No último mês, 3 filmes chamaram a minha atenção por tratarem de um tema difícil e delicado: a morte. Já comentei o primeiro que vi: Paris. Em seguida, assisti a Horas de Verão e, por último, ao premiado A Partida. Os 3 filmes merecem aplausos. Inacreditavelmente, uma das críticas que li em um jornal carioca dizia que Horas de Verão era apenas ‘correto’. Correto é muito pouco para um filme que propicia reflexões sobre a existência. Ah, sim, para quem suporta refletir sobre finitude, evidentemente. Se não, melhor nem conferir! Apesar de ser uma história banal, pode abalar os mais iludidos acerca da vida. Pode também gerar uma crise de ansiedade. Aos mais iludidos, que acham que não vão enfrentar estas questões e que vivem como eternos, causaria tédio e sono apenas.

Em Horas de Verão , a matriarca de uma família francesa, Hélène Berthier, ao sentir que a morte se aproxima, fica deprimida. Deprimida mas Mme. Berthier é uma mulher prática que, na reunião de família, por ocasião dos seus 75 anos, passa ao filho mais velho, Frédéric, instruções sobre o que fazer quando ela morrer. Coloca Frédéric como o responsável pela preservação do patrimônio. Apesar dele, inicialmente, se recusar a ouvir o que ela tem a dizer, logo cede. A velha senhora tem a sabedoria (e, ressalte-se aqui que sabedoria não é intrínseca à velhice, apesar do imaginário dizer que sim) de orientá-lo:caso seus dois irmãos, Adrienne e Jérémie, não concordem em manter tudo, que se desfaçam do patrimônio, seguindo suas orientações, que deixou detalhadas.





Várias questões vem à tona. Uma delas é o desenraizamento: Adrienne e Jérémie deixaram a Europa, em busca de realização profissional. Ele mora na China e ela, interpretada pela atriz Juliette Binoche, migra para os Estados Unidos. Há uma rápida crítica à exploração do trabalho infantil chinesa, nada aprofundada. Não se aprofunda também o extremo oposto comunismo x capitalismo. Sutilmente, a França, lugar da cultura, aparece bem no meio do caminho entre América e Ásia: é onde permanece Frédéric.

Um dos focos possíveis é a relação familiar. E como lidar com as memórias, com a morte e com a continuidade. Frédéric, único filho que permanece na França e quer lutar pela preservação da memória em comum, projetando um futuro de união para os filhos dos 3, é voto vencido.

Chama a atenção como Hélène consegue organizar e, de certa forma, preparar a despedida das coisas. Ela as usufrui até o último instante mas, prepara-se, despede-se e se desapega. Talvez não fosse possível tamanha civilidade em uma discussão familiar brasileira. Em uma comparação com a peça/filme A Partilha , fica a impressão de que o racionalismo francês deixou marcas profundas naquele povo – e , neste caso, melhor assim… A saída de cena da mãe não é um transtorno, não é palco de disputas acirradas. Os irmãos discordam, sofrem mas não se agridem: respeitam-se acima de tudo.

Como psicóloga, me chamou a atenção a recusa do filho mais velho de aceitar que sua mãe tenha tido uma vida amorosa em paralelo, que correu de forma discreta. Ao mesmo tempo, sua relação com a filha mostra uma abertura bastante amadurecida.

Certamente o filme reabre feridas em quem já passou por situações de divisão de bens, de despedida e afastamento de parentes. Na infância, a gente não imagina que pode ser assim. Muitos não chegam a amadurecer a ponto de pensar que a fatídica morte chega para todos. E continuam se agarrando com unhas e dentes ao que possuem, acumulam e disputam.

O outro filme a ser analisado, A Partida, recebeu o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2009. Dirigido por Yojiro Takita, discute também a morte e, apesar do tema espinhoso, reúne doses precisas de humor, dando uma suavidade que faz com que o filme não seja lacrimogêneo ou deprimente.

Daigo Kobayashi perde seu emprego em uma orquestra, de uma hora para outra. Está endividado, ainda pagando seu violoncelo. Sua esposa o apoia incondicionalmente e resolvem deixar Tóquio. Voltam para a cidade natal de Daigo para morar na casa herdada de sua mãe. No primeiro emprego que busca, Daigo, de cara, é aceito, sem que lhe seja exigida nenhuma qualificação ou experiência prévia. O salário é alto, pago em dinheiro e ele já recebe um adiantamento no dia da contratação. Dificil de recusar. O detalhe é a função a desempenhar: a preparação de cadáveres para sepultamento ou cremação.

Daigo sofre. Nunca tinha visto um morto. Sente-se culpado por não ter estado presente quando a mãe morreu. Tem preconceito. Lidar com defuntos causa-lhe asco – e sua primeira vez é das mais difíceis. Enquanto pode, esconde o que faz no novo trabalho para a esposa. Esta repulsa ao contato com a morte não está somente na cultura oriental, sejamos sinceros. Aliás, aqui pelo Ocidente é talvez até maior. Não é, a princípio, um trabalho sobre o qual se tem orgulho de falar.

E o filme vai revelando o quanto a morte é apenas o contraponto à vida. Uma passagem, como um dos personagens conclui. Tê-la sempre presente, ajuda o protagonista a reavaliar sua vida, sua profissão, seus vínculos com o passado. A Partida ainda faz pensar sobre o perdão e resgate. Isto tudo sem que haja um foco relogioso, institucionalizado. A religiosidade de Daigo ou de seu chefe – ou mesmo sua ausência – não são discutidas. O que transparece o tempo todo é o profundo respeito e entendimento sobre a morte e a importância dos rituais – tanto para quem parte como para quem fica. Ao espectar (e talvez relembrar) a dor de diversas famílias, percebe-se a importância do trabalho de preparar a partida de forma cuidadosa e respeitosa.

Ao longo do filme, muda-se o olhar sobre quem trabalha no ofício de Daigo. “Acondicionar” não é para qualquer um (como se percebe, nos minutos finais, quando chega uma outra equipe, não do mesmo nível, para transportar um corpo).

Depois do trailer, farei uns comentários considerados SPOILER… Ou seja, se não viu e não quer perder o impacto, melhor parar por aqui…





De uma forma um tanto canhestra, a esposa de Daigo descobre sua profissão. Daigo tem enorme dificuldade de expor seus sentimentos, suas angústias. Segundo conta uma importante personagem, ele era assim desde criança. Chorava e sofria sozinho. Um ‘introvertido’, numa visão junguiana. E muito sensível.

Ao saber da verdade, a esposa – que sempre se colocara ao seu lado, incondicionalmente, em todas as circunstâncias – dá uma dura no marido: que ele abandonasse a profissão ou ela iria embora. Daigo não desiste e ela vai embora, o que o faz pensar em se demitir. Mas é envolvido pelas circunstâncias e descobre o quanto reafirma a sua própria vida neste trabalho. Descobre sabores, reforça vínculos. Encontra um sentido para a sua vida, que não tinha tido até então.

Sua mulher volta. Traz uma novidade e de novo insiste para que ele reconsidere e abandone o trabalho. E quando uma nova discussão está prestes a começar, chega um chamado ao trabalho. O que a princípio ela julga como insensibilidade dele, sair para trabalhar em um momento de discussão importante, surge como uma oportunidade para que ela compreenda o impasse do marido. Ela o acompanha pois, desta vez, a morte escolhe uma pessoa querida e amiga. Ela testemunha e participa da cerimônia, junto com a família. Com isto, seu olhar sobre o marido muda. De asco, revolta, indignação, passa à admiração e orgulho. Esta mudança é fundamental.

Pouco depois, Daigo tem de encarar umoutro desafio, que o leva a se defrontar com o seu passado. E é com o apoio da esposa que ele consegue resgatar sua memória afetiva, completando uma lacuna importante que, certamente , o tornará um homem e pai melhor.

A diferença entre o oriental e o ocidental – ou mais especificamente, entre japonês e brasileiro – é um dos aspectos que mais me chamou a atenção. Tanto no momento da despedida – que é de recolhimento, só para os parentes mais próximos e amigos – como também no relacionamento homem – mulher. A postura suave e aceitadora da esposa remeteu ao hinduísmo, que fala do casamento Shiva-Shakti. Nas diversas tradições se vê o masculino e feminino, cada um na sua função. E no Ocidente, estes papéis se flexibilizaram mas, a que preço?

Chama a atenção outro ponto em comum entre japoneses e indianos: o trabalho de preparar cadáveres é considerado ‘impuro’. De certa forma, parece as ocupações que os dalits têm, na Índia. Daigo passa a ser evitado. Ao longo do filme, a função deixa de ser vista – por Daigo, amigos e espectadores – como um ‘carma’ ruim, um castigo. Apesar de não se usar a palavra ‘dharma’ (que vem do hinduísmo), podendo se traduzir como ‘missão’, vai se percebendo que missões, independente de quais sejam, devem ser desempenhadas com profunda atenção, reverência e dedicação. O mais difícil é descobrir qual a que cabe a cada um.

Logo de início, o chefe de Daigo diz que ele foi atraído para aquele emprego pelo destino. Ao longo do filme, isto é repetido mas fica o aviso: o destino só se revela ao final do filme. Aqui também permanece em segredo, desejando que mais gente o assista e repense a vida.

Impermanência na telona

8 comentários sobre “Impermanência na telona

  • 17/08/2009 em 16:24
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    Esse filme é realmente fantástico! “A partida” eu perdi! Mas pretendo vê-lo assim que chegar na locadora!

  • 17/08/2009 em 16:24
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    A Partida, aqui no Rio, ainda está em cartaz, mas só em um cinema. Se puder alugar e ir ver num telão, vale a pena… a fotografia também é muito bonita!
    Obrigada pela visita e comentário!

  • 22/08/2009 em 16:24
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    Oi, Thays
    Parabéns pelo Blog! Serei assídua! Comecei o meu na mesma época do seu. Te conheço dos comentários do Ricardo da Vip.
    Visite meu blog.
    Bjinhos,
    Patrícia

  • 22/08/2009 em 16:24
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    Patrícia, quero conferir seu blog mas você esqueceu de colocar o seu link!
    Obrigada pela visita!

  • 31/08/2009 em 16:24
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    Belo post, thays! Vc acredita que eu não consegui ver “Horas de Verão” até hoje? O pior é que eu tinha ganhado duas entradas (daquelas que só valem de segunda a quinta), daí aproveitei pra ver outros filmes no final-de-semana, e aí acabei não indo mais…

    Vergonha profissional, mas tudo bem… uma alma bem intencionada mantém esse filme em cartaz numa sala aqui em SP, então vou assistir!

    Um abraço,
    Ricardo

  • 31/08/2009 em 16:24
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    Ah, veja! eu gostei muito, aproveite que no telão é tão melhor…
    Mas A partida me tocou mais, sabe? de vez em quando me pego pensando no filme…
    Brigada pela visita!

  • 16/09/2009 em 16:24
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    Oi, prima!
    Como você, adoro a telona! Não te respondi mas, saí olhando no jornal onde podia ver os filmes. Estava focada mesmo é em Caramelo, mas no dia que resolvi ir fiz tantas coisas, que acabei perdendo o horário e entrei no Estação Ipanema para assistir Os Amantes. Amanhã vou ver Caramelo. Aluguei A Partida e achei lindo, mesmo com todas as interrupções que acontecem quando assisimos em casa. Todo preconceito da morte na verdade é medo e quanto menos nos deixamos levar pela vida, experienciando pequenas morte, mudanças, mais terror ela nos causa. Adorei e vou usar para discutir o arcano da Morte no curso de Tarot que vou dar. Obrigada
    Bjks
    Sasha (Mariana Babo)

  • 16/09/2009 em 16:24
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    Oi, Mariana!
    assisti a este Amantes ontem, ainda to processando e vai virar um post aqui no blog em breve.
    Ah, que pena, A Partida pede uma telona, pois a fotografia é linda e a trilha também… Caramelo é muito interessante, como você deve ter lido nos meus comentários. Tomara que você goste apesar do estranhamento dos minutos iniciais…

    Beijos

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