Muito bem falado pela crítica, Shame, filme de 2011.  não é  light ou erótico. Denso, incomoda. Quem vai atraído pelo tema – compulsão sexual – pode se decepcionar. Sim, há cenas de sexo e o tão falado nu frontal do ator alemão, Michael Fassbender. Porém, os conflitos do personagem angustiam. Pelo papel, Fassbender foi premiado em Veneza como melhor Ator.

O que me motivou a resenhar o filme foi  ouvir em uma rádio uma entrevista de uma famosa psicóloga carioca, que reduziu toda a complexa problemática do protagonista, Brandon. Segundo a psi, seu problema não era a compulsão sexual mas sim a culpa e a repressão que nossa sociedade nos impõe. Cheguei a pensar que ela não assistiu ao mesmo filme que eu. Provavelmente ela não acredita que isto possa ser um transtorno. Opiniões  de uma suposta ‘referência’ em sexualidade pode fazer um estrago e tanto. Quem vai dar conta destas consequências? 

Moralismos à parte, ser reducionista a tal ponto, aponta para uma conduta irresponsável como psicóloga. Comportamentos compulsivos muitas vezes, além dos vários problemas que trazem para a vida do indivíduo (na vida familiar, amorosa e também profissional, como aparece no filme), implicam também em descuido com a saúde sexual. Enfim, é um assunto a ser entendido e, sendo mesmo o caso, que se procure ajuda para tratar a compulsão. Então a primeira pergunta é: existe compulsão sexual? Aliás, antes disto: o que é compulsão?

Compulsão é um comportamento que não pode ser evitado e interfere nas atividades da pessoa compulsiva. Não é algo eletivo, que se escolhe ou não fazer. Com isto, traz prejuízos no dia-a-dia, na sua rotina, já que não se consegue evitar. A compulsão pode ser por comida, por bebida, por drogas, jogos. Ou por sexo. Ou tudo isto junto.  (Observação:  o DSM-V reviu alguns critérios, é bom rever)

Em Shame, Brandon é compulsivo por sexo. (Outro filme excelente que inicia com o tema, mas, infelizmente depois envereda por outro caminho, virando um thriller, é “Entre as pernas”, com Javier Bardem e Victoria Abril. No filme espanhol, no entanto,  ao final fica claro que os protagonistas não são exatamente compulsivos – mas certamente este é o caso de Brandon, como fica claro ao final de Shame).

Brandon ‘consome’ e é consumido pelo sexo. Em sua casa, recebe garotas de programa, tem inúmeros DVDs pornôs, acessa sites pornográficos. No trabalho, também não consegue se conter: quando o desejo vem no meio da jornada de trabalho, recorre à masturbação. Não consegue ter relacionamentos duradouros com nenhuma mulher. As cenas, porém , não são tão eróticas assim, pois a angústia do personagem aparece o tempo toda nelas. O desespero bate com a chegada da irmã, , interpretada por Carey Mulligan (de Educação) que se instala, de uma hora para outra, e sem convite, no apartamento do irmão. O vínculo entre os irmãos é muito mais complexo, apesar de não ser aprofundado. Ficam dúvidas sobre o que aconteceu entre eles no passado.

E a vergonha? Brandon não busca nenhum psi e ele não tem ninguém com quem se abra e expresse o que sente – em relação à irmã ou à sua incapacidade de lidar com qualquer outra mulher. Seu comportamento começa a impactar também na sua vida profissional e o expõe. De certa forma ‘desglamouriza’ o excesso de desejo, mostrando o que pode trazer de complicações para a vida como um todo. Ou seja, não é o excesso de censura por vivermos em uma sociedade moralista, mas sim a falta de controle que se tem sobre o próprio desejo, a ponto de deixar que ele prejudique a vida como um todo.  Existem vários pontos em comum com outros comportamentos aditivos.

No Brasil, o DASA (Dependentes de Amor e Sexo Anônimos), atuante em várias cidades, nos moldes de outros grupos como AA, pode ajudar a lidar com o comportamento sexual aditivo. Se você vem enfrentando este tipo de problema, procure ajuda psicológica. 

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Thays Babo é psicóloga, Mestre em Psicologia Clínica, pela Puc-Rio. Atendimento psicoterapêutico individual e de casal,no Centro e em Copa

A vergonha de ser quem se é
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