Vim compartilhar de passagem, rapidíssima, duas dicas de filmes que vão ficar para sempre na minha lembrança. Perdoem a formatação, está meio confusa, mas eu tinha de registrar estes dois filmes que, embora de estilos e nacionalidades diferentes, remetem a um passado bem recente: o século 20.


Um deles é O Pequeno Nicolau , filme francês que agrada pessoas de todas as idades.
Se você gostou de A Culpa é do Fidel, deve gostar deste, que também mostra uma encantadora ingenuidade infantil. A possível chegada de um irmãozinho dispara a imaginação de Nicolau, que se mete em muitas trapalhadas com seus amigos. Nada que uma boa conversa com os pais não teria esclarecido. Mas que não nos daria este filme tão delicioso.

Qual a receita de sucesso de O pequeno Nicolau? Levar os adultos em uma viagem no tempo, gerando um saudosismo gostoso. Bate uma saudade de quando a infância era uma fase de ingenuidade – que não mais existirá assim – pelo menos nos grandes centros urbanos.As crianças se identificam ainda com o que vivem na escola. Apesar das diferenças no sistema de ensino (temporal e geográfica), alguns tipos são eternos. São hilariantes os ‘tipos’ dos amigos de escola (o ‘CDF’, o comilão, o ‘burro’ como uma porta, o riquinho), a relação com os professores, inspetores etc. Com isto, a plateia volta em sua própria infância, em uma época em que não havia a vigilância anti-bullying.

Quem não teve fantasias apavorantes, quando pequeno? Quem não tremia ao ouvir fábulas como as de João e Maria, abandonados pelo pais? Ou O Pequeno Polegar… Mesmo quem, como eu, não conhecia e nem leu nenhuma historinha de Nicolau ( criação de René Goscinny – um dos autores de Astérix, bem famosa na França), deverá sentir carinho por todos os personagens desta história, que se passa no final dos anos 50.


A relação de seus pais – entre eles e com o filho – são marcantes. Mulheres que tentaram (ou ainda hoje tentam) aprender a dirigir com o marido ensinando, vão se identificar muito com a mãe de Nicolau. E os homens, pressionados pela rotina de trabalho, a vontade de ascender profissionalmente, o convívio com o vizinho, também. Enfim, tudo toca a gente. Só vendo! Falar mais estraga. O trailer dá uma provinha da delícia que é.






O outro é o documentário brasileiro Uma noite em 1967, sobre a final do terceiro Festival da Música Brasileira, realizado pela Record, em outubro daquele ano.




Quem já era grandinho, na época, vai reviver o clima da época. As músicas premiadas fazem parte da memória de qualquer bom conhecedor de MPB. É muito interessante que alguns detalhes dos bastidores foram revelados aos músicos apenas na época da filmagem. É ótimo ver suas reações às informações …


Para quem era criança ou ainda nem tinha nascido, o filme serve como uma boa aula de História da Música. Dá pra imaginar que, em algum momento do passado, Gilberto Gil foi um dos que entrou em uma passeata de protesto contra a guitarra eletrônica? Ou, hoje em dia, um repórter entrevistando alguém fumando? Enfim, o documentário não é só uma ‘aula’ sobre a MPB. Também é uma aula de História da Comunicação, de se fazia televisão, ao vivo, no Brasil dos anos 60, controlado pela ditadura militar.


Ah, não podia ficar de fora a reação explosiva de Sergio Ricardo às vaias. A cena marcou e é constantemente exibida em programas sobre Festivais. E depois de vê-lo explicando o que se passou, surge um entrevistado (esqueci o nome) apontando para uma possível coincidência ‘junguiana’ o fato dele quebrar a viola e existir, na música vencedora (Ponteio), o verso “Quem me dera agora, eu tivesse a viola pra cantar”). 🙂




Enfim, imperdível! Se não pelas músicas (Ponteio, Domingo no Parque, Roda Viva, Alegria, Alegria e um inacreditável samba defendido por Roberto Carlos – desculpem, mas, esqueci o nome desta, que ficou em quinto lugar. Fica registrado o meu conhecimento superficial e a memória fraca… 😉 ), pelo menos para ver Chico, Caetano (sendo ainda chamado de “Veloso”), Edu Lobo, Gil e Roberto Carlos. E mais: Nelson Motta, Sergio Cabral (pai), dentre outros estão lá com seus depoimentos e revelações .


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Duas preciosidades

8 comentários sobre “Duas preciosidades

  • 09/08/2010 em 16:24
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    Estou cheia de expectativa pra ver os dois. O Petit Nicolas me acompanhou quando comecei a aprender frances. Tenho alguns livrinhos dele muito divertidos. Deveriam lançar por aqui tb. E Uma noite em 67 estah na minha agenda. Vou ver. Depois debatemos. Bjus.

  • 09/08/2010 em 16:24
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    Realmente, o pequeno Nicolau é sensacional e os atores são incríveis!!!
    A sensibilidade do filme me lembrou um outro francês que eu também adoro ” O fabuloso destino de Amelie Poulain”.
    Acho que não dá para comparar os dois, mas a minha associação é puramente emocional, eu senti prazer semelhante em assistir tanto um quanto o outro, hehehe…
    Quanto ao documentário, não assisti ainda não, mas com certeza vou ao cinema para conferir…

  • 09/08/2010 em 16:24
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    eu desconhecia Nicolas, mas não sabia que não tinha em português, pensei que só fosse desinformação mesmo…

    “Uma noite” é muito interessante. Seria tão bom que reinventassem festivais – mas sem participação do público via internet ou 0800… rsrsrsrs

  • 09/08/2010 em 16:24
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    Naira, eu lembrei do “A culpa é do Fidel”, mas faz sentido o link com Amélie …
    Se eu tivesse tido mais tempo , ia viajar um pouco em Jung e os contos de fada ali no meu texto, rsrsrs
    bjs

  • 11/08/2010 em 16:24
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    1967 ficou faltando um pouco de história. E um pouco de polêmica também. Isso faz dele um filme linear e não tão vibrante quanto SIMONAL, por exemplo. Por que o público do teatro, tão desrespeitosamente, não deixou o Sergio Ricardo cantar? Por que nenhum cantor foi lá e intercedeu? Nao fizeram passeata contra a guitarra elétrica na música brasileira? Seria a classe média, toda arrogante, que apoiou meses antes a ditadura e se achava no poder ? Por que deixaram o cantor sozinho??? Acho que daria um pouco mais de polêmica ao filme.
    Pra mim o mais engraçado foi ouvir R. Carlos cantando um samba, Maria Carnaval e Cinzas, junto com um Coral com um tremendo sotaque portenho, os Beat Boys que, pra surpresa minha e muitos anos depois, vim a saber que eram argentinos. Bj

  • 12/08/2010 em 16:24
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    Nunca tinha ouvido aquela música, Henrique. Cinema é cultura!!!! Se não tivesse visto o filme, provavelmente continuaria sem conhecer, porque acho que nunca toca nas rádios (que nem a música do Sérgio Ricardo). E não deixa de ser muito engraçado saber que existia um Beat Boys – que pegaram carona nos Beach Boys, claro. Versão argentina, tudo a ver com a tradução ie-ie-iê para yeah, yeah, yeah…
    bjs!

  • 21/08/2010 em 16:24
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    Ontem finalmente vi Uma noite em 67. Acho que o filme nao tinha mesmo qualquer pretensao a uma reflexao mais profunda sobre a classe media e a epoca da ditadura. Mas, a coisa mais interessante, eh visitar uma epoca em que havia uma paixao gerada pela musica, como alguem comentou, quase como com o futebol. A Globo tentou reviver esse clima agonistico na musica com os MPB Shell na dec de 180, mas acho que nao deu. Cheguei a ir no Maracanazinho e vi, estarrecida, Lucinha Lins cantando sob um mar de vaias a musica vencedora. Corajosa! Por muito menos que um Maracanazinho lotado, Sergio Ricardo perdeu as estribeiras (acho que eu tb perderia). Me arrepiei logo no início do filme com Ponteio, musica que sempre amei. Imagina sob aquela forte emoçao! E, evidentemente, nao pude deixar de perceber a estetica: o smoking do Chico (com cara de… smoking) x Tropicalia (e aquela gente toda “fantasiada”), o vestido rosa schocking e “verde chuchu” da Cidinha Campos, os cilios postiços revelados, a camisa “discreta” do Roberto Carlos, o cigarro o tempo todo na mao do Blota Jr, os cabelos tipo Romeuzinho (acho que na carona da Beatlemania). Demais. Jah estou de olho no DVD para comprar.

  • 21/08/2010 em 16:24
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    ih, é, comentar os modelitos já inspiraria um outro post. Sinceramente, as músicas eram muito melhores dos que as de hoje, mas eu detesto o estilo dos anos 70…

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