Filmoterapia: Boa sorte, Leo Grande

Já ouviu falar em filmoterapia? Este é um recurso bastante comum nas terapias cognitivas. A(o) psi indica filmes que podem ajudar seus clientes a entenderem melhor algumas questões. Ou, pelo menos, a pensarem a partir de novos pontos de vista. Boa Sorte, Leo Grande é um destes que surpreende. O filme aborda dramas existenciais, da vida em família, do envelhecimento e da solidão. Pessoas mais conservadoras evitaram assistir. Uma pena, o filme vai muito além do que é mostrado no trailer.

E o protagonista não é Leo Grande

E por que pessoas conservadoras não assistiram? Porque mexe com um tema tabu: a sexualidade. E, mais especificamente, prostituição masculina. Enfim, muitas provocações filosóficas em um filme que não é pornô e tampouco erótico.

O trailer do filme engana, sugerindo mais sexo do que o que realmente acontece no filme. Também passa a impressão de ser uma comédia romântica. Decididamente, não! Os aspectos psicológicos, sim, é que são importantes e tornam Boa Sorte imperdível. O filme aborda vários tabus de uma vez. E quais são eles?

Temas tabus

  • Sexualidade na terceira idade. – Muitas pessoas acham que gente idosa não se relaciona mais sexualmente. Está na hora de rever estas ideias – afinal a expectativa de vida aumentou. Você também pode envelhecer. Pode, não necessariamente vai… A negação da sexualidade da pessoa idosa não torna ninguém mais feliz, apesar de trazer conforto e segurança.
  • Disfunção sexual feminina – Nancy, não se sabe exatamente porquê, não procura terapia sexual e sim um profissional do sexo.
  • Relacionamento com filhos. A personagem de Emma Thompson toca em um assunto que deixa muita gente nervosa. Ela não é feliz na relação com os filhos.
  • Profissionais do sexo. Seja você a favor ou não, novos pontos de vista podem surgir em um momento de diálogo entre Nancy e Leo. Nancy, por sinal, não se choca tanto quando poderia, sendo tão pudica, com o que Leo conta.

Angústia, culpa existencial e controle

O humor no filme é sutil. Como quando Nancy pergunta, inocentemente, a origem da família de Leo. Mas a sutileza fica – e a direção não marca como situação de humor. Decididamente, o filme não é comédia romântica. Drama existencial poderia ser a categoria mais adequada, se existisse. Pode provocar angústia, quando a protagonista questiona algumas de suas escolhas.

Logo nos primeiros minutos podemos constatar que a protagonista é ansiosa. Muito. Do tipo que quer controlar tudo. Profissionais de saúde que atendem pessoas que sofrem de ansiedade podem logo empatizar com o drama existencial de Nancy . Assisti ao filme no cinema – plateia de leigos ria do que a gente sabe que é sofrido…

Percebendo que envelheceu – e que pode morrer sem ter sido minimamente feliz -, Nancy vai atrás do que imagina que lhe trará um pouco de alegria. Quer um orgasmo.

Um orgasmo pode ser algo simples – mas sabemos que grande parte das mulheres não é. É grande o número de mulheres que não conseguem isto em sua vida. E muitas vezes o que impede é justamente a tentativa de ter o controle o tempo todo. Um orgasmo é a perda temporária do controle.

Nancy não tem ilusões. Não quer romance. Mas tem uma lista de fantasias. Minha única crítica ao filme é que em momento algum Boa Sorte, Leo Grande fala de sexo seguro ou do uso de preservativos…. O sexo seguro já deveria ser discutido nos relacionamentos amorosos convencionais. E ser mandatório quando profissionais do sexo são contratados.

Apensa em uma das cenas, percebe-se que os personagens usam proteção.

O protagonismo de Nancy

Eu diria que Nancy é uma heroína trágica. Ela cresce ao longo do filme, com uma atuação comovente. E Leo também é um personagem e tanto. A cena final é de uma coragem que poucas atrizes na idade de Emma Thompson teriam. Adoraria que ela tivesse sido indicada a Oscar de Melhor Atriz.

Concluindo…

O filme está disponível nos streamings. Não espere um um filme erótico ou pornô. É um filme para refletir sobre as dificuldades da vida a dois, seja em um casamento ou em um caso passageiro. E também nas relações que temos com nossos filhos.

A vida exige a coragem e flexibilidade para ser uma vida mais realizada. E isto você pode desenvolver, em qualquer idade, seja você homem ou mulher.

E você, já assistiu? Aguardo seus comentários.

Thays Babo é psicóloga, com Mestrado em Psicologia Clínica pela Puc-Rio, na linha de Família e Casal. Também concluiu as formações em TCC (CPAF-RIO), Terapia do Esquema (Wainer Psicologia) e em Terapia de Casal (Atitude), tendo feito.extensão em Terapia de Aceitação e Compromisso pelo IPq (USP) .

Atende a jovens e adultos em psicoterapia individual, terapia de casal e pré-matrimonial. No momento os atendimentos são exclusivamente on-line.

Filmoterapia: Boa sorte, Leo Grande

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