Em 2009, uma pesquisa realizada  pela firma Harris Interactive, por encomenda  da Intel, mostrou o papel de destaque da internet na vida dos adultos americanos. Foram entrevistados mais de 2 mil pessoas e uma das perguntas era se preferiam ficar sem internet ou alguma outra atividade por duas semanas. Navegar na rede foi a opção primária de muitos adultos, confrontada com  o sexo:  46% das mulheres e 30% dos homens abririam mão de relações sexuais por duas semanas para não ficarem sem internet.



E 67% dos adultos entre 18 e 34 anos declararam preferir internet a assistir televisão. A idade possivelmente influenciou nas respostas, apesar de não se poder comparar as faixas etárias estabelecidas: 39% dos homens (de 18 a 34 anos) abririam mão de sexo; entre mulheres de 28 a 34 anos a conexão seria a escolha de 49%, e de 52% entre mulheres de 35 a 44 anos. É bem verdade que hoje se pode assistir tv pelo computador…

De acordo com o site Digital Trends, 65% dos entrevistados disseram ser impossível viver sem acessar e 71% que é importante possuir dispositivos conectados à rede.

A pesquisa não era só sobre relacionamentos, enfocando também a economia, hábitos de compra  etc. Passados 4 anos, os percentuais de preferência pela rede devem ter aumentado. Surgem cada vez mais críticos ao excesso de conectividade. As redes sociais e uma série de aplicativos mudaram os relacionamentos e têm trazido mais instabilidade – o que acaba aumentando as angústias e ansiedades pessoais. Não sei ainda de pesquisa semelhante relativa ao internauta brasileiro, mas creio que o resultado não seria muito diferente. Afinal, é sabido do enorme interesse pelo mundo virtual que se encontra em terra brasilis. E hoje os celulares facilitam o acesso à rede e as pessoas praticamente vivem online. Perdem muitas vezes o que se passa ao lado delas, na ânsia de compartilhar o momento, distanciando-se dele.

A idade é uma variável importante na análise desta pesquisa. Pessoas mais velhas,  que já experimentaram sua cota de relacionamentos e separações, podem estar com preguiça de lidar com todas as frustrações que certamente os contatos presenciais trazem. Ficam protegidas em suas casas, vivendo a fantasia mas se poupando do desgaste, do desperdício de energia, do risco de se expor na vida real. Não foi divulgado também o percentual de cada estado civil dentre os  que preferem a internet ao invés de TV (outra virtualidade) ou mesmo ao sexo.

Este panorama  angustiante remete a filmes como Denise está chamando e predispõe a uma explicação genérica. Antes de se abismar e sair  jogando pedras na vida “virtual”, seria bom perguntar: “que carências a internet supre?”, “Que vantagens ela traz”? “Que dores e prazeres impede?”, “O que ela ensina?”.  Logicamente,  cada pessoa que responde que prefere a virtualidade tem um histórico, maior ou menor, mais sofrido ou mais leve, que ficou de fora da pesquisa.

O fascínio do componente ‘fantasia’ sobre a realidade é óbvio. Então seria o caso de se analisar que realidade é esta, que se quer evitar. Outro aspecto é se, no final das contas, a internet não é o canal em que, para muitos, a comunicação é possível, se dando de alma a alma. Um espaço onde se abandonam as máscaras (no jargão junguiano, persona)  e com isto pode-se ser realmente quem é.

Cabe se perguntar: ‘o que procuro’, ‘de que me defendo’, ‘o que evito’, ‘o que impeço de bom’? Ou ainda, ‘será a  internet é a única forma possível de poder me relacionar?’ Respostas a estas perguntas podem ser difíceis de encontrar, ou dolorosas. E talvez tenha-se aí uma indicação clara para psicoterapia. Afinal, a vida espera lá fora.

Ao mesmo tempo, é importante conhecer o que os estudiosos sobre internet falam sobre  relacionamentos que surgem mediados pelo computador. Adotando uma visão “apocalíptica”, desprezaremos conhecimentos importantes, apenas por uma postura reativa a uma nova modalidade de comunicação. O mesmo horror deve ter surgido quando o telefone foi criado. E também o rádio, a televisão…

Porém, ter fobia às novas tecnologias não é também indicado. Pode, inclusive isolar socialmente a pessoa, que também pode perder boas chances profissionais. Então, voltando aos antigos, talvez a máxima seja: “nada em excesso”. Portanto, desconecte-se de vez em quando, faça retiros da tecnologia e observe como seu dia pode render melhor e seus relacionamentos olho no olho podem melhorar também.

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Thays Babo é psicóloga, Mestre em Psicologia Clínica pela Puc-Rio, associada à ATC-Rio. Atende no Centro (Rio – RJ)

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