A delicadeza do amor  é uma comédia francesa, protagonizada por Audrey Tautou – a eterna e doce Amélie Poulain. Logo de início, o filme nos relembra a imprevisibilidade da vida que, por mais que se queira controlar, não se submete ao nosso querer. Tautou interpreta Nathalie, jovem viúva, totalmente fechada a qualquer novo relacionamento amoroso por três anos, lamentando a perda do marido, que parecia mesmo um príncipe encantado. Dedica-se totalmente ao trabalho, tornando-se workaholic – uma forma conhecida de não lidar com a angústia existencial. 

é importante um tempo para elaborar a morte das pessoas queridas. E quando se trata de um relacionamento amoroso mais ainda, para não refletir nas possíveis relações futuras.

é importante um tempo para elaborar a morte das pessoas queridas. E quando se trata de um relacionamento amoroso mais ainda, para não refletir nas possíveis relações futuras.

Nathalie, totalmente fechada à aproximação de outros interessados, poderia ser um prato cheio para qualquer psicoterapeuta. Porém, a jovem viúva tem valores bem definidos e não cede só por solidão ou carência. Resiste à opinião dos demais e de certa forma ‘banca’ sua escolha. Decididamente, não é uma heroína frágil. Um dia, distraidamente, Nathalie tem um comportamento totalmente imprevisível, não intencional, que provoca uma reviravolta sua vida. Detalhe, esta não era sua intenção. Foi um comportamento totalmente sem atenção – mindless. (Se não quiser perder a ‘surpresa’, nem veja o trailer. Se continuar, tem spoilers à frente…)

O que Nathalie fez? Do nada, beija um funcionário de seu escritório, Markus. Seu subordinado não é charmoso, não se veste bem, não tem um corpo atraente e sempre passou totalmente desapercebido no seu escritório. Markus sequer cogita que tenha sido um assédio – como talvez se passasse com alguém nos Estados Unidos. Pelo contrário: passa a se achar especial e, pelo menos por um dia, vê o mundo a seus pés. Ao descobrir que tudo foi um episódio isolado, em que a chefe não estava com plena atenção, Markus consegue ir em frente. Sua arma principal principal para se aproximar é o seu humor – bem como a sua delicadeza e atenção para detalhes. A partir daí, tudo começa a mudar no escritório em que trabalham.

O estranhamento em torno do affair entre Nathalie e Markus é bem característico da nossa época e sociedade de consumo. Os grupos exercem (ou tentam exercer) influência sobre a escolha amorosa e a ‘patrulha’ de amigos desconsidera muitas vezes os valores individuais das pessoas envolvidas. As pessoas próximas à Nathalie enfatizavam a estética – talvez uma tendência dos franceses – e seu interesse por uma figura tão fora do padrão provoca estranhamento.  Muito se lucra com a  beleza e a elegância, que movem as indústrias da moda, da saúde, da cosmética, dentre outras. Sabemos que homens e mulheres se sacrificam para terem uma aparência de juventude e beleza – desde tempos imemoriais. Assim, se mantêm atraentes e com “valor” no mercado amoroso – e até no profissional. Esta ênfase na estética não necessariamente traz mais felicidade apesar de ser  sabido que a aparência determina, muitas vezes, o prestígio social e sucesso – inclusive profissional (vários estudos apontam a importância da aparência em processos seletivos). Mas também pode gerar endividamento e problemas em consequência a esta obsessão.

Poder ir contra tais padrões de consumo (de pessoas) e apostar na felicidade – totalmente pessoal e intransferível – por conta própria é para poucos. 

O filme completo está disponível no Youtube (fevereiro de 2018).

Superar o luto e, além disto, conseguir ir contra a pressão e à opinião das pessoas amigas é para quem está muito comprometido com seus valores pessoais. Você conhece os seus valores e consegue agir de acordo com eles? Procure ajuda psicoterapêutica para avançar. 

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Thays Babo é  Mestre em Psicologia Clínica pela Puc-Rio, na linha de Família e Casal. Tem formação em Terapia Cognitivo Comportamental (TCC) pelo CPAF-RIO e fez extensão em Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) pelo IPq (USP).

Atende a jovens e adultos em terapia individual ou de casal, no Centro do Rio e em Copacabana
 

Luto amoroso – como recomeçar?
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2 comentários sobre “Luto amoroso – como recomeçar?

  • 03/06/2012 em 16:24
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    Também fiquei com vontade de ler o livro… O filme é “gracinha” porque, como você disse muito bem, sintoniza com nosso desejo de encontrar um parceiro delicado e cheio de humor – que sabe rir até de si mesmo -, ainda que completamente fora dos padrões atuais de beleza. Eu me apaixonei por Markus – confesso!

  • 03/06/2012 em 16:24
    Permalink

    Claudia,
    Sabe, conheço várias pessoas que nem conversariam com um Markus. Ou homens que não trocariam nem uma palavra com uma mulher tão ‘estroncha’ quanto ele era, acham que isto só seria admissível mesmo em um filme romântico. Enfim…

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