internet trouxe mudanças importantes para os relacionamentos amorosos. A criação dos smartphones facilitou ainda mais o contato. No entanto, os aspectos negativos no uso da tecnologia têm aparecido bastante na clínica de psicoterapia. 

  • Tempo de resposta
  • Forma textual – incluindo aí a pontuação

Pesquisas apontam que mensagens trocadas por whatsapp e outros messengers, muito frequentemente, causam insatisfação no relacionamento – seja ele casual ou de longa duração. Alguns aspectos vão além da forma textual: quem a recebe pode interpretá-la de forma distorcida, de acordo com o seu histórico amoroso ou padrões disfuncionais de pensamento . Um exemplo é a pessoa que fica irritada com a demora de resposta, deixando de considerar que a outra pessoa pode, por exemplo, estar em uma reunião de trabalho. Ou mesmo falando com outra pessoa – sem que isto signifique falta de interesse ou cuidado. 

O declínio do uso da função primária do celular e suas consequências

Em alguns lares, já não se tem uma linha fixa ou esta não é a forma favorita de contactar. O surgimento dos vários messengers e whatsapp baratearam os custos e rapidamente se popularizaram. As gerações mais jovens, nascidas após a criação do celular, têm demonstrado inabilidade social com o uso do telefone. A ligação telefônica pode provocar  muita angústia, chegando a ser interpretada como ‘invasiva’ ou ‘íntima’ demais. O repertório comportamental dos mais jovens ficou mais estreito, o que pode mais tarde gerar problemas quando entrarem no mercado de trabalho. Mesmo mandar um áudio, principalmente nas primeiras interações, pode ser interpretado como algo extremamente invasivo ou íntimo, sendo bastante evitado. À medida em que os aplicativos são atualizados, criam-se recursos para controlar. Muitas pessoas evitam ser controladas – por exemplo,  em relação à visualização, para não demonstrar disponibilidade excessiva – como se estar disponível significasse menos valor no ‘mercado afetivo’.  Infelizmente, alguns posts das redes sociais popularizam “verdades” facilmente contestáveis, mas que para jovens podem ser valorizadas.  “Visualizar e não responder já é uma resposta“.  Pessoas ansiosas tendem a aceitar sem questionar este tipo de mensagem, por esperarem que seu par esteja a postos o tempo todo. Ao valorizarem esta ideia, muitas vezes criam problemas desnecessários para a relação. 

Mensagem de texto – texting

Quando uma mensagem de texto chega, muitos elementos além do texto em si são levados em conta por quem recebe: a pontuação usada, o tempo entre mensagens, uso de emoticons. Tudo pode ser (mal) interpretado de acordo com os padrões e filtros mentais de quem lê. 

Imagem: Freepik

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Redes sociais e outros aplicativos

A possibilidade de vigilância sobre o que o/a parceiro faz, pensa  ou “curte”, se está online ou não, se visualizou ou não, podem gerar muita ansiedade e angústia.

‘Fuxicar’ o aparelho do/a parceiro/a se tornou, infelizmente, uma prática comum, já que a insegurança aumentou com a comunicação online. Mas, se a pessoa que investiga é descoberta, ou fala sobre o que descobriu, em geral, há mais prejuízos do que benefícios para o relacionamento. Se inocente, a pessoa vigiada tende a se sentir ofendida e/ou invadida. Se não inocente, poderá então tomar maiores precauções para não ser pega. Nada vai trazer mais segurança à pessoa que desconfia de traição, já que a partir daí algumas precauções passam a ser tomadas. Aliás, mesmo pessoas que não têm nenhuma intenção de trair também irão ficar mais cautelosas. (Este comportamento merece outro post, pois tem a ver com intimidade e violação de privacidade, levando à discussão de valores importantes). 

amor virtual

Gerir tantas estratégias de comportamento provocam a ansiedade – tanto em quem manda a mensagem quanto em quem recebe (ou espera receber). E também não promove a autenticidade e a leveza que deveria haver no relacionamento. Com a baixa tolerância à frustração, os relacionamentos ficam cada vez mais líquidos. 

Saiba mais sobre relacionamentos líquidos

Regras de uso – no casal e na famíliaMuitos divórcios são causados pelo uso excessivo da rede. Um advogado americano, em matéria da Times , considera o Facebook um dos principais motivos para divórcio entre seus clientes e fala até que alguns comportamentos online poderiam ser considerados uma preliminar (no sentido sexual mesmo), pois fica fácil  localizar alguém que já foi importante no passado. Ou assediar/ ser assediado/a por quem se conhece há pouco tempo. 

Então, além de toda a problematização da comunicação direta, por conta desta ‘liquidez’, a insegurança aumenta e, consequentemente, a vigilância sobre o comportamento virtual do par, pois pode apontar para algo além da rede. 

Alguns estudiosos, como Gottman, falam da etiqueta digital.  Alguns limites devem ser colocados – e uma das sugestões é a uma zona na casa livre do wi-fi, por exemplo. 

Recentemente, surgiu um termo que descreve pequenos comportamentos que alguns casais considerariam traição: micro cheating. Alguns podem ser considerados insignificantes, mas, para algumas pessoas podem indicar que o/a  parceiro/a não está inteiro no relacionamento, ou – o que pode parecer trágico – está emocionalmente investido em outra pessoa. Segundo pesquisas comentadas pela matéria da Psychology Today, há algumas diferenças de gênero: mulheres se preocupam mais com o comportamento de seus parceiros. 

Imagem: Freepik

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Há quem questione tanta limitação e tantas regras, encarando com naturalidade, sem problematizar, que seu par continue falando com ex-parceiro/as, por exemplo. Por isto,  os acordos com o seu par amoroso são essenciais, já que não são ‘verdades universais’. Pode ou não ser amigo/a do/a ex? Pode ou não curtir fotos e textos? Pode ou não comentar? É melhor falar sobre o que pode detonar crises e separações antes que aconteça alguma situação inesperada. Como diz o senso comum, “o combinado não sai caro“.  Mas um comportamento preventivo também seria bom: para que expor tanto a felicidade do casal? Muitas vezes isto desperta o interesse em pessoas que já foram significativas ou estão por perto. 

imagem: Getty Images/Chad Springer

imagem: Getty Images/Chad Springer

Terapia de Casal e a Terapia Pré-Matrimonial ajudam a estabelecer os limites do que é aceitável ou não. Cada um irá deixar claros os seus valores e juntos estabelecem os que são comuns ao casal. O que cada casal considera aceitável ou não pode ser muito diferente da prática dos casais de amigos – e tudo bem. A comunicação e expressão dos sentimentos são imprenscidíveis para a saúde do relacionamento e, por isto, merecem atenção especial. 

Então, se o seu relacionamento amoroso está em um momento crítico por estas diferenças de comportamentos e expectativas, pelo uso da internet, converse sobre isto com seu par, negocie. E, se não conseguir resolver, procure ajuda psicoterapêutica.  

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Thays Babo é psicóloga e Mestre em Psicologia Clínica pela Puc-Rio. Com formação em TCC e extensão em ACT, atende no Centro e em Copacabana a jovens e adultos, em terapia individual ou de casal – inclusive pré-matrimonial.

 

Vida amorosa na era digital – o que está acontecendo?

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