Homens e mulheres divergem bastante nas crenças e expectativas sobre relacionamentos amorosos. Mesmo as mudanças sociais das últimas décadas não eliminaram as  crenças  românticas difundidas e reforçadas através de filmes, músicas e literatura. 

Com o início do Romantismo, os relacionamentos deixaram de ser apenas a negociação de bens de família. Mais recentemente, a atração sexual, o amor à primeira vista, a taquicardia que alguém desperta, frisson e desejo de ficar juntos, passaram a ser motivadores para começar e manter o relacionamento. Os produtos culturais direcionados às mulheres contribuem para que tais sinais sejam bastante valorizados. Mas, são mais indicativos da paixão e o problema é quando cessam ou diminuem: muitas pessoas interpretam como o ‘fim’ do amor.  Allain de Botton, filósofo contemporâneo, que criou a The School of Life, faz duras críticas ao romantismo – dizendo mesmo que o romantismo matou o amor. Para ele, para os casamentos realmente ‘funcionarem’ é preciso abandonar os ideais românticos – que são bastante rígidos. Afinal, só com  generosidade, perdão e flexibilidade pode-se manter um relacionamento efetivamente amoroso com outra pessoa adulta, que chega com suas feridas emocionais. Crenças românticas de que “o amor tudo pode”, que os amantes podem ser ‘felizes para sempre’, ou que casais felizes não discutem” não se confirmam no teste da realidade. Casais felizes e ajustados discutem, sim. O segredo é saber como. Ter uma escuta respeitosa faz a diferença; saber como reparar o estrago eventualmente feito, também. 

Outras crenças irrealistas que prejudicam os relacionamentos, acendendo alertas desnecessários: ‘pessoas que se amam não sentem raiva’, ‘quem ama não sente atração (sexual) por mais ninguém’, ‘quem ama não trai’, ‘pessoas que se amam adivinham os pensamentos uma da outra’, ‘quem ama não faz sofrer’… Certamente há várias outras que atrapalham mais do que ajudam. Outra fantasia romântica é de que se conseguirá “mudar” o/a parceiro/a, sem que ele/a queira. Quem imagina isto se decepciona

Assim, muitos casais desistem do relacionamento amoroso, por inflexibilidade e dificuldade de comunicação. Uma vez  bloqueada a comunicação, dificilmente a mágoa será diluída, tampouco os problemas serão resolvidos, mesmo havendo ainda amor. Ou seja, como diz o título do livro do criador da Terapia Cognitivo-Comportamental, Aaron Beck, o amor pode não ser suficiente

terapia de casal (TC) é um recurso importante, propiciando ao casal ferramentas emocionais para a manutenção do vínculo saudável. Alguns fatores que podem gerar estresse em uma relação estável:

  • a infidelidade (real ou imaginada);
  • o estilo de comunicação  –  Muitas vezes o estilo de comunicação da família de origem irá influenciar o estilo pessoal, podendo ser agressiva, passiva, ou passivo-agressiva;
  • a sexualidade/vida sexual – desejos, hábitos e expectativas –  Quem acredita como verdade absoluta que o amor é antídoto para desejar por outra pessoa, se surpreende ou decepciona  ao descobrir que o/a parceiro/a (ou ela mesma) sente desejo por outra pessoa;
  • finanças – como administrar os recursos e as despesas
  • filhos – ter ou não? como educá-los?
  • uso e abuso dos smartphones, aplicativos e redes sociais – a facilidade de encontrar parceiro/a/s – antigo/a/s  ou novo/a/s – gera muita insegurança e com isto tentativas de controle;
  • saúde mental – transtornos como ansiedade ou depressão de uma das pessoas ou ambas podem afetar muito a relação;
  • família de origem – a interferência, proximidade e cuidados dispensados, bem como o adoecimento dos parentes idosos.

Na prática, muitos destes aspectos se misturam. Na terapia de casal,   valores pessoais são debatidos e os do casal que se forma também. Assim é possível estabelecer acordos e o casal pode se engajar em ações compromissadas com os valores em todas estas áreas. 

não se fala quase nunca previamente do que o casal fará caso uma das partes - ou ambas - se envolva com outra pessoa. Se uma traição acontece pode significar o final, sem se imaginar o que fazer para tentar remediar a situação (caso haja amor e vontade de continuar

Poucos casais conversam, previamente, de forma aberta e sincera, sobre o que farão caso uma das partes – ou ambas – vier  a ter algum envolvimento (ainda que virtual) com outra pessoa. Talvez seja uma crença mágica de que, não falando, a infidelidade não acontecerá. Ou talvez seja ansiogênica demais a ideia de que o desejo sexual não se extingue ou pode estar além da pessoa agora amada, com quem se planeja uma relação estável.

A infidelidade é um tema que não se costuma conversar a priori. Por isto, quando acontece, muitas vezes é o motivo de  separação. A decepção muitas vezes impede o diálogo e, consequentemente, o perdão. Quem desiste do relacionamento e procura outro, sem ter analisado o que ocorreu, pode novamente se decepcionar. Não só porque não encontra a suposta metade da laranja logo à frente, mas porque não consegue reconhecer primeiramente que seres humanos são imperfeitos e que é preciso diálogo.

 

laranja

Felicidade dá trabalho“, já dizia João Cabral de Melo Neto. Há casais que se separam se amando, sim, porque não conseguem o básico: ouvir o que o outro tem a dizer, sem atacar, com compaixão e amor.  A terapia de casal (TC) treina as habilidades de comunicação  e ajuda  a desenvolver a flexibilidade psicológica,  uma das condições da saúde mental – para a Terapia de Aceitação e Compromisso, em especial. É importante mudar a crença de  que TC seja o ‘último recurso’ ou que é só ‘para oficializar a separação’. Na verdade, quando um casal busca ajuda psicoterapêutica é porque reconhece que não está conseguindo lidar com aspectos importantes no seu dia-a-dia sozinhos. E se compromete a fazer mudanças, juntos. Isto não significa que casais que não procuram não são, por si só, mais felizes. Muitos casais adiam buscar profissional e, segundo pesquisas,  levam, em média, 6 anos após começarem os problemas. Por terem passado do ponto, veem-se como fracassados e as chances de insucesso são grandes, contribuindo para manter a crença. 

No setting terapêutico  assuntos espinhosos serão discutidos, alguns que  não foram falados nem na época do namoro. Ali que se pressupõe uma escuta compassiva, mediadora, reflexiva, o que faz a terapia de casal se diferenciar dos papos com amigos e amigas, parentes ou até sacerdotes, que se posicionam, dando conselhos e opiniões, sem neutralidade. Por vezes, estas pessoas cobram atitudes e mudanças de comportamento, não entendendo as escolhas do casal. Se viver a dois já é difícil, incluir a opinião de toda a rede de amigos e parentes, testemunhas das divergências, tentando satisfazê-los, pode ser um problema a mais. Sem esquecer que a própria rede de contatos pode fazer parte do problema em si, por interferir na rotina do casal.  

Pessoas que hesitam em oficializar o relacionamento começam a buscar  terapia pré-conjugal  (ou pré-matrimonial), que se assemelha à terapia de casal tradicional. Ao contrário do que pessoas refratárias à terapia imaginam, a terapia pode aumentar as chances da relação ser satisfatória. Gastam-se tempo e dinheiro preciosos nos preparativos da cerimônia de casamento, discutindo lista de convidados ou reformas, mas não se tem o mesmo cuidado de se preparar para a relação, não se fala sobre o que é inaceitável – ou esperado – na relação diária.    Valores pessoais e  projetos de vida serão compartilhados, fatores que costumam ser estressores na vida a dois podem ser trabalhados na terapia pré-matrimonial, que é basicamente preventiva e de curta duração.   

 

 

em alguns momentos a terapia de casal pode ser incômoda, mas ela aumenta chances do relacionamento sobreviver e de forma mais satisfatória para ambas as pessoas.

Enfim, a terapia de casal possibilita melhorar e caminhar na direção do que  pessoas realmente compromissadas entre si valorizam e querem. Eventualmente,  pode ser um recurso para finalizar harmoniosamente um relacionamento, sem que se torne um litígio. Então, se o seu relacionamento não tem sido o que você e seu/sua parceiro/a imaginavam, deem-se uma nova chance: experimentem a Terapia de Casal.

Referências

Beck, A. T (1988). Love is never enough. New York: Harper & Row

Harris, R. (2009) ACT with Love: Stop Struggling, Reconcile Differences, and Strengthen Your Relationship with Acceptance and Commitment Therapy. Oakland: New Harbinger Publication.

Walser, R. D; Westrup, D (2009) – The mindful couple – how acceptance and mindfulness can lead you to the love you want. Oakland: New Harbinger Publications.

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Thays Babo é Psicóloga Clínica, Mestre pela Puc-Rio, com formação em TCC pelo CPAF-RIO e extensão em Terapia de Aceitação e Compromisso pelo IPq (USP). Atende a jovens e adultos em terapia individual ou de casal, em Copacabana

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