Depois de assistir a O Solteirão, repito as mesmas perguntas que já postei noutros textos meus: ‘quem traduziu o título? Quem produziu o cartaz – e quem escreveu a resenha – assistiu ao filme?’. Se alguém foi ao cinema acreditando que assistiria a uma comédia, como dito em algumas sinopses, se surpreendeu, mais uma vez, com a imaginação dos redatores. Pode até ter se decepcionado.

Fui uma destas pessoas que se surpreendeu. Começando pelo título, o tal ‘solteirão’, Ben Kalmen, interpretado por Michael Douglas, é divorciado, tem filha e neto. O que já é bem diferente do estado civil – e social – que o título prometia, não é, não?

(Um pequeno parêntesis sobre pessoas solteiras. Homens ‘solteirões’, de verdade, devem sofrer ainda mais pressão do que as mulheres, visto serem tão raros. Sim, as mulheres ainda são pressionadas em 2010. A cobrança social varia de acordo com a latitude e longitude em que se mora, bairro e classe social. A facilidade com que se lida com isto está diretamente ligada às inseguranças de cada uma. Quanto aos homens solteiros ou descomprometidos, os que resistem muitas vezes têm sua orientação sexual questionada. Poderiam ser vistos como heróis, por resistirem à pressão, mas, na vida real, são vistos como desajustados, párias ou ameaças. Mostrar que se pode ser feliz sozinho incomoda demais a quem está mal em um relacionamento mas não ousa separar… E tem todo o ‘mito’ de que ‘é impossível ser feliz sozinho’. Enfim, tema para outro post, provavelmente)


Passando ao cartaz, abusaram da computação (Photoshop?), para tratar a imagem de Ben. E a moça de biquini? Provavelmente um recurso (baixo) para atrair os homens a acompanharem suas parceiras / amigas ou pretendidas no filme ‘comédia romântica’. Não sei se conseguiu a missão, que eu saiba não foi um sucesso de bilheteria por aqui.

Mas, deixando a perfumaria de lado, passemos à história, que pode provocar alguma reflexão, para uma plateia mais madura. Ben Kalmen (Michael Douglas) não é um solteirão: ele é um homem solitário – que é o título original. Longe de ser uma comédia, o filme trata de questões existenciais que atingem a todos, como o declínio, o envelhecimento – e, projetando-se no tempo, a morte. Incomoda. E a gente acaba reconhecendo em Ben pessoas que encontramos no nosso dia-a-dia, que também se desesperam e usam estratégias (risíveis para algumas pessoas, tristes para outras) para se esquecerem de que envelhecem.

O filme começa com Ben, um bem sucedido vendedor de carros, indo a uma consulta médica de rotina. Seu médico pede alguns exames para esclarecer uma suspeita de cardiopatia. Há um avanço no tempo, e o filme retoma mostrando Ben 6 anos depois da última consulta. Ah, se não viu o filme, pare por aqui para não saber mais do que deveria. À frente, há spoilers, sendo o trailer o principal.

Ben perde tudo o que tinha construído, divorcia-se e tem uma relação com a filha totalmente inadequada. Namora uma mulher poderosa, interpretada por Mary-Louise Parker, que pode ajudá-lo a recuperar tudo o que tem. Este é o motivo para estar com ela – mas Ben a trai sistematicamente. A filha dela (a ótima Imogen Poos) percebe quem ele é, melhor do que a mãe, e o desafia e provoca o tempo todo. Ele mete os pés pelas mãos e joga fora a melhor possibilidade de reconstruir o futuro. Facilmente torna aliados em inimigos.

Ao longo do filme, vemos que Ben não foi sempre assim. A possibilidade de estar doente fez com que ‘pirasse’, entrando em um processo acelerado de autodestruição. Com o desespero e a bancarrota, constata a solidão intrínseca. E só a piora. Não se conformar com estes ‘presentes da existência’, costuma ser algo muito destrutivo. Ben colabora ativamente para que suas relações se deteriorem, inclusive as familiares. A plateia pode reconhecer tipos como ele, encontrados na vida real. Talvez não tão ricos e poderosos, como ele foi um dia, mas que de uma vida ‘estável’ vão à miséria (ainda que só afetiva), se afundando completamente.

Talvez o melhor do filme seja os vínculos verdadeiros que ele estabeleceu ao longo da vida. São poucas as pessoas com que pode contar: basicamente, só sua ex mulher (Susan Sarandon) e seu amigo de adolescência lhe estendem a mão, surpresos com o rumo que sua vida tomou. Sua filha se afasta por profilaxia, aconselhada pelo marido e sua psi.

Mas, talvez, o que lhe ensine mais é a amizade com um jovem estudante, que o admira, por conselhos que poderiam ter sido muito mal aproveitados. Ben então é obrigado a recomeçar, a contragosto e se vê tão perdido como muitos jovens se veem na hora de decidir o futuro. Mais desesperado: ele só vê, à frente, a sombra do que já foi e não tornará a ser.

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O homem apavorado

2 comentários sobre “O homem apavorado

  • 06/11/2010 em 16:24
    Permalink

    Puxa, fiquei com pena do personagem.
    =/
    Meu único medo é adoecer. No mais, estou cheia de planos!
    😉

  • 06/11/2010 em 16:24
    Permalink

    Monica, obrigada pelo comentário! É, adoecer deve ser fogo. Para isto, me cuido! Tenho a impressão de que as espectadoras não ficam com pena, devem ficar mais revoltadas até – lembrando dos Ben´s que já conheceram…
    Se você não viu, saia daqui, porque vou contar algo…

    [SPOILER]
    O que mais surpreende é descobrir que ele não foi fazer o exame. Decidiu viver como se estivesse doente – e foi metendo os pés pelas mãos. Apavorado e meio burrinho, não? rsrsrs

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