O Oscar 2010 já se foi sem que todos os filmes estreassem no Rio de Janeiro. Como sempre, houve surpresas na premiação e a principal foi Guerra ao Terror – lançado diretamente em DVD – desbancar o favorito Avatar nas categorias Melhor Filme e Melhor Diretor, que ficou restrito aos prêmios técnicos.

Up! (que faturou o Melhor Animação e também concorria a Melhor Filme), Julie & Julia (que indicou mais uma vez Meryl Streep à Melhor Atriz) e Up in the Air (com o inacreditável título brasileiro de Amor sem Escalas, com George Clooney, que concorreu, juntamente com duas atrizes coadjuvantes) já foram comentados neste blog. Neste post, então, falarei de Educação (indicado a Melhor Roteiro e Melhor Atriz, e que saiu sem nenhum prêmio), Coração Louco (que deu o Oscar de Melhor Ator a Jeff Bridges) e O Segredo dos Seus Olhos (que arrebatou o Melhor Filme Estrangeiro).

Nos próximos dias, devem aparecer os comentários de alguns dos que faltam na minha lista: Fita branca, O Mensageiro e Direito de Amar (prefiro o título original: A single guy. Mas, fazer o quê, se os tradutores não fizeram o ciclo básico de um cursinho de inglês? 🙂 )

Educação, filme roteirizado por Nick Hornby, conta a história de uma estudante inglesa, de 16 anos, nos anos 60. Filha única, sonha em ir para a Oxford, para fugir da vida restrita que tem. Aplicada, estuda francês e flerta com o existencialismo, destacando-se dentre suas amigas pela sua maturidade. Seu pai, interpretado por Alfred Molina, a restringe em tudo. Interfere no seu namoro com um colega de escola e deposita nela todas as expectativas de mudar de vida. E tudo muda no dia chuvoso – as usual , em Londres – em que conhece David, homem mais velho que se interessa por Jenny e passa a frequentar sua casa . Para surpresa da jovem, seu pai – tão repressor e antipático com o jovem namoradinho – se mostra encantado com o playboy e vai permitindo que Jenny saia para conhecer o mundo com ele. E logo Jenny descobre que tudo que a encanta não é exatamente tão bonito como parece.

Este não é mais um filme sobre amor. Podemos ver nele o rito de passagem de menina à mulher, de Core à Perséfone. Como o trailer sugere, há uma ‘educação’ que não é a escolar, tão importante quanto. Se você não viu o filme, melhor pular os parágrafos seguintes , que serão spoiler.

Como outros tantos filmes, a relação entre Jenny-David puer-sênex representa a atração entre jovem-velho (no caso, nem tão velho assim, mas o suficiente para fazer o contraponto entre a experiência e a ‘inocência’). Esta relação arquetípica traz conflitos mas também traz crescimento. O que é aparentemente simples história de atração e sedução da jovem pelo homem mais velho, experiente, que tanto vemos nas telas e na vida real, possibilita vários focos de análise.

Um deles pode ser a relação dos pais com a filha – outro exemplo do puer-senex. Como um pai tão conservador cede tão facilmente? Inicialmente, limita todas as possibilidades de crescimento e expansão da filha. Mas basta aparecer um cavalheiro com a possibilidade de conseguir um bom casamento para a filha que cede. Descrença no potencial da filha? Ou ainda um modelo de vida, vigente nos anos 60 – para algumas famílias, até hoje? Ou medo – como ele mesmo diz. Há um toque existencialismo na solução dos problemas pela protagonista, que não se vê determinada pelos pais que tem – apesar de poder contar com eles para se reestruturar, numa virada em que o próprio pai revê seus conceitos. Enfim, o crescimento veio para toda a família.


Além de podermos destrinchar a relação parental, um ponto que não pode deixar de passar é que David é um sociopata. Não que por seduzir uma adolescente – esta não é sua especialidade, pelo que ouvimos sua esposa dizer, surpresa ao constatar a juventude de Jenny. Ele é um charmoso 171, como tantos por aí, que conseguem dilapidar patrimônios alheios. Simpático, ‘boa gente’, com uma boa rede de contatos, mas usando expedientes bastante reprováveis para conseguir o que quer. Em seu diálogo com Jenny, quando justifica seu ‘trabalho’, frisa que a inteligência dela vai abrir caminhos que ele não conseguiria trilhar.

É um filme pra ver e rever. Como filmoterapia, pode ajudar também no diálogo entre pais e filhos.

Outro filme sobre superação é Coração Louco, filme pelo qual Jeff Bridges foi premiado. Trata-se de Bad Blake, cantor de música country que emburaca pelo caminho das drogas. Ao contrário de Ray e Johnny e June, que também retratam a luta, verídica, de astros contra drogas, desde o início de suas carreiras, conhecemos Bad Blake já em franca decadência, tocando por qualquer trocado, nos piores lugares possíveis. Além de sua dependência ao álcool e à nicotina, tem um ego inflado . Reluta em aceitar ajuda ou conselhos.



Em uma viagem para shows itinerantes, Bad Blake é entrevistado por uma aspirante à jornalista, Jean. Encanta-se com ela, entra em sua vida. Jean tem um filho, é uma pessoa sofrida mas se dispõe a que Blake ensaie o papel paterno, que rasgara ao sair de casa e abandonar seu próprio filho, por mais de 20 anos. Ao longo do filme, vemos que Blake tenta retomar contato com seu passado para construir um futuro melhor. Nem sempre isto é possível. Jean é acolhedora, aposta nele, correndo riscos inimagináveis, para apoiá-lo. Até que Bad atinge o que é o seu fundo de poço para depois retornar, uma oitava acima.

Coração Louco poderia ser apenas mais uma história de amor qualquer. Ou um drama com final trágico. Surpreende não só pelo desempenho de Bridges e Collin Farell, que cantam de verdade, mas pelo seu final, que não é o previsível happy end americano.

Além da evidente diferença de idade entre o par romântico, como em Educação, este filme também mostra que o sujeito tem o poder de escolha frente aos seus dramas pessoais. O que prefere: lamentar-se ou reerguer-se? Tanto em um como em outro, as jovens se mostram mais sábias e centradas, Mas Blake tem escolha de encarar seus aspectos sombrios – e, ao final de pouco mais do que 90 minutos, vemos que a saída escolhida possibilitou superar a si mesmo, apostando na criatividade.

E pra fechar este post, confabulemos sobre o premiado com Oscar de Melhor Filme Estrangeiro: O segredo de seus olhos. Ok, não vi os outros concorrentes da categoria, mas este filme mexe com o público, ao abordar em suas 2 horas e meia temas como amor, amizade, justiça – isto sem esquecer um rápido olhar sobre a situação política argentina nos anos 60. Mesmo quem, como eu, não é cineasta, percebe que o filme é um primor, muito bem filmado (detalhe: há uma cena em um estádio que TEM DE SER VISTA NO CINEMA!!!!). Conta com o carisma do onipresente Ricardo Darin e a graça de Guillermo Francella. Um pequeno couvert:



Não, pensando bem, O segredo dos seus olhos merece um post à parte, pela sua complexidade e sutileza. Então, aguarde, em breve …

Vencedores e vencidos

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