Muito se tem falado na mídia sobre a população LGBT. Pessoas transgêneras têm conquistado maior visibilidade e alguns programas de tv por assinatura contribuem para que a sociedade, apesar de ainda muito julgadora, comece – bem lentamente – a entender do que se trata. Mas, a violência contra transexuais e transgêneros permanece altíssima e, por isto, é importante falar cada vez mais da diversidade – principalmente agora em que o Brasil parece retroceder em termos de direitos humanos. Não se fala tanto, porém, sobre a violência contra bissexuais. Não se fala muito sobre sexualidade humana na graduação de Psicologia e nem na de Medicina, de modo geral. A falta de informações faz com que muitos profissionais não entendam que bissexualidade existe, sim, perpetuando a bifobia, que vem igualmente  de heterossexuais, gays e lésbicas bem como  dos próprios bissexuais. E, assim, também a violência contra esta população. Mulheres bissexuais, em especial, sofrem muitos assédios e violência sexual.

Por conta da pouca divulgação de estudos sobre esta orientação sexual, há bissexuais que até se questionam: “será que um dia eu me defino?“. Há quem acredite que a bissexualidade seja apenas uma fase de experimentação (mais aceita entre os jovens), antes de uma transição definitiva para os pólos. 

 

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Segundo a escala Kinsey, com dados sobre a sociedade americana, apenas 50% da população é exclusivamente heterossexual. Ou seja, a diversidade é a norma e a orientação sexual pode ser fluida, momentânea, para grande parte da população. 

Pessoas famosas, estrangeiras ou não, cada vez mais têm se declarado bissexuais. Porém, a mídia muitas vezes fala que a pessoa  ‘assumiu sua homossexualidade’. Apesar da discussão sobre a existência da bissexualidade ser, realmente, limitante, é muito necessária, para combater a bifobia. No twitter, em 2016, a hastag #FoiBifobiaQuando ajudou a identificar algumas situações em que ela se apresenta.

E quais são as principais crenças que se tem sobre bissexualidade?

  • Bissexuais só querem ‘o melhor de ambos os mundos’: as vantagens sociais da heterossexualidade e o prazer ilimitado.
  • Bissexual é quem ainda não se decidiu;
  • Bissexuais são incapazes de serem fiéis ou ficarem em uma relação compromissada;
  • Bissexuais gostam de orgias, sexo grupal, ménage etc
  • Bissexuais são pedófilos em potencial.

Mas, tanto héteros e homossexuais têm também  comportamentos que atríbuem aos bissexuais. Não querem relacionamentos com bissexuais por acreditarem que serão mais traídos, tentando esquecer que a infidelidade ocorre, independente da orientação sexual. É só olhar ao redor – ou consumir um pouco de mídia. Esta crença faz com que muitos bissexuais não declarem sua orientação, para não deixarem seus pares mais inseguros. Esconder o comportamento bissexual de seu par contribui para que as pessoas com quem se relacionam fiquem confusas e inseguras, gerando um ciclo vicioso e reforçando a ideia de que “não são confiáveis”. Quem descobre em algum momento a bissexualidade do/a parceiro/a, sente-se mais enganado. 

Na minha pesquisa sobre o tema, entrevistei bissexuais que também não conseguiam entender  (ou aceitar) que tinham desejos por ambos os sexos. Aqueles que acreditavam que a bissexualidade seria um transtorno sofriam muito.

A bissexualidade, tanto quanto a homossexualidade, abre debates que envolvem juízos de valor e valores morais. Pessoas que se dizem religiosas muitas vezes rotulam como algo pecaminoso, algo a ser corrigido. A Medicina e a Psicologia declaram que a orientação sexual, por si só, não está relacionada a nenhum transtorno mental, sendo proibido tratamento para “mudar” a orientação sexual (se você souber de algum profissional que tente, denuncie aos respectivos Conselhos).

Na verdade, o armário bissexual tem duas portas: uma para homossexualidade, outra para a heterossexualidade. Abrir ambas ao mesmo tempo requer muito mais do que coragem: requer autoaceitação e entendimento. Afinal, é duplamente difícil se assumir como gostando de ambos os sexos – por vezes indistintamente, por outras com alguma preferência, seja pelo comportamento ou estilo de vida. Quem tenta buscar explicações para se justificar perante a sociedade e não as encontra sofre ainda mais.

A Psicoterapia pode ajudar no processo de autoaceitação da bissexualidade, desde que se encontre um/a psicólogo/a que não tenha bifobia,    respeite e compreenda a diversidade sexual, sem  pressionar para nenhuma tomada de decisão.  Se você não consegue se sentir à vontade com o que você realmente deseja, fale sobre isto. Procure ajuda psi. 

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Thays Babo é Psicóloga Clínica, Mestre pela Puc-Rio, com formação em TCC pelo CPAF-RIO e extensão em Terapia de Aceitação e Compromisso pelo IPq (USP). Atende a jovens e adultos em terapia individual ou de casal, em Copacabana

Sobre a bissexualidade
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