Em 2009, foi lançado o filme Flor do Deserto, baseado no bestseller sobre a vida da modelo somaliana, Waris Darie, mostrando o drama enfrentado por muitas mulheres africanas. Não era um filme ‘mulherzinha’: é para quem quer saber do que acontece além da nossa pele, de nossos umbigos e das fronteiras nacionais. Abordou temas tabus – sexualidade e identidade femininas – ao retratar esta terrível prática, que ainda persiste em muitos países. (Em maio de 2015, a Nigéria proibiu a mutilação genital feminina ). 

Diariamente, 6 mil meninas são submetidas a esta prática. Muitas morrem sangrando, em condições subumanas. As que sobrevivem podem sentir dores insuportáveis, por muitos anos.

flor do deserto

Um pequeno parêntese: não defendo que todas as tradições devam ser abolidas, e que tudo deva ser ‘globalizado’ ou padronizado como ‘politicamente correto’. Mas as que humilham, matam, torturam, causam sofrimento físico e/ou psicológico, estas, sim, devem sofrer repúdio internacional. E punição do governo, para quem insistir em perpetuá-las. O difícil de combater a mutilação genital feminina é que, no fundo, ela se presta ao controle e domínio – no caso, dos homens sobre as mulheres. E muitos não querem abrir mão deste poder.

Em termos cinematográficos, Flor do Deserto poderia ter virado um drama lacrimogêneo, do início ao fim, se caísse na mãos de um diretor errado. Mas, dirigido por uma mulher (Sherry Horrmann), o filme reúne momentos de humor, romance e cenas belíssimas no deserto. É mais um daqueles filmes que ‘pedem’ telona. Outro detalhe importante: a música é poderosa, como a  menina que aos 13 anos resolveu tentar se reinventar.

Não quer saber muito sobre o filme, antes de assistir ? Pare a leitura aqui…



Resumindo muitíssimo: Waris é uma jovem da Somália que foge da família. É uma sobrevivente a várias violências – a primeira perpetrada contra sua feminilidade, aos 3 anos de idade. Tinha tudo para ser mais uma dos milhões de mulheres que, ao sobreviverem, vão mantendo a tradição, passando adiante, submetendo suas filhas e netas, sem questionar. Mas, por mistérios que a Psicologia ainda não explicou, Waris tinha uma imensa força interior – era mesmo uma flor no deserto – e recusou-se a seguir o destino que lhe haviam traçado e foge de um casamento arranjado. A duras penas, vai parar em Londres e, apesar de todos os preconceitos que enfrentou inicialmente, consegue (re)construir sua identidade.

Ao compreender o que haviam lhe feito, a diferença entre ela e as outras mulheres, sofreu intensamente. Numa das primeiras tentativas de ajuda, deu de cara com a tradição da qual fugira, na voz de um homem do mesmo país, que a questionou sobre o que iria fazer, em como iria contra os valores da família. E em flashback sabemos um pouco mais de sua história familiar.

Quando conseguiu, com ajuda de bons amigos, se lançar na profissão de modelo, esbarrando na ausência de visto, o glamour das passarelas não lhe bastou. Waris conscientizou-se do grande trabalho que tinha pela frente. E falando de sua vida, contando sua história , despertou a consciência de muitas outras pessoas que não sabiam da prática a qual milhares de meninas ainda hoje são submetidas. Ou, se sabiam, não tinham realmente pensado a respeito. O resultado disto é que, com seu trabalho – não só nas passarelas – vem mudando a vida de muitas mulheres submetidas à mesma ‘lei’.

Flor do Deserto é um filme para homens e mulheres. Que sejam corajosos. Que fiquem incomodados na sua cadeira e sejam tocados. Que envolvam seus filhos e filhas no debate sobre o que é o poder, a dominação, o que é ser homem, o que é ser mulher. Sobre como é gostar de ser o que se é.

No Brasil, apesar de não termos esta prática específica, mulheres jovens e ainda crianças enfrentam condições muito graves de violência , precisando de ajuda e assistência. Infelizmente, muitas vezes ao procurarem auxílio são ainda mais discriminadas e agredidas. Muitas vezes, nós profissionais da clínica psi iremos ouvir histórias pessoais bastante assustadoras, caladas por anos, muitas vezes por vergonha. Se você conhece alguém que passou por uma situação de agressão e sobreviveu, sugira psicoterapia. 

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Thays Babo é psicóloga, Mestre em Psicologia Clínica pela Puc-Rio, com formação em Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e extensão em Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) Atende em Copacabana e no Centro, a jovens e adultos, em psicoterapia individual, terapia de casal e pré-matrimonial.

Ser mulher
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