Transtorno do comportamento sexual compulsivo – o que é

Muito bem falado pela crítica, Shame, filme de 2011, não é light ou erótico. É denso, incomoda. Assistimos a um verdadeiro drama existencial, não diagnosticado. O protagonista, Brandon, sofre de transtorno do comportamento sexual compulsivo.

O tema do filme é mais sobre a angústia do que o sexo

Michael Fassbender foi premiado em Veneza pela sua atuação. Mas os conflitos de sua personagem, Brandon, causam angústia aos espectadores mais sensíveis, ao invés de excitação. As cenas de sexo e o tão falado nu frontal do ator alemão, Michael Fassbender, que encheram os cinemas na época e causavam risos nervosos em parte dos espectadores, não é o principal. Com excelente condição financeira, Brandon não consegue ser verdadeiramente feliz. É um desesperado.

Na época do lançamento, a opinião de uma famosa psicanalista carioca me surpreendeu. Em sua entrevista, ela reduziu toda a problemática do protagonista, Brandon, negando sua ‘compulsão sexual’ (como era nomeado na época). Atribuiu seu sofrimento à culpa e à repressão social.

Cheguei a pensar  “ela não assistiu ao mesmo filme que eu!”

A “autoridade” em questão afirmava que não era um transtorno.  Claro que a sociedade impacta nos comportamentos, nas emoções. O contexto importa. Mas a origem dos problemas dele certamente não era esta.

Causas e consequências

Em Shame, Brandon ‘consome’ e é consumido pelo sexo. Em sua casa, recebe garotas de programa, tem inúmeros DVDs pornôs, acessa sites pornográficos. É importante lembrar que, nesta época, ainda não existiam smartphones. O acesso à p0rnografia era fácil, mas não tanto quanto hoje.

Não sabemos como e nem quando surgiu o descontrole sexual na vida de Brandon. Não sabemos quase nada da sua família de origem– a não ser que tem uma irmã, interpretada por Carey Mulligan (de Educação).

Quando esta reaparece em sua vida e traz mais dúvidas e problemas do que soluções, inclusive em seu trabalho. Esta chegada o desestabiliza. Ela  se instala, de uma hora para outra, e sem convite, no apartamento do irmão. 

O vínculo entre os irmãos é complexo, apesar de não ser aprofundado. Ficam dúvidas sobre o que aconteceu entre eles no passado. Teria havido uma relação incestuosa? Não fica claro.

No trabalho, Brandon não consegue se conter: quando o desejo vem no meio do dia, recorre à masturbação. E usa o computador do trabalho. Não consegue ter relacionamentos duradouros com nenhuma mulher.

Transtorno de controle e seus impactos

Compulsão é um comportamento que não pode ser evitado e interfere nas atividades da pessoa compulsiva. Pode ser por comida, por bebida, por drogas, jogos ou compras. Ou por sexo. Ou tudo isto junto. 

(Observação:  o DSM-V reviu alguns critérios de classificação).

Não é algo eletivo, que se escolhe ou não fazer. Com isto, traz prejuízos no dia-a-dia, na rotina. Vemos como isto prejudica Brandon profissionalmente.

Tais transtornos causam muitos conflitos. Não só na vida familiar e amorosa: a vida profissional, como aparece no filme, também pode ser afetada. Consome tempo e energia psíquica. Recorrer a profissionais da área da saúde mental é fundamental: integrando Psicologia e Psiquiatria. No filme, Brandon não busca nem uma nem outra. Não tem ninguém com quem se abrir. Não expressa o que sente – em relação à irmã ou à sua incapacidade de lidar com qualquer outra mulher.

Shame significa vergonha. O filme ‘desglamouriza’ o excesso de desejo, mostrando o que pode trazer de complicações para a vida como um todo.

Ou seja, não é o excesso de censura por vivermos em uma sociedade moralista, mas sim a falta de controle que se tem sobre o próprio desejo, a ponto de deixar que ele prejudique a vida como um todo.  

A quem recorrer quando o consumo de pornografia passa dos limites?

Brandon consome muita pornografia. Quando o filme foi lançado, a pornografia ainda não chegava pelo celular, que pode ser levado para qualquer lugar. Ele usava o computador do trabalho. Talvez, em breve, já se diga que nenhum nível de consumo de pornografia é seguro. Mas é preciso ajuda profissional, pois isto afeta relacionamentos e a própria autoimagem.

https://www.youtube.com/watch?v=y0skXOkH3NQ

http://youtu.be/y0skXOkH3NQ

No Brasil, o D.A.S.A. (Dependentes de Amor e Sexo Anônimos) é atuante em várias cidades, nos moldes do grupo AA.

O D.A.S.A é indicado para quem quer ajuda para quebrar este padrão, por já reconhecer seus prejuízos. 

Se você vem enfrentando este tipo de problema, procure ajuda psi. 

Thays Babo é psicóloga, Mestre em Psicologia Clínica pela Puc Rio. Tem formações em TCC, Terapia do Esquema, Terapia de Casal nas abordagens contextuais e extensão em ACT. Atualmente, atende apenas online a jovens, adultos e idosos em terapia individual, pré-matrimonial e de casal. Mais informações podem ser encontradas em seu perfil no LinkedIn.

Transtorno do comportamento sexual compulsivo – o que é
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