Hoje, 2 de julho de 2010, foi um dia triste para grande parte do povo brasileiro. Tudo porque a Seleção Brasileira de Futebol foi desclassificada pela Holanda e deu adeus à possibilidade de ter o título inédito de hexacampeão. Nova chance agora só em 2014, quando sediaremos a Copa.


Não foi certamente a nossa pior derrota em uma Copa. Das que eu me lembro, marcantemente triste foi a de 82, quando fomos desclassificados pela Itália. (Talvez a derrota para o Uruguai, na final, em pleno Maracanã, tenha sido ainda mais dolorosa, não sei. Juro que não estava lá). Não tenho a pretensão, em um blog sobre psicologia, de fazer um revival – aliás, nem tenho competência técnica para isto. Mas, afinal, o que podemos tirar desta lição, para nossas vidas, individuais?

Várias lições são possíveis. Uma delas é básica e clichê: “o futebol é uma caixinha de surpresas”. Não sei quem foi o ‘filósofo’ que proferiu esta frase, mas foi uma definição perfeita. E sabe o que é melhor? É isto mesmo! O fator surpresa deve fazer parte das nossas vidas, sem que nos tire do eixo, sem que ‘surtemos’. Na dúvida, consulte um/a psi! 😀 Brincadeiras à parte, foi por não saber lidar com o fator surpresa, que a equipe brasileira dançou hoje, após fazer um primeiro tempo empolgante. A torcida, enfim, começou a acreditar de novo na Seleção.

A surpresa já tinha nos desestruturado, nesta mesma Copa. Ao final do jogo contra a Coreia do Norte, aturdido com o cartão amarelo recebido por Ramirez no finalzinho do segundo tempo, o time vacilou. O adversário, muito fraco e que foi logo desclassificado, não perdeu a oportunidade de marcar seu gol – feito histórico para eles. Nesta partida eliminatória contra a Holanda, ao empatar, o time brasileiro, ao invés de mirar a virada – ou, pelo menos, levar a partida pros pênaltis – simplesmente se entregou, se desesperou. Não é a primeira vez que isto acontece.


Mas, não adianta ficarmos na lamentação: temos de ir em frente, a vida continua. Como disse Drummond, que depois da derrota de 82 escreveu uma belíssima crônica, publicada no dia seguinte no Jornal do Brasil, é ‘perder, ganhar, viver’. No texto, o escritor mineiro questiona qual seria o valor de ter a vitória garantida, de só ir buscar a taça, como se fosse nossa de direito. Confira aqui!

Drummond não testemunhou a mudança do futebol brasileiro, que tem sido bastante criticado por quem ainda quer ver futebol arte. No entanto, o que mais se vê são desvarios nos clubes, com jogadores se achando onipotentes. Como ídolos, muitos têm pés de barro, e alguns são vergonhosamente indisciplinados (o que deveria ser percebido como anti-esportivo…). Mesmo assim, são adorados por uma torcida que se projeta neles, se identificando muitas vezes por sua origem mais humilde. Enfim, este vínculo se retroalimenta e os jogadores seguem com uma conduta deslumbrada pela combinação de prestígio e poder de consumo que, de repente, conquistam, já que o esporte envolve cifras milionárias. A mídia os alça à condição de ídolos, sem terem o menor preparo emocional para isto. Bem, nem podemos falar isto da seleção escolhida por Dunga, que foi bem disciplinadinha. Mas , convenhamos, o que faltou foi equilíbrio emocional. Ainda são poucos os times que investem em Psicologia do Esporte (desconheço se havia na Copa algum apoio deste tipo, quem souber me informe).

Ser emocional é uma característica de boa parte dos brasileiros. Nossos atletas – de todas as modalidades esportivas, tanto homens quanto mulheres – são fortemente pressionáveis. Lembro-me de várias partidas já ‘ganhas’ que foram perdidas, no último minuto, por despreparo emocional. Em vôlei e basquete então, já perdi as contas. Está na hora dos dirigentes dos esportes apostarem em um trabalho sério, não só ‘muscular’ ou tático, mas de apoio ao atleta e às equipes, para resistirem tanto à pressão da torcida quanto à da mídia ou mesmo a reagir de forma focada mesmo às situações imprevistas, acontecidas em campo, enquanto a bola está rolando. Jogar só com o coração é pouco, não ganha partida, não ganha torneio.

E assim como é no futebol, é na vida. Não há garantias, não são sempre os mesmos vencedores, os mesmos perdedores. O futebol reflete a mesma impermanência de todas as coisas. Uns dias a gente ganha, hoje não. E, como lembra Drummond, vamos começar a trabalhar já que estamos na metade do ano?

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Thays Babo é Mestre em Psicologia Clínica pela Puc-Rio e atende no Centro (Rio – RJ)

As voltas que a vida dá…

6 comentários sobre “As voltas que a vida dá…

  • 03/07/2010 em 16:24
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    É isso mesmo, né? Em janeiro eu tive a impressão de que o ano só havia começado para chegarmos na Copa do Mundo. Então agora é aproveitar o que resta do ano pois o Natal já tá batendo na porta, e o carnaval idem 🙂

  • 03/07/2010 em 16:24
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    Estah circulando na internet um e-mail que “esclarece” o resultado da Copa de 98 e o inexplicavel fracasso da seleçao brasileira (com um Ronaldo patetico) frente aa esquipe francesa. O e-mail termina informando que os resultados das copas jah estariam acertados por Blatter ateh 2014, sendo a 2010 ganha pela Argentina (isso vamos ver hoje). Nao gosto de teorias da conspiraçao. Elas parecem sempre uma boa desculpa pra tudo. Mas o fato eh que Mussolini jah em 1938, percebendo o fascinio exercido pelo futebol, colocou sua equipe na linha de frente e criou o mote: “Vencer ou morrer”. O futebol eh um campo de batalha e tem uma importancia politica indiscutivel. Que o diga o Presidente Medici em 1970 capitalizando o nosso tricampeonato. Isso ateh me faz considerar as tais teorias. O fato eh que, mais do que nunca, os nossos jogadores precisam sim de apoio psicologico. Os atores envolvidos numa copa do mundo se enredam e empoderam cada vez mais o “gladiador” dos estadios, dando-lhes o status de verdadeiros “guerreiros” como dizia a propaganda da cerveja. Nao hah quem aguente tudo isso impunemente.

  • 03/07/2010 em 16:24
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    Tatiana, aqui é o ‘país do futuro’. Quando dá meia noite do dia 31 de dezembro, entram as vinhetas da Globeleza, lembrando que é Carnaval. Acabando a 4a de Cinzas, o pessoal já pensa na Semana Santa, no próximo feriado – e este ano era ano de Copa. Carlos Drummond de Andrade descreveu muito bem o panorama – que não mudou muito de lá pra cá…

  • 03/07/2010 em 16:24
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    Solange, a internet voa! Também já me falaram desta teoria, de ontem pra hoje. Aliás, foi meu pai que falou sem ter lido nada ainda. Segundo ele, perdemos para podermos ganhar em 2014, no Maracanã. Seriam muitas vitórias em curto período de tempo. Têm também todas as teorias ‘conspiratórias’ por termos perdido em 98, com um Ronaldinho inacreditável em campo. Já conhece?

    Quanto a esta ‘persona’ que os jogadores adotam, de gladiadores, não os afeta somente. As crianças adotam estes modelos. Antigamente, quando se perguntava o que queriam ser quando crescessem, diziam: ‘médico’, ‘engenheiro’, ‘advogado’. Hoje os meninos dizem : “jogador de futebol”. Não necessariamente por amor ao esporte (que implica em disciplina), mas sim ao sucesso e fama. Isto é triste.

  • 06/07/2010 em 16:24
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    Thays,

    Boa, meio ano já se foi… Bem lembrado o texto do Drummond! (Eu sempre relembro ele a cada momento – o Corinthians sempre me obriga a isso)…

    Estou de olho no blog novamente… aguardo seu comentário sobre Brilho de uma Paixão!

    Um abraço,
    Ricardo

  • 11/07/2010 em 16:24
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    já comentei, Ricardo… e depois, o próximo deve ser Flor do Deserto.

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