Algumas vezes, no tocante a filmes, críticas especializadas ou mesmo recomendações de amigos nos decepcionam bastante. Comento aqui uma das poucas vezes em que tive ímpeto de abandonar a sala de cinema – mas, infelizmente, não o fiz…

Foi quando resolvi assistir a Simplesmente feliz, filme britânico, comentado por Betty Lago no programa Saia Justa, do GNT. Deveria ter desconfiado que não valia a pena, pois Betty fez alguma comparação entre a protagonista, Poppy, e Poliana. Se detestei Poliana e Poliana moça – livrinhos chatos que li na adolescência – como poderia gostar do filme?

Poliana, pra quem não conhece, era uma menina super otimista que fazia ‘o jogo do contente‘. Ou seja, sempre via o lado bom nas coisas mais trágicas e difíceis que lhe aconteciam. Até aí, tudo bem. Pessoalmente, sou bastante otimista e não me deixo abater frente a problemas e crises. Mas rir feito hiena e negar a realidade como Poliana ou como o  protagonista do filme italiano A vida é bela (que, imerecidamente ganhou vários Oscar, em 1998),  me dá agonia.

Dez anos depois, a atriz Sally Hawkins ganhou o Urso de Prata em 2008 e o Globo de Ouro por um papel que corresponderia ao do italiano. A história de Simplesmente feliz, no entanto, se passa em Londres, nos tempos de hoje. Sim, Sally atua bem, mas o problema não é a atriz. É o papel.



O que me surpreendeu é que a maioria dos comentários online é elogiosa. Os críticos destacam o modo Poppy de ser,  como se só houvesse duas possibilidades, extremadas: neurótica, infeliz, prestes a explodir – como o instrutor, Scott, representado por Eddie Marsan (de 21 gramas) ou a da protagonista, completamente fora da realidade, com um tipo de humor  pastelão.

A vida pode – e deve – ser vivida de forma lúdica, brincalhona, descontraída – e não levada como um drama. Mas, apesar de Poppy mostrar-se, no trabalho, responsável e sensível, em sua vida cotidiana, ao negar a realidade, custa a ver as pessoas que tem à sua volta. Fica aturdida, mas nada a abala. Parece que nada a fará ser adulta.

O que talvez tenha me aborrecido seja justamente esta ‘moral da história’: ter comportamentos infantilizados é ser saudável; adulto responsável  é neurótico.

Talvez sejam apenas formas de ser…

Simplesmente idiota

7 comentários sobre “Simplesmente idiota

  • 21/04/2009 em 16:24
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    O filme deveria se chamar “Simplesmente idiota” e não “Simplesmente feliz”. Só consigo compreender as críticas elogiosas ao filme pelo viés político: em tempos conturbados e de incertezas, deve ser politicamente correto gostar de filmes como esse, que exalam uma pretensa alegria (ou euforia).

  • 21/04/2009 em 16:24
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    Antonio Augusto, o título original (Happy-go-lucky) era melhor. A expressão idiomática inglesa (carefree ou easy going) poderia ter sido traduzida como “Vivendo despreocupadamente” – afinal, “Simplesmente feliz” também não me parece que ela era! mas nada salvaria o filme!

    Obrigada pelo comentário, muito pertinente!

  • 22/04/2009 em 16:24
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    Thays, como você sabe, eu tenho opinião diferente (e fui culpado por inflar um pouco suas expectativas, haha)…

    Mas, enfim, gostei do filme – o que não significa que aprovo a postura de vida da Poppy. Aliás, não acho que o filme seja tão simpático assim ao personagem dela. Eu vejo uma Poliana na superfície, mas salpicada de tristeza. Como você disse no comentário acima, eu não vejo “simplesmente feliz” nela. É uma existência até triste, mas, pra mim, é interessante ver uma maneira sui generis de enfrentar o vazio da vida urbana: ela é sozinha, mal paga, se dá mal com a irmã, etc… ela enfrenta do jeito meio infantil que consegue.

    Pelo menos, ela não é cínica. Acho que este é o trunfo do filme.

    Bom, vamos pro próximo, quem sabe a gente chega num acordo!

    Abraços,
    Ricardo

  • 23/04/2009 em 16:24
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    Oi, Thays!
    Eu que agradeço por vc ter sido das pouquíssimas que não tiveram ímpetos de me bater depois de ler meu post!
    hahahahahaha
    Tenho uma amiga cineasta que quis fritar meu fígado! Pra vc ver como o mundo anda cheio de figuras inteligentes, mas crentes em um mundo fluffy possível!

    Beijo e brigada pela visita

  • 26/04/2009 em 16:24
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    Ricardo, eu vi o filme e escrevi logo depois o comentário – estava bem mal humorada… Minha opinião se aproximou da Bela , aqui de cima…

  • 20/07/2010 em 16:24
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    Thays, o filme me incomodou. Isso eh fato. Logo a primeira sequencia, na livraria, me irritou um pouco. O atendente respondendo atravessado, e ela, incansavel em seu sorriso e tranquilidade. No inicio me incomodei com ela, mas depois pensei: nossa, as pessoas no ambiente urbano sao tao desagradaveis quanto o livreiro e nao vemos nada de errado nisso. O instrutor da auto-escola interpretou o comportamento dela como algo distinto do que ela queria. Fiquei pensando no quanto nos incomodam as pessoas que se dizem “bem resolvidas”, e como ficamos o tempo todo pensando em o que estah por tras de tanto bom humor e tranquilidade, e, principalmente, no quanto vemos como naturais as atitudes como as do instrutor e as do livreiro. Por isso nao sei se gostei ou nao do filme. A postura dela era irritante. Mas por que sertah que eu achei a postura dela irritante???

  • 24/07/2010 em 16:24
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    Solange, a gente sabe que as pessoas nos grandes centros são muito mal humoradas, apressadas, tendem à grosseria… Ela foi pro polo oposto! Mas será que não dava pra ficar no equilíbrio? Otimismo e bom humor são essenciais, não sair do eixo frente à descortesia alheia é algo que eu gostaria muito de alcançar um dia (está nas minhas metas, rsrsrsrs)

    O que me irritou foi a ingenuidade dela. Ou melhor, ela era inconsciente. Isto sim me irritou. Não é o mesmo que ‘pureza’. Ingenuidade em criança eu entendo e acho lindo. Com as crianças, ela estava ótima. Mas no trato com os adultos, ela deixava muito a desejar. E todos os trejeitos dela, risinhos, tudo, tudo , me parecia meio patológico. Em uma jovem londrina, acho muuuuuuuuuito deslocado. Pra mim, sem dúvida, ela era uma chata. E que roupitchas, hein? (E lá se foi a imparcialidade… rsrsrsrs)

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