No post com dicas cinematográficas para o Dia dos Namorados, falei o óbvio: filmes sobre relacionamentos amorosos são um grande filão. Nem preciso me alongar aqui, relembrando que, afinal, o amor é uma das questões centrais na vida do ser humano. Tornou-se mesmo o critério de muitos para definir o que é felicidade. Foi decretado: amor é oposto de solidão. Solidão é confundida com tristeza, abandono, depressão. Com esta lógica, estar só é estar triste. Ponto.


Não vou entrar no mérito da questão aqui, tentando definir o que é amor ou solidão – seria um bocado pretensioso de minha parte. Retomo o assunto sobre filmes sobre relacionamentos amorosos, que são meu objeto de estudo há tempoS. Atenho-me a três filmes em cartaz atualmente no Rio – sendo 2 brasileiros e um americano. Todos três com a minha recomendação: ‘vá e veja’! (depois diga se valeu… )


O primeiro é A mulher invisível. A história é simples, a princípio. Pedro, 30 anos, é surpreendido com a decisão da esposa de deixá-lo. Sem nunca ter percebido nenhum indício de insatisfação da mulher que adorava, mimava e com quem planejava ficar até o fim dos dias, Pedro fica chocado ao constatar que  tal ‘adoração’ foi a razão apresentada pela esposa para a separação. Ela espera Pedro chegar do trabalho (com flores!!!), já de malas prontas, e comunica  que está partindo com outro.  Segundo ela, Pedro era obcecado por ela mas não a percebia. Não a via. (Queixa comum a várias mulheres, em relação a seus maridos…)


Arrasado, Pedro encontra o apoio de um amigo, que o leva para baladas em que, noite após noite, ensaia e erra, conhece mulheres – às vezes mais de uma… Cansado de tantas tentativas, decide ser celibatário. Sua vida vai se desestruturando: perde o emprego, a luz é cortada, o apartamento está completamente sujo. Na geladeira, velas iluminam o vazio. Ou restos podres. Numa destas noites, sua vizinha, Amanda, bate à porta.


Amanda, representada por Luana Piovani, é tudo o que Pedro sonhou. Aliás, como Pedro, muitos homens sonham (não, não vou generalizar, dizendo todos – apesar dos homens da sessão do cinema darem muita risada!).  Bonita, Amanda organiza sua vida, cozinha, limpa, faxina, adora sexo, aceita que Pedro chegue tarde das noitadas, sem reclamar, adora futebol – a ponto de acompanhar as partidas da 3a divisão…


Um pequeno parêntese: na cena do futebol, lembrei do boçalossauro, metáfora criada pelo psicólogo Bernardo Jablonski:
“É o boçalossauro que nos faz tratar as mulheres como objetos, não respeitar suas opiniões ou desejos, não levantar a tábua da privada, falar palavrões, desprezar suas companhias quando a TV exibe no sábado à noite um compacto com os melhores momentos do emocionante jogo de futebol entre Quinze de Araraquara e Desportivo de Itaquaquecetuba (juniores); cobiçar a mulher do próximo e dos longínquos (…)”



Sim, por baixo da capa de romântico, Pedro tem restos do boçalossauro. Como romântico, fica encantado e resolve casar-se com Amanda. Seu grande amigo, preocupado, descobre a verdade e revela o óbvio a Pedro: Amanda, a mulher ideal,  não existe.  São alucinações de Pedro que, mais uma vez, não vê o óbvio e tem dificuldade de lidar com a realidade na porta ao lado…





Confrontado com esta realidade, Pedro tenta barrá-la na sua vida. Amanda, semelhante à  parte inconsciente feminina, que Carl Gustav Jung descreveu como anima, o inferniza. (O pensador suíço provavelmente aplaudiria o filme). Mais, não posso contar, para não estragar o filme para quem ainda não o viu.


O segundo filme é Minhas adoráveis ex-namoradas. Pela crítica do JB, eu nem deveria sair de casa. Mas domingo no cinema é sempre  melhor do que ficar assistindo a Fantástico (sério, me recuso!!!). Fui conferir, apesar da resenha do Cinemark também não ajudar. Como consolo, teria ao menos o ator principal, Matthew McCoughney – que, para mim, fisicamente, é uma versão revista e ampliada do Paul Newmann.


E sabe que eu gostei? Não dos belos olhos deles, mas da história em si. Fiquei com aquela sensação de que a ideia não era lá muito original, mas que estava bem contada. E foi só quando postei no Multiply que um amigo (de Cinema) reconheceu na hora, pela resenha, do que se tratava.


Vou colocar aqui e, ao final, falo qual foi a fonte inspiradora. Abre aspas:

O fotógrafo Connor Mead (McConaughey) adora liberdade, diversão e mulheres. Um solteirão convicto! Às vésperas do casamento de seu irmão, Connor recebe a visita dos ´fantasmas´ de suas ex-namoradas que o levam a uma hilariante odisseia, visitando seus desastrosos relacionamentos do passado, presente e futuro! Juntas tentarão descobrir o que transformou Connor num idiota insensível e se ainda há esperança dele encontrar o verdadeiro amor.



Junto com A mulher invisível, o público alvo deste filme bem poderia ser o masculino. Minhas adoráveis ex namoradas não deixa de ser   ‘filmoterapêutico’, para Don Juans que estejam abertos à reflexão. (Será que existem?) Mas o  texto de divulgação não é lá muito estimulante, não ajuda, parece moralista e deixa  totalmente previsível o final, já de início.  Os homens que aderem ao filme,  na certa querem  agradar suas acompanhantes. Se estas usarem  o filme de forma ameaçadora (“Olha o que pode acontecer se você não ficar comigo”) será uma pena!  Ajudaria se a sinopse fizesse  o link com a história que deve ter inspirado o roteirista.

Sim, se você lembrou do Conto de Natal, de Dickens, como meu amigo do IACS, Oswaldo, você lembrou certo! E, pode conferir a dica,  muita gente vai se reconhecer – ou reconhecer algum amigo… Enfim, o filme pertence à categoria “boa diversão”, passa leve.





Quanto ao terceiro filme, fui cheia de expectativa assistir a Apenas o fim. Produção brasileira, verba reduzida, elenco elogiado (merecidamente, diga-se de passagem). Todo filmado na Puc-Rio, conquistou o rótulo de cult.


Gostei mas não me senti parte do público-alvo. Talvez agrade mais a  uma geração depois da minha. Talvez duas. Alguns ícones e ídolos do casal não fizeram muito sentido para mim.


A história gira  em torno do fim de namoro de um jovem casal de universitários – daquele tipo que ninguém jamais acharia que se juntaria um dia, pois Antônio, ou Tom, é um sujeito esquisitão. Ou nerd? Talvez uma versão tupiniquim do Woody Allen do novo milênio. Mas a dupla funcionava bem, entre 4 paredes. Pelo menos, Tom achava que sim.





Como em A mulher invisível, mais uma vez o homem é surpreendido com a partida da mulher, totalmente inimaginada para ele. O que será que Tom e Pedro têm em comum? Será que Freud tinha razão quando se perguntava “Afinal, o que querem as mulheres?” 🙂  Sempre achei que a falta de respostas fosse pura incapacidade do Pai da Psicanálise, mas, pelo visto,  desde sempre,  é difícil para muitos homens terem um olhar atento para a sua mulher. Uma dificuldade arquetípica, talvez.


(Parêntese estapafúrdio: fui ao cinema no dia da morte de Michael Jackson. E no filme há uma piadinha breve sobre ele. Ficou um travinho amargo, ouvi comentários na sala, gente informando a quem acompanhava, sobre a notícia da noite.)


Ao mesmo tempo, apesar de as referências não fazerem parte das minhas memórias, considero que o filme remete ao aprendizado do amor, que todos devem fazer. Apesar da possibilidade da perda, das decepções, como vemos no filme, o aprendizado de Tom é inspirador. A forma com que reage à notícia, também. Aprender a se despedir, a deixar ir, a lidar com as frustrações, com as coisas inexplicáveis – tudo isto pode ser um treino para os jovens espectadores. E se fizer isto, já terá valido o ingresso.


Ficam então as 3 sugestões.

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Thays Babo é Mestre em Psicologia Clínica pela Puc-Rio e atende no Centro (Rio)

Amores na telona
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5 comentários sobre “Amores na telona

  • 30/06/2009 em 16:24
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    Thays, muito bom esse paralelo entre os filmes brasileiros… tem muito a ver, mesmo (e eu não liguei uma coisa à outra). Legal o conceito do “boçalossauro”, vou estudar um pouco e usarei isso oportunamente, haha….

    No mais: a sua frase sobre o McCounaghey ser uma versão “revista e ampliada” do Paul Newman é antológica. Faz eu me sentir menos constrangido por eventuais posturas escancaradamente boçalossáuricas no meu blog!!! 😉

    Um abraço,
    Ricardo Garrido

  • 01/07/2009 em 16:24
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    rarararará, de vez em quando eu dou umas escorregadas…
    Ah, se precisar do artigo, eu te dou as referências. É muito interessante (o Jablonski, além de psicólogo social, é roteirista e diretor de teatro.)

  • 23/07/2009 em 16:24
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    Me interessa, sim! Isso dá uma matéria na VIP (“não seja um boçalossauro”, algo assim)… manda as referências pra mim, please?

  • 23/07/2009 em 16:24
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    Ok, vou procurar aqui… O artigo é meio antigo, mas é muito divertido (e ao mesmo tempo, bastante informativo…)

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