desiludir. Decepcionar é improvável, mas, dependendo da sua idade, do seu estado civil e profissional, você pode sentir um incômodo com as questões que Ryan Bingham enfrenta – a contragosto, não por escolha.



(Descobri pelo menos mais um trailer (para DVDs?), um pouco mais fiel ao incômodo despertado. Mas não foi este o que vi exaustivamente veiculado fora da internet. Após assisti-lo, decida se quer continuar na nossa viagem psicológica.) Não posso evitar falar do fechamento da história de Ryan, portanto, só continue a leitura após o trailer se quiser conhecer as milhas que nosso herói percorrerá. Sras. e Srs. Passageiros, com destino a si mesmos, boa viagem. 🙂



Ok, já que decidiu continuar a leitura, aperte o cinto…

Ryan Bingham tem um papel que a maioria consideraria indigesto: como consultor, viaja por todo o EUA para anunciar olho no olho a demissão, quando a chefia não tem coragem para tanto. Após a crise de 2008, trabalho é o que não falta e, além da experiência, Ryan acumula muitas milhas de viagem e privilégios dos programas de fidelidade. Ironicamente, não precisa manter fidelidade a nenhuma ‘pessoa física’ já que ninguém, em terra, o espera. Seu apartamento lembra mais um apart-hotel impessoal.

Um dia, seu chefe anuncia que adotarão uma nova política na empresa, fazendo os desligamentos de pessoal via web. As viagens serão canceladas e com isto poderão ter suas rotinas de volta. Tudo isto graças a ideia de uma jovem funcionária recém-formada, Natalie Keener, que conseguiu convencer a empresa dos benefícios da mudança, mostrando a enorme redução de custos.

O que seria motivo de alegria para seus companheiros de empresa, faz Ryan se desesperar. Além de todos os privilégios que perderá – inclusive a pontuação que pretende atingir, para ser um dos happy few da companhia aérea em questão -, para quem ele voltará? A ideia da possibilidade de, enfim, ter relacionamentos pessoais próximos, diários, não lhe serve como atrativo. Contesta o chefe, argumentando que o segredo do negócio é o toque humanista do encontro face a face. Ryan faz simulações com Natalie para provar ao chefe o quanto ela é despreparada – e ressaltar a sua própria expertise.

Percebendo que em alguns pontos Ryan tem mesmo razão, o chefe ordena que ele leve Natalie nas próximas viagens para treiná-la. Não era o que Ryan esperava, mas tem de aceitar a missão – caso contrário seria o olho da rua. Ao invés de desistir rapidamente, Natalie vai amadurecendo e ganhando projeção na empresa – o que é uma ameaça direta ao experiente Ryan.

Pouco antes das viagens com Natalie, Ryan conhece Alex. Não é só o nome desta mulher que é nada feminino. Sua postura está bem distante do que se diz da feminilidade arquetípica. Sexualmente agressiva, ela mesma se define como uma versão Ryan com vagina. Alex tem uma rotina de vida muito parecida com Ryan, de aeroporto em aeroporto, o que faz com que seus encontros tenham de ser agendados em função dos seus planos de voo. De certa forma, é tudo muito conveniente à filosofia de vida de Ryan. Porém, as conjunturas mudam no trabalho de Ryan.

As mudanças apontam cada vez mais para o envelhecimento e trazem a possibilidade de desemprego e a solidão. Ryan é o indivíduo modelo que, cedo ou tarde, percebe que defesas nem sempre são eficazes contra o passar do tempo. Dá-se conta que talvez esteja no momento de aterrissar e, para isto, elege Alex como co-piloto, sem avisá-la. Aí está o que, pra mim, é a grande surpresa do filme – e que frustra boa parte do público – Ryan descobre que não existe terra firme. As escolhas que terá de fazer serão para si mesmo.

Para alguns críticos o filme é piegas. Como psicóloga, não o vejo como um filme de amor: ele fala de escolhas e do preço que se paga por elas. Pode incomodar a quem espera um sinalizador em terra firme. O confronto do jovem com o velho – puer x senex – do contato Ryan x Natalie é provocador. Como em uma reação química (ou alquímica?), os dois já não serão mais os mesmos depois das viagens que fizeram juntos. Estas mudanças, que alteram o norte de Ryan, acontecem na vida de todos. Rapidamente têm impacto no mundo do trabalho, não só nos EUA como nos demais países industrializados. Por mais especialista ou experiente que alguém seja, por redução de custos, torna-se descartável. Profissões desaparecem. A fala dos demitidos mostra a angústia que pessoas demitidas enfrentam – e quantos de nós ou próximos a nós já passamos por isto?

Há ainda outro foco de discussão, além das questões existenciais de envelhecimento, solidão e morte: as mulheres. Para isto, precisa-se desviar o olhar de George Clooney, digo, de Ryan. As mulheres do filme são a cara da nossa época. Todas encontram-se frente a desafios. Há dois eixos principais: as executivas e as que optam por uma vida mais provinciana – no caso, as duas irmãs de Ryan, que ele encontra muito raramente e com quem não tem muito o que falar.

Natalie e Alex, executivas, parecem sacrificar a feminilidade para serem bem sucedidas, encarnando o estereótipo da mulher executiva, endurecida, ainda que usando saias. Ao longo do filme, ambas revelam o lado romântico e emocional, tradicionalmente atribuído à mulher. Natalie, mais uma vez, como representante jovem, faz um contra-ponto à Alex, com sua lista de exigências em relação ao que espera de um parceiro. A resposta madura de Alex lembrou uma piada que rola na internet ( como a piada tem um final meio chulo, não vou repetir aqui.) . Ao final, Alex se revela na vida real, longe das salas de espera de aeroportos, muito parecida com o que muitos homens foram, por séculos. Gostaria de fazer uma pesquisa com os espectadores acerca de Alex. Pelas reações que ouvi, nem homens nem tampouco as mulheres conseguem perdoar ou tentar entender em Alex o mesmo que se perdoou ao homem, por séculos. Ao mesmo tempo, como psi, consigo até entender porque ela não percebeu que nem tudo estava sob controle e que o rumo das coisas poderia mudar de repente, com um vento ascendente.

Num extremo oposto, estão as irmãs de Ryan – uma acaba de separar e repensa sua escolha; outra, na beira do altar, sem coragem de pensar muito sobre o assunto. Ambas com estilos de vida mais pacatos mas não por isto menos encalacradas e angustiadas.

Para finalizar, voltemos a Ryan com suas escolhas. O que fazer? Prosseguir com sua vidinha, mantendo-se nas mesmas rotas ou mudar? Cabe a ele decidir permanecer nas alturas, com turbulências mas eventualmente “céu de brigadeiro”, ou aterrissar. Sua escolha não fica clara para o público. Fica, como a vida, em aberto.

Aterrissar ou arremeter?

5 comentários sobre “Aterrissar ou arremeter?

  • 28/01/2010 em 16:24
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    Muito bons os seus comentários sobre o filme. Você é psicóloga? Entendeu o filme de maneira brilhante e adorei a sua descrição do final. “Ryan descobre que não há terra firme” é muito bom. E realmente. As escolhas que precisa fazer são para si mesmo. Achei o filme demais.

    Beijos!

  • 29/01/2010 em 16:24
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    Oi, Ciro!
    sim, sou psicóloga… Não conheço ninguém que tenha desgostado do filme até agora. Ah, excluindo as ‘senhorinhas’ e ‘mocinhas’ que foram ao cinema esperando uma comédia romântica com George Clooney. Mas quem gosta de reflexão se supreendeu positivamente.
    Obrigada pelo comentário!
    bjs

  • 29/01/2010 em 16:24
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    Up in the air sim porque, vc tem toda a razao, o titulo Amor sem escalas eh suspeito. Se a ideia era atrair um determinado tipo de publico, deram um tiro no peh. Ainda no cinema, observei algumas mulheres que saíam reclamando. No meu facebook, uma amiga escreveu um status mencionando a “chatice” do filme. Claro. Houve uma total frustração de expectativas.

    O filme me fez pensar muito, mas vi ali, em especial, uma séria questao de genero. A ele interessava o poder simbolizado por cartoes preferenciais, privilegios em hoteis, e as tais milhas que ele tanto planejou mais pareciam outra demonstraçao de poder. As milhas me lembraram a visao de Baudrillard sobre coleçoes. O colecionador (e ele era um colecionador de voos) age com paixao, pois a coleçao lhe confere um poder especial. Quando ele “acha” que encontrou uma mulher que pensa como ele, dah com os burros n’agua. Ela eh fake. Na verdade, ela, como as outras mulheres do filme (as irmãs, a funcionária nova) tem em seus relacionamentos a sua maior prioridade na vida, ainda que Alex buscasse uma fuga do tédio à la Madame Bovary. A funcionaria nova soh entrou na empresa dele porque seguiu o “amor da sua vida”. Quando ela descobre que o tal “amor da sua vida” nao a ama de verdade, ela se sente livre para buscar outro caminho profissional. Ficou a duvida. Sera que ela se trasformarah num Ryan de saias? Nao creio. Apostaria num novo investimento amoroso no medio prazo.

    Uma outra linha de pensamento interessante provocada no filme eh a questao do trabalho. Alguem diz no filme que a dor da demissao do emprego equivale a uma morte na familia. Mas ele, o demitido, se sentia como ele proprio houvesse morrido. O trabalho do personagem de Clooney era quase que o de um medico que deveria dar uma noticia ruim aos familiares do seu paciente. Como fazer isso atraves da video conferencia? A cultura norte americana que tende a mercantilizar tudo parece encontrar um limite. (serah???). Talvez nao seja mesmo possivel mercantilizar qualquer tipo de serviço. E esse era, para mim, o maior paradoxo do filme. O personagem de Clooney sabia da importancia dos relacionamentos, mas preferia a zona de conforto que o seu trabalho lhe proporcionava, e, claro, o poder. Entra a questao que todas nos fazemos sempre: medo da perda? Medo de se relacionar seriamente? Medo da rotina? Medo de perder o poder? Aí, jah eh um territorio seu.

  • 29/01/2010 em 16:24
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    Uau, Solange, muito bom o que você levantou… Acho que você vai ter de abrir uma seção no seu blog para analisar filmes, hein?

    Quando ao bovarismo da Alex, é quase isto… fuga ao tédio, busca por um parêntesis. Mas a Bovary do livro se iludia, achava que viria princípe encantado. Nos dias de hoje, a Alex era tão prática que nem isto esperava. E até se surpreende quando ele bate à porta. Não dá também pra comparar com o tédio da Belle du Jour, que não tinha vida profissional, vivia em função do marido e não queria substitui-lo. Acho que Alex inaugura um tipo novo de heroína. Na verdade, uma heroína que não agradou à maioria das espectadoras… rsrsrs

  • 29/01/2010 em 16:24
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    Bom ponto. Essa mulher continua entediada, mas menos romantica (diferente de Bovary) … Já se deu conta de que o principe nao existe (preciso ver de novo para lembrar o que ela disse para a menina, consolando-a quando o namorado dá o fora nela).

    E nisso vc tem razao – aquela eh uma cena-chave do filme. Acho que muita gente achou, naquela hora, que ela fosse se surpreender e abraçá-lo e que “viveriam felizes para sempre”. Acho que foi aí a melhor parte do filme! Houve um choque de realidade que as Madames Bovarys de plantao tiveram dificuldade de assimilar… soh lhes restou praguejar no cinema…hehehehehe!
    Bj.

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