Amores Materialistas não era nada do que eu pensava. Eu, psicóloga, terapeuta de casal e pré-matrimonial, não poderia perder o que poderia ser filmoterapia. E é.
Mas, apesar da propaganda enganosa – totalmente centrada no frisson em torno do ator Pedro Pascal -, o saldo final foi bom. Amores Materialistas é uma comédia romântica contemporânea, que fala das dificuldades de quem busca um par amoroso.
Eu tenho várias ressalvas às rom coms… Inclusive já escrevi outros posts sobre isto. Mas, apesar disto, contraditoriamente, amo! Sugiro sempre consumir este tipo de comédia “com moderação”. Mas fique alerta: há um risco real de querer que as fantasias se tornem realidade. As novas descobertas da neurociência revelam que o cérebro não sabe bem distinguir o que é verdadeiro ou não.
Resenha
Se você ainda não viu, mas quer ver… volte aqui depois para não ter spoiler…
Lucy (Dakota Johnson) é uma casamenteira de sucesso em Nova Iorque. E o filme começa quando ela chega como convidada na festa de casamento no nono casamento que facilitou.
Lá, foi cercada por amigas da noiva que também queriam contratar seus serviços, para que ela lhes conseguisse um unicórnio. (Você sabe o que é um unicórnio? Eu não conhecia este termo aplicado a homens solteiros, só a empresas…)
Unicórnio no mercado amoroso (pelo menos americano) designa homens solteiros, altos. E ricos. E eles são raros. Mais materialista do que estes critérios, impossível… E o irmão do noivo – interpretado por Pedro Pascal – Harry, era outro unicórnio. Desde a festa de casamento do irmão tenta seduzir Lucy. Justiça seja feita, a casamenteira resistiu bastante. Tentou até prospectá-lo para suas clientes.
Em vários dates, Lucy questionava o real interesse de Harry nela. Apesar de bastante focada em valores materiais, ela não tentou se aproveitar. E estranhava o interesse dele: ela não conseguia ver o valor em si. Desacreditava da compatibilidade deles.
Muitos dates depois…
Harry viu qualidades em Lucy altamente desejáveis. Ok, estamos falando de um homem se interessando por uma mulher lindíssima, “materialmente” perfeita – se não considerarmos seu saldo bancário. E quando ele diz para ela o que ele via, quebra a sua resistência. Prato cheio para a Terapia do Esquema… Lucy certamente tinha o esquema de Defectividade ativado.
E, mais tarde, descobrimos que Harry também. Mas, vá e veja!
Lucy resistia a Harry porque na verdade ainda não tinha superado o rompimento do namoro de 5 anos com John. Depois de muitos anos sem o ver, o reencontra na mesma festa em que conhece Harry. Harry e John estão em momentos totalmente diferentes, opostos também.
John era totalmente desorganizado financeiramente, vivia de bicos, enquanto tentava a carreira de ator. Dividia apartamento com dois amigos igualmente desorganizados. E este apartamento… melhor nem comentar!
A protagonista
Mas quais são os valores que realmente contam para um relacionamento? “O amor não é suficiente“, já dizia Aaron Beck, criador da TCC. E, ao longo do filme, vemos que Lucy vai revendo os seus próprios valores… Não em terapia: deixou a vida a levar enquanto filtrava pessoas para os relacionamentos de clientes.
Ela resolve dar uma chance a Harry, em um relacionamento “ok”. Mas não há nenhuma demonstração de paixão por parte dela. E, pensando bem, nem dele. Ele não é sensível o suficiente para perceber o quanto Lucy fica abalada com a situação de uma de suas clientes.
Lucy enfrenta sua primeira crise profissional ao descobrir que, mesmo clientes de alto nível, que ela mesma filtrou, podem ser agressivos. Descobre, então, o risco deste tipo de negócios e repensa o seu ofício.
Paixão pode não ser um valor fundamental para estabelecer um relacionamento amoroso. Depende de quem são as pessoas que formam o casal. Mas é um bom começo para se pensar sobre isto. Se assistir ao filme no cinema, junte amigos pois o papo rende…
O toque de Celine Song sobre os relacionamentos amorosos
Um pequeno detalhe: Amores Materialistas é baseado na vida da diretora coreana, Celine Song. Antes de ser diretora, ela teve sua experiência como casamenteira. Em seu filme de estreia, Vidas Passadas, indicado ao Oscar em 2024, também há um triângulo amoroso.
EmVidas fica evidente que, para manter um relacionamento amoroso de longo prazo, na era digital, é preciso ter muita flexibilidade psicológica. E maturidade.
Os desafios na manutenção da relação são maiores já que o passado é mais presente do que se podia imaginar.
Quanto a Amores Materialistas, o que é tão materialista assim?
A profissão de Lucy é mais comum nas sociedades orientais. Nestas, atração ou amor não são necessariamente os aspectos mais valorizados para se casar. E as casamenteiras buscam atender aos critérios que a família dita… Um casamento à indiana, filme de 2001, mostra o choque de valores entre a tradição oriental e a ocidental. No Oriente, muito vem mudando com a maior integração entre Ocidente e Oriente.
E nem sempre as famílias – ou os noivos – ficam felizes com tais diferenças..
No Ocidente, das salas de bate papo, as paqueras migraram para os sites de relacionamento e atualmente apps. Mas existe uma exaustão na busca por parceria amorosa, o famoso dating burnout.
Critérios da escolha amorosa
Considero que o melhor do filme é se dar conta como as pessoas fazem suas escolhas amorosas. E que há um viés de gênero no que se procura. Os homens do filme privilegiam as mulheres abaixo de 30 e magras. E mesmo homens mais velhos não querem se comprometer.
E esta é uma queixa muito frequente. Não por acaso, a solidão é uma condição que atinge a cada vez mais pessoas.
Já as clientes não pedem muito em termo de beleza e idade. Mas também têm as suas condições “materialistas”. Que sejam ricos. Que sejam altos.
Parecer engraçado, só que não… E na medida em que a gente percebe o desequilíbrio numérico, demográfico e real, é bom rever os valores que são realmente importantes. Até porque caráter e a personalidade extrapolam a conta bancária.
O filme já está disponível nos streamings no Brasil.
________________________________________________
Thays Babo é psicóloga, Mestre em Psicologia Clínica pela Puc-Rio. Com formação em Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) , em Terapia do Esquema e Terapia de Casal, também fez extensão em Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT). Atualmente está em formação em TSU. Atende a jovens, adultos e idosos, em terapia individual, de casal ou terapia pré-matrimonial, online.
