117 minutos que pesam. Fiquei um tempo sem conseguir me mexer diante de tudo o que eu acabara de assistir em A pele que habito. Lendo os créditos, ainda processando o que acabara de ver, descobri que a última “maluquice” do diretor espanhol não tinha saído inteiramente de sua cabeça: Almodóvar se inspirou na novela de Thierry Jonquet, Tarântula. Pela sinopse, parece exagero dizer que Almodóvar “pirou de vez”. Jonquet ousou mais, foi mais ‘louco’. Se Almodóvar tivesse roteirizado igualzinho, acredito que seria mais difícil assistir – bem, para mim… A verdade é que amei o filme, que reavivou em mim a vontade de rever os principais de Almodóvar.

Não tinha visto nenhum trailerantes, pra ir sem expectativa (tenho percebido que muitas vezes foi bem melhor!). Alguma expectativa, claro que eu tinha, pois adoro o diretor. Li algumas sinopses e não hesitei, apesar de saber que seria indigesto para mim – filmes ou seriados com sangue, cirurgias, autópsias guerras, assassinatos e que tais não têm minha audiência, nem virando clássicos. Levei 5 anos pensando se fazia Psicologia ou não pra não ter de passar pelo anatômico… 8) Isto dá uma ideia da minha repulsa a sangue e cortes?





As críticas, que só li depois, em blogs, dividem-se. Ou são elogios rasgados ou críticas detonando. Vários categorizam o filme como de terror – até por conta de uma declaração de Almodóvar. Terror? Pretensiosamente discordo – a não ser que seja aterrorizante saber que temos pessoas totalmente sem ética e sem limites soltas por aí. É, pensando bem… pode ser assustador mesmo. Enfim, não há consenso sobre o filme e como, em blog, cada um diz o que quer, resolvi parar de ler e dar a minha opinião. Quem acompanha o Confabulando sabe que os aspectos técnicos não são os que mais me encantam. Não é a minha especialidade – às vezes até menciono, se me são evidentes, mas meu foco é a psicologia dos personagens.

Aconselho você a parar de ler, caso não tenha visto o filme ainda. Volte depois pois, a partir do próximo parágrafo, vêm vários spoilers.

Começo pelo cartaz: Loucura. Fúria. Paixão. Na verdade, são estes os principais aspectos que as críticas vêm ressaltando. Pra mim, falta uma palavra-chave: vingança, sendo este um dos melhores filmes sobre vingança. Sim, uma vingança descabida, desproposital – ou não, dependendo de que lado se esteja. Muito se destaca também o perfil obsessivo e perfeccionista de Robert Ledgard.

Cirurgião plástico renomado, Dr. Ledgard – interpretado por Antonio Banderas – logo no início apresenta em um evento científico a pele sintética que criou, capaz de suportar qualquer tipo de dano. Sua justificativa foi a possibilidade de salvar pessoas queimadas. Questões da bioética são levantadas sobre sua pesquisa – mas não é nesta vertente que o filme vai seguir. O que nos importa é descobrir porque o médico tanto se empenha em chegar à perfeição. Este é o básico, a sinopse que todo mundo leu na mídia.

Em pouco tempo, ficamos sabendo que esta obsessão pela pele perfeita e resistente surgiu a partir da morte da esposa de Robert. Após um acidente de carro – cujas circunstâncias serão reveladas em flashback – ela fica totalmente carbonizada. Não morre imediatamente e Robert incansavelmente batalha pela sua sobrevivência. Só que ela não suporta o estrago que o fogo fez à sua pele. Sua morte, terrível, acaba com o equilíbrio mental da filha do casal, Norma. Aliás, o filme revela que toda a família é desestruturada, desde a mãe de Robert que, em um momento elucidativo, diz que tem a loucura nas entranhas. Não que justifique, mas…





Almodóvar recorre a vários cortes temporais para contar a história de Robert, que montou um laboratório e um centro cirúrgico em sua mansão. É lá que trabalha secretamente no desenvolvimento desta pele resistente. O que causa repúdio é que, em seu experimento, usa uma cobaia humana: Vera Cruz – uma das várias homenagem ao Brasil do filme. Vera é interpretada por Elena Anaya, linda – e eu ainda não lembro de sua personagem em Fale com Ela (meu filme favorito de Almodóvar, até então). De repente, decide dispensá-los e manter apenas uma fiel empregada, Marília (Marisa Paredes), que trabalhara para sua família desde antes de seu nascimento. A chegada de Marília expõe Robert a algumas reviravoltas que fogem de seu controle.

Apesar de todos ficarem vidrados na atuação de Banderas, na loucura de seu personagem, não me parece muito diferente dos crimes hediondos de que se têm notícia pelos telejornais. Manter alguém em cárcere é até comum… A questão experimental, bem, não é para todos, mas, de vez em quando a gente sabe algo parecido. O médico é um vingador sem ética, totalmente diferente do vingador de O segredo dos seus olhos – para mim, até então ‘O’ filme de vingança. Acaba sendo mais vil do que o crápula inocente – mas não inofensivo – que ele queria punir. Quantos ‘crápulas’ inocentes estão à solta por aí, agindo de forma totalmente irresponsável, contando com a sorte de não encontrarem um vingador pela frente? Fiquei, durante boa parte do filme, pensando no porquê de Vera pagar a conta pelo ato criminoso de outra pessoa. Até vir a revelação, fantástica. A vingança, para o cirurgião, decididamente, é um prato que se come frio em um banquete… No entanto, Robert se embola com sua vítima. Fica obcecado pela sua criatura, tão semelhante à esposa morta. Vera parece sucumbir também, talvez como o estudado na Síndrome de Estocolmo.




Vera Cruz é, para mim, a personagem mais interessante. A verdadeira protagonista. Quando finalmente descobri quem ela era, o filme passou a ter outro significado, não sendo meramente um ‘horror psicológico’. A questão que se colocou para mim foi: “se você passasse por algo semelhante, você conseguiria sobreviver, sem enlouquecer?” Você resistiria, daria conta??? O que fortalece alguém? (No caso de você realmente não ter visto o filme, PARE AQUI, POIS SENÃO ESTRAGAREI MESMO)

Apesar de não ser o foco do filme, cabe aqui um parêntesis para quem curte psicologia. Para muitos transexuais, a cirurgia é extremamente desejada: é quando enfim se libertarão de um corpo que não reconhecem como seu. Muitos arriscam e perdem a vida, por não terem dinheiro ou acesso à cirurgia – que não é facilitada. Acompanhamento psicológico é super indicado para elaborar questões vividas ao longo de toda uma vida até chegar à cirurgia – e para se preparar para lidar com ela. Agora, imagine-se acordando de uma cirurgia em que o seu sexo foi trocado à sua revelia. Sem preparo algum psicológico, sem que existisse este desejo. Quantas pessoas seriam suficientemente saudáveis para não surtar diante de uma violenta mudança???

E por que Vera não surta? Como? Deixei por aí uma pista para a minha opinião sobre o que fez Vera manter-se sã. Espero a sua. Só não vale dizer que a louca aqui sou eu, pois afinal, a dica aparece no meio do filme! Pena que não consegui localizá-la ainda no youtube 😀 No livro, o final é bem diferente e só há um personagem que renderia um bom papel coadjuvante. Toda a parte da mãe e do Tigrão não existem.



___________

Thays Babo é psicóloga, Mestre em Psicologia Clínica (Puc-Rio) e atende no Rio de Janeiro.

Almodóvar e suas surpresas
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7 comentários sobre “Almodóvar e suas surpresas

  • 06/12/2011 em 16:24
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    Olá minha leitora psicóloga.

    Antes, vou me apresentar para seus leitores como um dos blogueiros que detonou o filme 🙂

    Agora, vou começar uma saraivada de questões que me despertaram no transcorrer da narrativa. Claramente, o Robert Ledgard é fascinado por sua criação, o que é introduzido nos momentos em que ele apenas a observa através de uma câmera escondida. Esse fascínio e admiração pela aparência justificava-se, na minha opinião, pelo luto da mulher, e não determinantemente pelo sucesso de sua investida cirúrgica. Portanto, o que o leva a abandonar a passividade de mero voyeurismo e possuir sexualmente Vera? “A Pele que Habito” não transforma esta mudança em algo plausível: um cientista frio e metódico abraçando uma paixão furiosa cegamente, mesmo sabendo do que se trata o seu “frankenstein”. Acho, inclusive, que a presença do Tigre estuprando Vera acabou agindo como catalisador, o que apenas torna o desenvolvimento desse personagem mais confuso e problemático narrativamente.

    Vera não é uma incógnita para mim, parecendo uma pessoa que usou o Ioga e o Pilates para adquirir concentração e perseverança em superar o cárcera imposto e a amputação de sua masculinidade. Em relação a ela, o que me preocupou foi como Almodóvar criou uma série de conceitos e situações (e no cinema, existe o modelo pista/recompensa, na qual o realizador deixa aquela para colher os frutos no ato final), e não os utilizou. Para que serviria contextualmente a pele perfeita se ela não é posta à prova? Por que ela não se libertou de Robert na visita do seu colega, quando poderia provar mais facilmente o doentio procedimento que foi submetida(o)?

    Reconheço a discussão sobre os temas da transexualidade e de estar preso em um corpo que não é o seu, e acho lugar-comum para um diretor como Almodóvar que tratou mais sensivelmente de uma tema similar nos seus outros filmes (como esquecer de Tudo sobre minha mãe?).

    Em resumo, parabéns pelo texto, gosto da maneira como você escreve e me satisfaço em ler comentários diversos dos meus quando bem argumentados e ilustrativos (o que é o caso).

    Até a próxima
    Márcio.

  • 06/12/2011 em 16:24
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    Hummmm acho que Vera nao surta porque ela, no fundo, gosta de ser… Vera!
    Engraçado, Thays, que, na minha avaliaçao, mais do que vingança, o filme fala de obsessao. O homem obcecado pela mulher que perdeu, o homem obcecado por por seu trabalho, pelas minucias, Nao a toa ele eh um cirurgiao plastico (diga-se de passagem, queria um assim para chamar de meu). A vingança foi um meio de ir atras de suas duas maiores obsessoes, e de unir o util ao agradavel. Acho que a Sindrome de Estocolmo faz sentido sim. Vera eh estuprada pelo irmao “tigrao” e recorre ao seu carcereiro em busca de conforto. Seu carcereiro eh tambem seu protetor, e eh seu protetor enquanto Vera for… Vera. O doutor embarca em sua propria obsessao e… se envolve com… Vera, sua criatura. Parece coisa do Pigmaleao: ele se apaixona por sua obra. Por sua obra ou pela recriaçao da imagem da mulher amada? Ou as duas coisas? Obsessao ou vaidade? Ele “brinca de Deus”, mas a força que moveu a vingança esmorece quando ele sucumbe aaquela mulher. Entao eh a hora em que ele acaba vitima da sua propria vingança!

  • 06/12/2011 em 16:24
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    Oi, Marcio
    Interessante este questionamento sobre porque Vera não aproveitou o momento. Cheguei a pensar que ela estava confusa mesmo em relação ao seu papel, talvez estivesse já entregue ao ‘algoz’, mas ver sua foto no jornal pode ter sido o que a tirou da ilusão. Vou inferir, porque não temos dados: caso Vera se expusesse ali, poderia levar um tiro. Bem ou mal, a pele podia não se romper, mas, era sensível, doía – ela sentiu dor no estupro, não sentiu? Podendo não sentir mais dor, foi a escolha mais adequada mesmo.

    Estrategicamente, Vera foi brilhante: se posicionou como aliada, fazendo com que Robert relaxasse e confiasse nela. Assim, pode conseguir a arma que a devolveu à liberdade… Em relação à transexualidade, só toquei no assunto porque a cirurgia teria sido algo extremamente desestruturante para alguém que não a desejasse. E, aparentemente, Vicente era hétero.

    Obrigada pelo comentário aqui! Até breve (talvez sobre Medianeras, rsrsrs)

  • 06/12/2011 em 16:24
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    Solange, se ela gostasse de ser Vera, porque teria matado o criador? Não teria sido melhor aproveitar daquele monte de produtos Chanel? Rsrsrsrs Sério, não teria ido em busca da família, mandaria um cartão postal e pronto. Sei não, espero que o livro tenha alguma explicação para tantas perguntas…

    Ps: na sessão a que assisti, as mulheres soltaram gritinhos nervosos quando Vera recebe aquele monte de produtos Chanel. E usa tudo pra desenhar, vê se pode, rsrsrs (to brincando, gente, a arteterapia foi um dos recursos que fez com que Vicente/ Vera não se desestruturasse psiquicamente).

    Taí, gostaria de ser a psi desta Vera, seria um trabalho e tanto… Beijos e obrigada!

  • 06/12/2011 em 16:24
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    Marcio, obsessão e fascínio pela obra perfeita sim. Talvez como uma segunda chance de ter a mulher ‘perfeita’ , que não o trairia porque estava totalmente sob controle, vigiada. Tenho dúvidas se ele perdoou a mulher pela traição… Se ela tivesse sobrevivido, como ele teria se vingado dela? Duvido que deixasse passar a humilhação de ser traído e abandonado pelo “Tigrão”, você há de convir…

  • 06/12/2011 em 16:24
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    Thays, concordo em várias partes com você. Vou comentar duas apenas. Uma que de crime hediondo, a realidade dá banho, e pessoas ainda sem “justificativas” tão claras para seus atos, como as do personagem do Banderas, que seja por uma obsessão, paixão louca, neurose (ou seja qual é o nome psicológico mais correto) pela esposa e filha que se suicidaram, age por uma vingança, que vai consumindo toda a sua vida.
    Outra que Vera Cruz é a protagonista do filme. Ela é quem dá a solução, o clímax, criatura ante o criador. Almodóvar dá um show nesse roteiro adaptado. É genial.
    A busca pela identidade, o problema com a identidade, como Vera Cruz, e o passado no presente, que fornecem as motivações de seus personagens, são construções recorrentes nos filmes dele. Muito bem construído.

  • 08/12/2011 em 16:24
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    é, eu também achei fascinante, dos filmes dele certamente foi o que mais me surpreendeu , Malu. Obrigada pelo comentário, bj!

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