Em abril de 2011, os inúmeros fãs de Catherine Zeta-Jones se surpreenderam com a notícia de que ela havia procurado tratamento para transtorno bipolar. Atriz inglesa de sucesso, que já conquistou um Oscar merecidíssimo, pelo filme Chicago, não deve ter sido fácil para ela assumir isto publicamente. Afinal, qualquer rótulo psiquiátrico é cercado por ignorância e preconceito. A comunidade científica agradece tal exposição. Graças à visibilidade que a doença terá a partir de agora, muitas pessoas poderão se reconhecer e buscar tratamento.



Mas, no que consiste este transtorno, exatamente? Antigamente conhecida como psicose maníaco-depressiva, também chamada de doença afetiva bipolar, a pessoa alterna momentos de euforia (mania) com depressão. A intensidade e a frequência dos ciclos variam e isto tem muito a ver com a adesão e manutenção de um tratamento medicamentoso e psicoterápico. Dependendo desta intensidade, pode ser mais difícil reconhecer os traços. Para isto, é fundamental a procura de um médico psiquiatra que poderá dar um diagnóstico mais preciso.

De uma forma bem resumida, o transtorno bipolar está dentro dos transtornos de humor. A fase da depressão é mais facilmente reconhecida e incomoda tanto que, em geral, é quando se procura ajuda – ou se é levado pelos familiares, preocupados com possíveis tendências suicidas. Porém, a mania pode ser inclusive mais perigosa já que a euforia traz sentimentos de ser super herói, invencível. A pessoa pode comer demais, beber demais, dirigir rápido demais, fazer sexo desprotegido, enfim, entrar em situações de risco justamente por achar que não corre risco nenhum. “A vida é bela demais para ter limites”.

Não é preciso ser profissional de saúde para deduzir que, tanto na depressão quanto na mania , as relações afetivas, sociais, familiares e muitas vezes profissionais ficarão muito prejudicadas. A família sofre e muitas vezes não consegue entender as mudanças da pessoa. Se for associado ao uso de drogas, o indivíduo pode ficar muito violento. As causas para o transtorno ainda não são bem conhecidas, mas passam pelo biológico e tem um componente hereditário. Pode surgir na infância, na adolescência e mesmo na maturidade. Fatores sociais, estresse e poucas horas de sono também podem contribuir – tanto para a normalidade quanto para o desencadeamento da doença.

Mas, é bom desmistificar: ser bipolar não implica em déficit de inteligência. Há vários exemplos de pessoas talentosíssimas na História que hoje se suspeita que foram bipolares: Vincent Van Gogh é um exemplo. Agora, Catherine Zeta-Jones, o que prova que se pode ser super criativo e produtivo, sem chegar a um extremo como foi o caso do pintor.

Certamente , muitos pacientes relutam em buscar ajuda pelo medo do diagnóstico, que vai lhe colar um rótulo. A ideia de ter tomar remédios – muitas vezes pro resto da vida – assusta, trazendo também o medo dos efeitos colaterais da medicação. No entanto, com acompanhamento médico competente, aliado à psicoterapia, aumenta-se muito a chance de se ter uma vida tão ajustada quanto a de pessoas ditas “normais”. Se bem que, como se diz, “de perto, ninguém é normal” 😉

Parceiros sexuais ou cônjuges de pessoas com transtorno bipolar muitas vezes sofrem e, sem que se deem conta, colocam em risco sua própria saúde física e mental. Física porque, se na fase maníaca, a pessoa faz sexo indiscriminadamente, com vários parceiros diferentes, cedendo aos seus desejos impulsivos, sem uso de preservativo. E mentalmente porque, face a tais mudanças de humor, pode afetar sua própria autoestima. Afinal, como entender que uma pessoa que só tece elogios, de repente, se torne capaz de ser fria e agressiva, dizendo qualquer coisa que lhe venha à cabeça? Ah, claro, é bom lembrar que o transtorno de humor é bem mais grave se aliado a algum transtorno de caráter. Por exemplo, podem haver traços de crueldade, em ter prazer em falar coisas que choquem ou que arrasem a outra pessoa. Muitas vezes estas pessoas não vão falar de seus problemas com amigos ou parentes, com vergonha de mostrarem o que passam . Ou também por não entenderem do que se trata. Se não tiverem uma boa autoimagem, não sabem separar o que é delas e o que é do outro, ou seja, da pessoa que é bipolar.

Em termos profissionais, dependendo da profissão, a pessoa que não se cuida também pode ter muita dificuldade de adotar uma rotina ou horário de trabalho rígidos. Pode saltar de um trabalho para outro, tendo muitos conflitos no ambiente profissional, justamente por ter um humor tão instável.

Em suma, se você se reconhece nos sintomas (existem vários sites na internet que listam alguns deles), procure logo ajuda profissional. E trabalhe suas questões emocionais e relacionais com a ajuda de um/a profissional de Psicologia. Tem sempre algum/a perto de você.

E quem precisa de um rótulo?
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