Há algum tempo, li em um blog uma lista de filmes exemplificando o ‘amor maduro’. Porém, a maioria  reproduzia apenas o mito do amor romântico que, em certa medida, pode ser muito imaturo, ao contrário do que a opinião popular acha, por estabelecer  ideais inatingíveis, elevando expectativas e contribuindo para maior frustração amorosa. 

O Romantismo surgiu no século XVII porém a indústria do cinema e os filmes  Hollywoodianos divulgaram os mitos do amor romântico em larga escala. Músicas populares também colaboraram para que o  amor idealizado passasse a ser meta, algo desejável em larga escala. Gestos grandiosos viraram sinônimos de prova de amor graças a este ideal passado pelas artes e mídia.  Confundiu-se o amor romântico com gentileza e cuidado.    

A  foto abaixo é um belo exemplo de como as conclusões podem ser precipitadas (e isto se aplica em especial aos posts das redes sociais)

Beijo

Aparentemente uma foto de um registro romântico,  na verdade, o marinheiro agarrou a enfermeira que passava, porque ele queria comemorar o final da II Guerra Mundial, em plena Times Square. (Muito parecido com o que hoje em dia os rapazes fazem nas baladas ou nos blocos de Carnaval). Anos depois, quando isto foi revelado, a enfermeira foi entrevistada mas até esclareceu que não foi um trauma grande, em função do contexto. Ou seja,  nem tudo o que é aparente, o que se posta ou publica na internet ou na mídia é desejável ou bonito.  E os grandes romances? Romeu e Julieta? Esqueça como exemplo de amor. Este drama representa o arrebatamento da paixão juvenil que, na maioria das vezes, não dura. Já não durava no tempo de Shakespeare (leia a peça, que você entenderá). Também há vários textos pressupondo o que poderia acontecer se eles não tivessem morrido. 

(Não podemos hoje  falar de amor romântico sem comentar as novas tecnologias: aplicativos, como Tinder, H´ppn e redes sociais como Facebook, que merecem outro post. Para muitas pessoas, estas novidades minam a estabilidade das relações. Zygmunt Bauman foi visionário ao conceituar o amor líquido, característico da pós-modernidade, que nem existiam à época. Estes apps já aproximaram e afastaram muitas pessoas e causaram vários atritos, por vezes desnecessários. Desconheço dados estatísticos para saber se houve mais aproximações do que separações, mas, pelo que observo, os relacionamentos ficaram voláteis.)

Ao criar expectativas altíssimas e dificilmente alcançáveis, o limite de tolerância vem diminuindo diante das diferenças. E, por outro lado, quem está só, muitas vezes, se deprime. É como se apresentasse, para si mesmo, um atestado de  ‘incompetência emocional’.  As redes sociais agravaram este sentimento, pois fazem acreditar que todos são felizes, menos quem está solteiro/a (principalmente em datas especiais, como o Dia dos Namorados). Mas, lembre-se da foto aqui em cima.

Temos necessidade real de pertencimento, amor e carinho – isto é fato.  Mas não necessariamente isto se obtém em  um relacionamento amoroso. Muitas pessoas comprometidas se frustram ao perceber que tudo o que sonhavam antes do relacionamento não se realizou. Talvez porque fosse humanamente impossível (as tais expectativas altas). Muitas vezes imaginavam que o par irá mudar, para agradar. Mas, ao contrário, muitas vezes a pessoa se transforma, sim, indo em uma direção diferente do que se queria a princípio. E a flexibilidade e aceitação do outro tal como ele é, onde fica? Por que é tão difícil? Logicamente, altas expectativas levam a grandes frustrações. 

Se você não está em um relacionamento amoroso hoje tem alguma razão mesmo para se deprimir? O que isto quer dizer de você? Lidar com a própria solidão e gostar de si é importante para saber escolher bem e não se jogar em um relacionamento apenas por medo de sentir incompletude. Apesar de, desde crianças, ouvirmos que “é impossível ser feliz sozinho”, a letra da música não é necessariamente verdade. Algumas vezes pode ser justo o contrário!

Quem está só muitas vezes acredita que não tem valor, é um fracasso. Algumas famílias reforçam esta ideia, cobrando um compromisso e, às vezes, filhos. Há quem enverede por uma depressão, tentando escapar dos próprios sentimentos de menos-valia e de pensamentos depreciativos. Pode ser através de drogas ou até tendo vários relacionamentos. Ou apenas se isolando socialmente para evitar perguntas.

Se este é seu caso ou conhece alguém assim, sugira ajuda especializada. Quando o humor e bem estar dependem de estar com alguém, está na hora de se conhecer melhor. Você precisa parar para descobrir quem você, aprender como pode sobreviver (e bem) sem alguém do seu lado. E também não aceitar qualquer pessoa,  com valores totalmente diferentes dos seus, só para combater a solidão. Em terapia individual, podem-se trabalhar os valores pessoais e crenças sobre relacionamentos. Muito do que se acredita sobre namoros e casamentos são ideias que trazemos da infância, da observação do relacionamento das figuras parentais ou da cultura. Quando a pessoa aprende a se valorizar, a ter auto respeito, autocompaixão e a destacar o melhor de si, suas relações com os demais muda. Passa de dependência e desespero para uma abertura a oportunidades que a aproximam do que a torna mais realizada – sem o constrangimento do desespero.

O excesso de ansiedade em ter um vínculo amoroso e/ou depressão por não o ter são repelentes poderosos de relações saudáveis. Afinal, alguém equilibrado não quer alguém que se jogue ou projete todas as suas necessidades em si. Desejável é uma parceria de alegria, crescimento. Eventualmente crises acontecerão, pois é da vida ter uma cota de sofrimento, mas as soluções podem ser encontradas sem o desespero. 

gato_leao

Gostar  de si torna você uma pessoa atraente mas é importante que você reconheça suas qualidades e as aprimore.  O que você tiver de  pior deve ser encarado – aceito e, se puder, mudado. Seja a pessoa que você gostaria de conhecer e encontrar. E goste de se encontrar consigo e desfrutar sua companhia.

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Thays Babo é psicóloga e Mestre em Psicologia Clínica pela Puc-Rio, com formação em TCC pelo CPAF e com  extensão em Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT), pelo IPq – USP. Atende no Centro e em Copacabana a jovens e adultos, em terapia individual, terapia de casal e pré-matrimonial.

Felicidade amorosa – fantasia ou possibilidade?
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