Talvez você tenha se surpreendido com este título. Mas, sim, há boas “brigas”. Brigas podem fazer você se relacionar melhor com o seu par amoroso.
Mas, calma lá: nada de violência! Seriam discussões, com respeito e regras. Nada que envolva agressão física ou verbal. Atualmente, como vocês discutem um assunto que é importante para vocês? Tudo pode melhorar, dependendo de como se discute. Ah, e também da frequência das discussões. E também do bom senso: nem todas as “brigas” valem a pena. Nem todos os relacionamentos são para durar.
Infelizmente, muitas crenças sobre o amor romântico prejudicam os relacionamentos amorosos. Inclusive sobre as discussões.
Crenças sobre os relacionamentos amorosos
Uma delas é que os casais que se amam não brigam, ou melhor, não discutem.
Esta, especificamente, é pouco realista. Afinal, as pessoas que formam um casal vêm de históricos familiares diferentes, com valores e estilos diferentes. E precisam se adaptar um ao outro.
Tais expectativas, advindas do amor romântico, fazem alguns casais desistirem fácil de um relacionamento. Ficam em um cabo de guerra sem saber como mudar. Às vezes, largam a corda, sem ter havido tentativas efetivas de mudarem, em uma direção comum.
Nas últimas décadas, a sociedade muda em ritmo cada vez mais acelerado. E os relacionamentos amorosos também. Por isto, é preciso desenvolver flexibilidade, tanto psicológica como cognitiva. Os valores do par amoroso merecem constante diálogo e, também, revisão.
Desafios da vida em casal
Viver a dois demanda flexibilidade e treino. Amar é uma habilidade, e não uma emoção. Como habilidade que é, pode ser treinada e aprendida, como diz o filósofo suíço Alain de Botton. Mas, para isto, é importante ter consciência das dificuldades de cada um. E, com esta consciência, também ter compaixão diante das vulnerabilidades – suas e as do outro.
A vida real demanda que se busque a solução para os problemas. E isto inclui aprender a lidar com suas frustrações e feridas emocionais, que muitas vezes são trazidas da família de origem ou dos padrões da cultura.
Não será este o verdadeiro amor: aceitar a outra pessoa como ela é, sem tentar modificá-la? Casar com a ‘esperança’ de mudar a outra pessoa, em geral, leva à decepção. Tanto quanto você, a pessoa amada é humana. Por isto, ambas são passíveis de erro – e também merecedoras de perdão.
Discussões não apontam para o fim e podem ser melhores do que o silêncio
The Gottmann Institute, especializado em pesquisas sobre casamentos, publicou um texto contrariando a crença de que casais não devem ir dormir brigados. As pesquisas do instituto apontam que, muitas vezes, o melhor a fazer pelo relacionamento é esperar um tempo para poder conversar. Os ânimos se acalmam e o diálogo se torna possível.
Por outro lado, se a comunicação se fecha totalmente e o silêncio se prolonga, pode ser indicativo da indisposição para negociar – ou sinaliza a desistência de mudar algo na dinâmica amorosa.
A forma de discutir é um indicativo da qualidade do relacionamento, segundo os Gottman. Por isto, habilidades de comunicação precisam ser treinadas. É preciso desenvolver uma escuta compassiva e atenta, não violenta.
O estilo de comunicação do casal
Se a tecnologia favoreceu a facilidade de comunicação, por outro lado, aumentou a ansiedade – inclusive da espera de resposta. Portanto, é importante que o casal estabeleça algumas regras e seja flexível. Nem sempre a ausência de resposta significa pouco caso ou abandono.
Porém, é importante que cada um se autoconheça. Pessoas que têm esquemas de privação emocional ou de defectividade podem se sentir muito desprestigiadas se o/a parceiro/a não fica disponível o tempo todo, por exemplo.
A ansiedade dispara, não conseguindo perceber o contexto da demora da resposta. Dependendo da estratégia de enfrentamento, pode surgir um conflito à toa, despropositado, porque atingiu seu ponto de vulnerabilidade. E a outra pessoa, ao se sentir questionada, pode também ter algum esquema acionado – e a discussão se prolongar.
Status de relacionamento
Os relacionamentos amorosos se tornaram o centro de vida para muitas pessoas, ao contrário do que aconteceu ao longo da história da humanidade. Antes, o fator determinante da união era o acordo financeiro estabelecido entre as famílias. Aliás, a pressão familiar era um fator fundamental para a manutenção dos casamentos. Assim, até meados do século 20, os casamentos duravam praticamente toda a vida – até que a morte separasse.
A duração não implicava em felicidade conjugal, algo que se persegue hoje. O que se considerava felicidade na época difere muito do que se espera hoje no Ocidente.
Hoje, a vida amorosa pode significar sua qualidade da vida como um todo, como disse a terapeuta de casais Esther Perel, em uma das suas muitas apresentações sobre o amor contemporâneo.
Há quem considere um ‘atestado de competência emocional’ e experimente grande sofrimento quando não está em um relacionamento amoroso.
Como fazer seu relacionamento dar certo?
Não existe receita de bolo, mas algumas dicas são consenso entre os terapeutas de casal:
- Aposte no seu autoconhecimento;
- Avalie (e repense) suas expectativas sobre relacionamentos, torne-as realistas;
- Aprenda a usar a comunicação não violenta;
- Seja flexível para negociar acordos que fortaleçam os vínculos.
A psicoterapia (individual ou de casal) pode contribuir para isto, ao rever sua história amorosa. Você também aprende a desenvolver flexibilidade psicológica e cognitiva. E estas são condições essenciais para a saúde do vínculo amoroso.
Também é fundamental que as pessoas ajam de forma compromissada com os valores que o casal estabeleceu. Na terapia de casal ou pré-matrimonial os valores são discutidos abertamente. E a partir daí pode-se assumir um compromisso de andar em relação a eles.
Temas tabu
Alguns assuntos não costumam ser abordados ‘preventivamente’. Talvez seja o medo de por o relacionamento a perder. Porém, o medo pode aumentara chance dele realmente não se manter. Por isto, antes de formalizar uma união, busque conhecer os valores do seu par. Estabeleça o que é ‘inegociável’.
Alguns assuntos são mais espinhosos de discutir nas sessões de casal, como, por exemplo:
- como administrar as finanças;
- divisão das tarefas domésticas;
- convívio com as respectivas famílias;
- passado amoroso;
- regras sobre a sexualidade: como lidar com eventuais casos de infidelidade, frequência sexual e fantasias.
Mas estas discussões – que eventualmente podem parecer ‘brigas’ – vão combater o pensamento mágico de que se há amor “tudo se resolve”. Evitar falar sobre estes tabus não impedem que aconteça uma separação.
Esther Perel, terapeuta de casais belga, que mora e trabalha em Nova Iorque, chamou a atenção com um olhar mais filosófico – e provocador – sobre os relacionamentos amorosos na era digital, em seus livros e palestras.
“O combinado não sai caro” .
Relacionamentos amorosos mais transparentes tendem a ser mais duráveis. Porém, muitas vezes, só se consegue estabelecer uma comunicação mais clara e não agressiva após um processo de psicoterapia.
Oprah Winfrey, em uma apresentação na Escola de Negócios de Stanford, mencionou 3 perguntas que, segundo ela, a ajudaram em várias situações (não apenas em relacionamentos amorosos mas, também). São elas:
- “Você me ouviu?”
- “Você me enxergou?”
- ” E o que eu disse significou alguma coisa pra você?”
Como se fazer ouvir
Muitas vezes quem inicia a discussão fala de forma magoada, ressentida – e muitas vezes agressiva. A outra pessoa se fecha e já não consegue ouvir o que está sendo reivindicado. Só quer se defender.
Terapeutas de casal propõem que, ao invés de começar a acusar o outro ou a criticar, ao iniciar uma discussão ou pedir uma mudança de comportamento, a pessoa deve colocar o foco em si. Ou seja, você deve dizer como se sente diante do comportamento do seu par.
Ao compartilhar suas emoções, as chances da outra pessoa ouvir e entender aumentam. Assim a mudança se torna mais possível.
Terapia de Casal ou Terapia Pré-Matrimonial
Algumas coisas serão trabalhadas tanto na terapia de casal como na pré-matrimonial. A Terapia Pré-Matrimonial é uma forma de prevenção para casais de namorados em dúvida sobre se devem ou não ir em frente e formalizar a relação. É importante que o(a) psi investigue:, como por exemplo:
O que uniu o casal ainda se mantém?
- O quanto cada um mudou? Com o passar do tempo, ambas as pessoas mudam! Estas mudanças podem desviar do que queriam no início.
- Ainda existem valores em comum?
- Quais as expectativas sobre o relacionamento?
- Qual a importância da sexualidade na relação?
Além da Terapia de Casal, a Terapia Pré-Matrimonial acontece antes da união.
Neste tipo de terapia, os casais conversam sobre assuntos “espinhosos”. Assim, podem se conhecer mais profundamente antes do grande desafio da convivência diária. Ao falarem de seus valores, terão de estabelecer acordos e aprenderem a negociar e a aceitar o outro como ele é.
Aumente sua tolerância e a flexibilidade consigo e com o seu par. Procure ajuda especializada: a psicoterapia pode ajudar vocês.
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Thays Babo é Mestre em Psicologia Clínica pela Puc-Rio, com formação em TCC pelo CPAF-RIO e em Terapia do Esquema pela Wainer e Terapia de Casal pela Atitude. Também tem extensão em Terapia de Aceitação e Compromisso pelo IPq (USP). Atende a jovens e adultos em terapia individual, pré-matrimonial ou de casal. As sessões podem ser online ou presenciais em Curitiba.
