No final dos anos 80, um filme gerou uma polêmica e tanto: Atração Fatal. Dirigido por Adrian Lynn, tornou Glenn Close famosa e antipática para alguns, até hoje, por seu papel. A trama era simples: em um final de semana em que a esposa estava fora, Dan Gallagher ( Michael Douglas) tem um rápido affair com Alex Forrest (Glenn Close). Como ele não quis dar continuidade ao caso, Alex perseguiu Dann até as últimas consequências, revelando-se uma total desequilibrada, com as situações mais grotescas e pavorosas. Até hoje o filme é citado – com humor ou pavor – quando se fala de traição, para alertar dos riscos que uma simples escapadela encerra em si mesma.


Quando O preço da traição entrou em cartaz, com um elenco de primeira (Julianne Moore, Liam Neeson e a jovem Amanda Seyfried, mais famosa por aqui após Mamma Mia), não pensei duas vezes em conferir. Não sabia que era um remake de um filme francês (que vou tentar conferir em breve). O título em português não deixava dúvidas sobre do que se vai tratar: traição. Mas, desde as primeiras cenas, antipatizei com a protagonista, a excelente Julianne Moore, o que se manteve até o fim do filme. (Aliás, nenhuma das personagens me despertou particular simpatia).

Resumo da ópera: Catherine e David formam um casal muito bem sucedido profissionalmente. Ela, ginecologista – ele, professor. As próprias escolhas profissionais poderiam ter algum significado , mas não são exploradas em momento algum no filme. A crise de casamento fica explicitada na noite do aniversário de David. Catherine organiza uma super festa surpresa para o marido, que se divide entre aulas nos EUA e no Canadá, onde moram. Detalhe: David não chega a tempo para a comemoração. Passa a noite fora, por ter perdido o avião. E Catherine fica frustrada, com a estupenda casa cheia de convidados.


No dia seguinte, Catherine e David não conseguem manter um diálogo decente. David se justifica, afinal a festa era surpresa. E revela o quanto o passar do tempo e o envelhecimento o apavoram. Muito magoada por achar que ele não se esforçara para voltar na véspera e insegura ao constatar o pavor dele com seu próprio envelhecimento, Catherine dá um significado todo especial ao SMS que ele recebe, mandado por uma aluna – certamente nada ‘bem intencionada’. O monstrinho de olhos verdes desperta na médica. Até aí tudo bem, por mais que seja questionável fuçar os torpedos do cônjuge. Mas, sejamos condescentes e demos um ‘desconto’: o bolo que ela levara deixaria qualquer mortal um tanto quanto chateada – e desconfiada. Paralelamente a isto, sabe-se lá porque, o filho do casal é totalmente indiferente à mãe, beirando à rebeldia.

Aviso: quem ainda não viu o filme – e que não gosta de saber o final da história – deve parar por aqui.


Catherine – que é uma ginecologista que não entende nada de psicologia – ao invés de buscar ajuda em uma psicoterapia ou mesmo tentar uma simples “D R”, resolve ‘inovar’. Aproxima-se de Chloe (personagem de Amanda Seyfried, cujo nome batiza o título no original), que é uma garota de programa a quem observa sempre da janela de seu consultório. Pede para que seduza o seu marido. “Como assim?” Olha, pode parecer inverossímil, mas não duvido de que exista gente que faça isto. Quando o ciúme se instala, não se podem prever as consequências, por isto tem de sempre ser combatido. Jogar luzes sobre o problema e iluminá-lo são fundamentais para impedir seu poder de destruição.



Assim como não tive empatia por Catherine – apesar de concordar que ela tinha todo motivo para suspeitar do marido. Chloe, a garota de programa, não convence. Ela tem uma fala interessante, no início, ao dizer que sempre buscava algo de positivo nos seus clientes. Mas, pensando bem, não foge muito ao clichê cinematográfico sobre as prostitutas. Quase no final, fica claro o real interesse de Chloe. Sai do consultório da médica, após tentar pressioná-la a assumir um relacionamento (algo nunca imaginado por Catherine), e parte para seduzir o filho do casal. Aí fiz o link: “vai virar um thriller, ou algo gênero ‘Atração fatal'”. Nada disto, a trama dá uma embolada no final e logo vêm os créditos finais.


Porém a personagem em si não fica bem delineada. Poderia ser uma carente, poderia ser uma sociopata – aliás, foi nisto que apostei, na medida em que contava particularidades em relação a David, apesar de Catherine ter querido retroceder. Quando Chloe se aproxima do filho do casal e o seduz, na casa da família, lembrei de Atração Fatal, imaginando ver a reedição de Alex Forrest. Porém, quando Chloe se deixa matar, a teoria psicopatológica na qual eu tinha apostado se mostrou furada. Ou seja, nada na personagem era consistente. A não ser que realmente ela tenha se apaixonado pela médica. A origem de tal paixão no entanto não fica clara. Começara antes mesmo de Catherine querer contratá-la, quando tenta fazer contato no banheiro de um restaurante? Enfim, a alma de Chloe não fica clara para o espectador – que pode computar tudo a uma falha de caráter, que muitos acham comum e esperado em profissionais do sexo.


E David? Depois de todas as turbulências e trapalhadas em que Catherine se mete, ele é decididamente o mais centrado e honesto do trio. Quando enfim Catherine se dá conta do plano de Chloe, fica arrependidíssima, claro. E a melhor cena do filme é quando ela reafirma o seu amor por ele. Desabafa, falando das suas inseguranças, frente ao seu próprio envelhecimento e mostrando o quanto o envelhecimento, nele, só o tornou mais atraente para ela.

Então o que O preço da traição nos deixa? Plagiando um antigo psicólogo brasileiro, diria que a principal mensagem é que ‘sem comunicação, não há solução’. Outras seriam: 1) ‘o ciúme é uma droga – que não deve ser provada ou estimulada, nem por brincadeira’. 2) ‘em caso de crise no relacionamento, melhor buscar ajuda psicoterápica’, ao invés de improvisar com métodos, digamos, pouco ortodoxos… 😉 3) uma neurose não tratada pode ser muito destrutiva…

[flash http://www.youtube.com/watch?v=nwqWHrwNuNk]


Como Atração Fatal e outros filmes polêmicos, no final das contas este também não traz nada como crescimento pessoal, serve pelo menos para um bate papo com amigos, pós-cinema, a fim de discutir o que se pode ou não considerar traição, o que se pode relevar ou não…


__________________
Thays Babo é psicóloga clínica e Mestre em Psicologia Clínica pela Puc-Rio

Teste de fidelidade tosco
Classificado como:                            

2 comentários sobre “Teste de fidelidade tosco

  • 29/05/2010 em 16:24
    Permalink

    Bem, ainda nao vi o filme, mas de tudo o que vc diz sobre ele, uma coisa me chamou mais a atençao. Entendi que o fato de ela se sentir insegura em seu casamento tem relaçao com a sua percepçao de envelhecimento. Esse tema eh muito contundente, e me parece que o vemos como coisa menor. A beleza estah sempre associada com a juventude, e essa logica tem sido mais cruel com as mulheres. Bem, de todos os modos, fiquei curiosa. Se for assistir, escrevo de novo.

  • 29/05/2010 em 16:24
    Permalink

    Solange, o filme pode ter desdobramentos. O que vou falar é SPOILER – espero que você só leia DEPOIS do filme.

    Porque tudo começou com o afastamento deles. Rastreando isto, ficou mais ou menos claro que aconteceu após o nascimento do filho. Isto é super comum: a mulher que vira mãe e se dedica full time para o filho, para a constituição da família e deixa a sensualidade de lado. Cada vez o casal tem de trabalhar mais para dar mais e mais para o filho (que fica insuportavelmente mimado…). E aí, um dia, constatam que não tem mais a mesma intimidade e intensidade da juventude… E , não sendo mais jovens, tem de ter muita cabeça para segurar a onda e reinventar o casamento…

Não é possível comentar.